Tatiana Salem Levy e a chave da boa literatura

O que a chave de Tatian Salem Levy abre?

Tatiana Salem Levy

            A Chave de Casa é o primeiro romance da brasileira Tatiana Salem Levy, publicado em 2007. Pelo fato de conter vários elementos autobiográficos, a obra tem sido constantemente rotulada como “autoficção”. Apesar de este ser um termo da moda (ou talvez justamente por isso), nutro uma implicância atroz contra tal denominação. Que diferença faz de onde vem a inspiração para uma obra literária? Esse é um problema do autor e não de nós leitores. O livro nos será bom ou ruim independentemente de onde venham os dados que o escritor opte por usar e transformar para a construção de sua arte. Ficar procurando as correlações com a vida de quem escreve é mais para apreciadores de revista de fofoca do que para quem curte romances verdadeiramente.

A protagonista do livro se mostra, logo de início, como alguém que tem dificuldade de se libertar, de abraçar o mundo. Trata-se duma jovem presa à melancolia pela morte da mãe, mas instigada pelo avô a partir em busca de suas raízes familiares. Quando o avô lhe entrega a chave da antiga casa de seus ancestrais, várias questões vêm à tona: seria possível à personagem escapar da letargia que a domina e seguir para o exterior? E lá, na cidade de Esmirna, na longínqua Turquia, a casa ainda estaria de pé? Com a mesma porta? A mesma fechadura?

A Chave de casa aqui é um elemento que carrega em si uma forte simbologia. Ela é a prova – já que o avô guardou-a tanto tempo – de que a ligação com suas origens familiares lhe é, de fato, importante. A permanência da antiga chave de casa, junto à família, convence a protagonista da relevância do passado também para ela, cujas raízes igualmente remontam à antiga Turquia. Isso lhe instiga a partir para lá, independentemente de haver ou não ainda uma porta e uma fechadura física a serem abertas.

           Mas o leitor não depara com um romance de estrada, narrando aventuras exóticas em cenários distantes. A maior viagem retratada é a da autodescoberta. Daí a estrutura do livro ser tão multifacetada e não-linear: trata-se dum mergulho da narradora para dentro de si mesma e, paradoxalmente, para fora de si, do quarto claustrofóbico, da tristeza, da paralisia, da autocomiseração. Assim, ao se redescobrir, a protagonista desvela o mundo que a cerca e outras vozes e opiniões que não a própria.

As falas da mãe surgem entre colchetes, comumente se contrapondo ao que a protagonista diz, dando outras versões aos fatos expostos. A própria personagem narradora também se contradiz em outros trechos, enriquecendo as possibilidades de enfoque do que se passa ou se passou. Aliás, o tempo é tratado de maneira interessantíssima. O presente e os vários passados se mesclam: num momento a mãe doente ainda vive; noutro narra-se a trajetória do avô, antes mesmo de abandonar a Turquia após uma desilusão amorosa; noutro mais, a protagonista permanece imóvel na cama sem forças para viajar. Tudo isso após já terem sido contados vários episódios de sua odisseia à Turquia.

A narrativa é psicológica, introspectiva, mas num modo diferente daquele de Clarice Lispector, por exemplo. Tatiana imprime sua marca já nesse seu primeiro romance e em momento nenhum faz pastiche de Lispector, do James Joyce da obra Ulisses, ou de outros autores que se aprofundam na exploração lexical e sintática por meio de neologismos ou intensa supressão de pontuação. Ela faz experimentalismos, sim, mas de seu jeito próprio – num genuíno estilo Tatiana Salem Levy.

Quando vê razão para isso, ela ousa cortando vírgulas, como no trecho em que há uma tentativa de rompimento de um namoro que se mostra opressivo. Isso se dá entre as páginas 180 e 181 da edição lançada pela Best Bolso (Rio de Janeiro, 2013). Ali deparamos com uma frase que ocupa mais de vinte linhas, sem pontuação alguma, mas perfeitamente inteligível – e altamente expressiva. Os experimentos de linguagem não chamam a atenção para si próprios, não são meros malabarismos (ou exibicionismos) literários, mas recursos em prol da expressividade e da história, por mais que esta não se apresente de forma convencional, retilínea.

De fato, pode-se considerar que estamos diante de histórias entrelaçadas, coabitando um mesmo universo: a luta de uma jovem para se erguer da depressão após a morte da mãe; a trajetória do avô turco que vem para o Brasil; o combate contra a ditadura militar; o exílio político em Portugal; o relacionamento amoroso arrebatador (limítrofe à loucura); a viagem à Turquia em busca das raízes familiares. Apesar de tudo, o sentido de unidade se mantém neste riquíssimo romance, repleto de descobertas, buscas e caminhos variados.

            A Chave de Casa foi consagrado pela crítica literária brasileira, recebendo, inclusive, o Prêmio São Paulo de Literatura 2008 como melhor livro de autor estreante. Logo foi publicado também em Portugal. Traduzido, alcançou França, Itália, Espanha, Turquia e Romênia. Que a viagem narrativa desse excepcional romance de Tatiana Salem Levy atinja campos cada vez mais vastos. A chave para a fruição da boa literatura atual está bem aí a nossas mãos. Que o público leitor ouse empreender a viagem.

 

Winter Bastos Author

Autor do livro de crítica literária Malandragem, Revolta e Anarquia: João Antônio, Antônio Fraga e Lima Barreto (Editora Achiamé, 2005). Em 2011, recebeu menção honrosa no IX Concurso Municipal de Conto – Prêmio Prefeitura de Niterói com "O Anão", posteriormente publicado. Em 2013, obteve menção honrosa no 7º Prêmio UFF de Literatura, com o conto "(Des)encontro", incluído em antologia publicada pela EdUFF. Em 2016 ganhou primeiro lugar no 2º concurso de contos promovido pelo Centro Literário e Artístico da Região Oceânica de Niterói (CLARON). Já em 2017, recebeu 2º lugar com o conto "A Prova", no III Festival do CLARON. No Concurso Literário Bram Stoker (contos de terror), foi contemplado com o décimo lugar em 2018.