7 lições de Michelangelo sobre o fazer artístico

A biografia de Michelangelo mostra a difícil relação do homem com a arte e também nos dá sete lições sobre a produção artística

 

A mais recente biografia de Michelangelo, famoso artista do Renascimento, traz um panorama interessantíssimo sobre essa figura tão importante da nossa história. Mais do que dessacralizar o gênio – ao revelar seu lado neurótico, avarento, solitário e vitimista – ela mostra a difícil relação de um homem com a sua arte, sujeita a todo tipo de interferências. Tendo por base esse olhar, segue abaixo uma listinha de sete lições que Michelangelo nos deixa sobre a produção artística:

 

1. Use a sua história na sua arte

É comum ouvir de alguns escritores o conselho: “escreva sobre o que você conhece”. Isso quer dizer que a sua história, aquilo que se encontra na sua mente por razões afetivas e de experiência, tem a chance de ser mais bem desenvolvida por você quando transposta para um contexto artístico. No caso de Michelangelo, estamos falando não apenas dos temas que ele usou em suas pinturas e estátuas (principalmente os religiosos, que faziam parte da educação de qualquer garoto da época), mas também da própria arte a que ele escolheu se dedicar com mais determinação. Nascido e criado em Settignano, uma vila situada na área de Florença, Michelangelo trouxe da sua cidade natal o gosto pelo trabalho em pedra, já que se tratava de uma área em que as pessoas viviam da extração desse material. A própria ama de leite do artista era filha de um pedreiro e casada com outro, o que levava Michelangelo a brincar que “não era surpresa que encontrasse tanto prazer num cinzel”. Isso sugere que ele soube aproveitar, da melhor maneira possível, a influência do ambiente em que cresceu.

 

2. Nem sempre os pais sabem o que é melhor

O pai de Michelangelo, Lodovico Buonarroti, ficou horrorizado quando o filho começou a enveredar para o caminho da arte, principalmente no tocante ao trabalho com a pedra. Parece que compartilhava da opinião de Leonardo da Vinci de que “a escultura é uma arte menor”, provavelmente por viver cercado de pedreiros em sua cidade natal, vistos apenas como trabalhadores braçais sem qualquer importância social. Essa antipatia pela escolha do filho perdurou durante toda a sua vida, e foi abrandada apenas quando as encomendas de Michelangelo começaram a lhe render altas somas e vir das mais importantes figuras de Florença e Roma. Se o jovem tivesse dado ouvidos ao pai, talvez a humanidade nunca chegasse a conhecer belezas como o Davi ou a Pièta.

 

3. Não dá para viver de arte sem ter quem pague

A imagem do artista independente seduz até os dias de hoje – afinal, todos querem uma situação confortável para produzir a sua arte, para viver dela, sem a horrível pressão capitalista de arranjar dinheiro para pagar as contas. Pois Michelangelo nos mostra que mesmo grandes gênios como ele dependiam do financiamento dos outros para sobreviver. Tendo vivido por quase noventa anos, passou por nada menos do que oito papas, servindo a todos. Alguns não o pagaram, alguns tentaram sabotá-lo de projetos, entre outras atitudes que lhe geraram um enorme estresse. No entanto, não tinha jeito: sem esses mecenas, que bancavam a produção de arte do período, Michelangelo jamais teria conseguido se dedicar a essa carreira. É isso mesmo, amigo artista: se não estava fácil para o Michelangelo, imagine para você!

