Seria o escritor Raphael Montes um canibal?

Jantar secreto, novo romance de Raphael Montes, apresenta uma trama repleta de citações pops, referências de outros escritores policiais e canibalismo

Desde a publicação de Suicidas, passando por Dias perfeitos e O vilarejo até este Jantar secreto, Raphael Montes tem mostrado um amadurecimento enquanto escritor. Também certo gosto pelo canibalismo. Mas antes tratemos deste último romance.

Protagonistas fodidos sempre rendem bons personagens. Com base nesta ideia se desenvolve Jantar secreto. Primeiro, temos o protagonista-narrador Dante – cujo nome, não por acaso, já nos leva a pensar no inferno por vir. Depois conhecemos os amigos deste, com quem divide o apartamento. São Hugo, Leitão e Miguel. Os quatro vieram de uma cidade do interior do Paraná, Pingo D’água, para o Rio de Janeiro a fim de fazerem faculdade e crescerem na vida. No entanto, mesmo depois de formados, continuam com empregos medíocres e ferrados de grana. O pior acontece quando recebem uma notificação para comparecerem à imobiliária em que alugaram o apartamento. O aluguel estava seis meses atrasados. Dante vai em cima de Leitão, o responsável por pegar o dinheiro dos quatro e pagar o aluguel pela internet. O amigo nerd e obeso de Dante confessa gastou o dinheiro com uma prostituta, Cora. Não por acaso, a mesma prostituta que os amigos tinham contratado como seu presente de aniversário meses antes.

Hugo propõe que, aproveitando seus talentos culinários, façam alguns jantares no apartamento para pagar a dívida. Inclusive a missão de divulgar esses eventos na internet fica ao cargo de Leitão. Um dos melhores personagens do livro, por seu trauma no passado e as reviravoltas que provoca na trama, ele recorda o “enigma da gaivota”, sempre contado por Dante e divulga na web que eles farão um jantar de carne humana, apenas por zoação. Várias pessoas manifestam interesse. Uma delas mudará completamente a vida deles.

Sem spoilers. Isso é apenas o começo. Daí para frente, muita coisa acontece. Parece um livro que Alfred Hitchcock, diretor do filme Psicose, gostaria de filmar. Embora o final lembre mesmo Tarantino.

Canibalismo e referências

Dias perfeitos, outro romance do autor, possui um plot interessante. Um estudante de medicina que, apaixonado obsessivo, rapta uma mulher e a mantém cativa, levando-a de um lugar para outro do Rio de Janeiro. Mas, vez ou outra, parece ter umas “barrigas” no texto. Trechos em que a história não avança. Jantar secreto, por sua vez, tem outra pegada. Mesmo com muito mais personagens, eles se mostram mais humanos. Talvez devido ao recorte que o autor faz, revelando o egoísmo dos indivíduos.

Jantar Secreto, de Raphael Montes (Companhia das Letras, 2016)

Também fica claro o gosto de Raphael Montes por canibalismo. Diferente de seus personagens, aparentemente, sua preferência gastroliterária se propõe a mostrar as leituras que leva em sua mala pessoal. “Dante” em referência ao autor da Divina comédia. A prostituta Cora, como dito no livro, em homenagem à poeta Cora Coralina. A epígrafe com frase de Rubem Fonseca antecede uma série de poemas de banheiro que lembram as repetições que o autor de O cobrador usa. O protagonista lembra também Ripley, o talentoso trapaceiro criado por Patricia Highsmith. Sem falar do que o autor faz na página 240, na qual referencia seu próprio romance anterior, Dias perfeitos, ao descrever um casal que para em uma blitz policial – como se conectasse seus livros assim como Tarantino liga seus filmes.

Canibalismo literário do melhor tipo.

Um convite para o Jantar secreto

É um daqueles livros com vocação para best-seller. E isso não é nenhuma crítica. Trata-se de uma trama de mistério, com toques de humor macabro, e uma situação que a princípio poderia acontecer com qualquer um. Em nenhum momento, o leitor deixa de se perguntar: o que eu faria se estivesse no lugar desse cara?

Mesmo assim, não deixa de ser uma experiência literária interessante. O livro conta com conversas de WhatsApp, uso de aplicativos de relacionamento como o Tinder para a busca de encontros, ou acesso à Deep Web para fins obscuros. É impossível a não identificação. E talvez marque uma virada na literatura brasileira, um despertar para livros que abracem o leitor e não o soltem até o fim da leitura. Faz um tempo que Raphael Montes vem fazendo isso.

Mais que indico este Jantar secreto. Fica o convite.

Vilto Reis Author

Escritor, Editor-chefe do Homo Literatus, Diretor da RUSGA - Cursos Para Escritores, Publisher da Editora Nocaute e autor do romance Um gato chamado Borges (Nocaute, 2016).