 

4. É impossível ampliar a produção sozinho

O aumento da produção artística de alguém enfrenta limites claros: dependendo do tamanho do projeto, é impossível que apenas um sujeito dê conta dele. Por isso, hoje não é novidade que novelistas possuem times de colaboradores para conseguir levar uma obra para a televisão, da mesma forma que fazia Alexandre Dumas com a escrita de seus longos romances, da mesma forma que faziam também os grandes artistas do Renascimento. Rafael Sanzio, conhecido pintor renascentista, ficou famoso por ser um excelente gerenciador de equipes, tendo inúmeros bons artistas ajudando-o em grandes obras na Roma do século XVI. Para não perder encomendas para esse rival, Michelangelo foi obrigado a melhorar suas habilidades de trabalhar com colaboradores e ajudantes, embora preferisse fazer as coisas sozinho. Só assim foram terminadas algumas de suas produções, como a própria Capela Sistina, que tanta fama lhe rendeu.

 

5. Diversificar pode ser uma boa ideia

Apesar de não termos tantas informações a esse respeito, é sabido que Michelangelo foi poeta – e bom poeta. Ele escreveu uma série de sonetos ao longo da vida, seguindo o modelo clássico de Petrarca. Foi uma arte à qual nunca se dedicou com tanto afinco, muitas vezes rabiscando alguns versos em cantos de papeis avulsos, somente como uma forma de liberar seus sentimentos e angústias. Para além da palavra, sabe-se também que Michelangelo teve receio de arriscar-se na pintura e na arquitetura, talvez pelo perfeccionismo que esperava de suas obras. No entanto, enfrentar o medo valeu a pena: as pinturas da Capela Sistina foram aclamadas pelo público e a construção da fortaleza que fez na época do cerco à Florença pelo imperador Carlos V deu-lhe uma prazerosa sensação de dever cívico cumprido, já que ajudou a defender sua cidade dos furiosos ataques.

 

6. É preciso estar apaixonado pelo projeto

Ao longo da vida, Michelangelo envolveu-se em diversos projetos, mas nem todos foram terminados. O caso mais impressionante é o do mausoléu do papa Júlio II, originalmente planejado para ser a mais incrível das obras, com quarenta estátuas de mármore. Contudo, depois da morte do papa e de pegar outras encomendas, Michelangelo foi abandonando o projeto e enrolando os sucessores de Júlio sobre a sua construção. O resultado foi que a obra acabou lhe acarretando prejuízo financeiro e levou nada menos do que quarenta (!) anos para ficar pronta, terminada por outras mãos. Em contrapartida, a estátua do Davi, que o interessou vivamente desde o início (pois foi feita a partir de um bloco de mármore anteriormente trabalhado e descartado), demorou incomparáveis dezoito meses para ser finalizada. Sabe-se que o artista investiu pesados esforços nessa empreitada e que o produto final consagrou-se como uma das peças mais importantes da história da arte, o que só reforça a ideia que projetos vindos de uma paixão interior acabam tendo resultados bem mais satisfatórios.

 

7. Os amados merecem as melhores obras

Por mais que fosse cobrado por papas, duques e outras figuras de prestígio, e a eles tivesse dedicado grande parte de seu esforço, era para algumas figuras queridas que Michelangelo entregava, sem custo, alguns de seus melhores trabalhos. Foi o que aconteceu com dois belíssimos desenhos que ele enviou a Tommaso de’ Cavallieri, um jovem por quem Michelangelo teria sofrido com um intenso amor platônico. Esses desenhos foram mostrados por Tommaso à corte romana e causaram grande espanto; posteriormente, acabaram levando o papa da época a propor o projeto do “Juízo Final”, na Capela Sistina. Muitos de seus melhores sonetos foram também dedicados a Tommaso, o que mostra o quanto o amor pode ser um catalisador das melhores energias criativas.

 

Referência:

GAYFORD, Martin. Michelangelo – uma vida épica. Trad. Donaldson Garschagen e Renata Guerra. São Paulo: Cosac Naify, 2015.

Carolina Prospero Author

Professora de Literatura e Redação. Formada em Letras pela Unicamp, fez lá também o seu mestrado, no qual trabalhou com a obra da musa-mor Clarice Lispector. Escreve de vez em quando, muito menos do que gostaria. Adora livros, séries e o seu gato Dante.