Tristezas cíclicas ao longo de Vidas Secas

Vidas Secas de uma incomunicabilidade cíclica

Graciliano Ramos

São treze segmentos. Treze pedaços secos da trajetória de uma família à deriva no sertão. Logo no primeiro capítulo lemos que “na véspera eram seis viventes”. Daí já se tiram reflexões interessantes. A história não começa no início do texto: já havia uma série de sofrimentos anteriores à narrativa propriamente dita. No dia anterior, o grupamento já perdera um de seus membros – o papagaio, que, ao morrer à beira duma poça, acabara devorado pela família de retirantes. Estes não são caracterizados como seres humanos, mas apenas como “viventes” (e mostrados como integrantes dum mesmo grupo juntamente com os animais). O que vemos são seres desumanizados pela miséria, seres cujo sofrimento parece os anteceder no mundo. Esse é o universo do romance Vidas Secas, obra-prima do escritor alagoano Graciliano Ramos (1892-1953).

Marxista, Graciliano havia sido preso em março de 1936 pelo governo fascista de Getúlio Vargas, sem nenhuma acusação formal, e só veio a ser libertado em janeiro do ano seguinte, com a saúde muito debilitada pelos maus-tratos a que fora submetido. Foi então que apareceu a oportunidade de ganhar algum dinheiro enviando contos para o suplemento literário da publicação carioca O Jornal. A primeira narrativa publicada se chamava “Baleia”: história simples em que o protagonista Fabiano se via obrigado a matar a cadela da família, pois o bichinho presumivelmente contraíra hidrofobia. O texto fez grande sucesso e o escritor continuou a colaboração com O Jornal, remetendo-lhe outras historietas envolvendo a mesma família de sertanejos: Fabiano, Sinha Vitória, o menino mais novo, o menino mais velho e a cachorra Baleia.

A união destes contos iria formar o romance Vidas Secas, lançado em 1938. É possível notar certa continuidade entre os episódios do livro, mas não há propriamente uma trama, um acontecimento desaguando em outro desfiando uma aventura unitária. A força simbólica desse tipo de construção é muito grande, pois nos é sugerido que aqueles personagens estão vagando como que perdidos, sem lugar no mundo.

São seres marginais, afastados das riquezas produzidas por eles próprios. Vê-se que Fabiano é continuamente roubado no salário, oprimido pela polícia, incapaz até mesmo de expressar sua indignação em palavras. Ele e os seus comunicam-se por monossílabos e onomatopeias, animalizados. De forma bastante representativa, a mais humana entre eles parece ser a cachorra, capaz de sonhar, manifestar tristeza, gratidão e solidariedade. Com o nome de um gigante dos mares, a magra e pequena cadela Baleia é também uma representação de esperança, fartura: o avesso da aridez que os cerca. Simbolicamente, essa esperança irá morrer no capítulo nove.

Não é à toa que Vidas Secas é o único romance de Graciliano Ramos narrado em terceira pessoa. Não havia como ser de outra forma, pois todos no livro são expropriados da própria capacidade de comunicação, o que os inabilita a serem narradores. O magistral manejo do discurso indireto livre nos permite adentrar a psicologia dos personagens, fazendo-nos enxergar aquilo que eles não conseguem dizer: sua humanidade. Esta se esconde pela ausência da capacidade expressiva, que poderia ser um início de salvação para essas criaturas tão desprezadas pelo mundo. Nota-se que a própria família de retirantes só aceitara devorar o papagaio por considerá-lo inútil – justamente por ser mudo. E a família (que também é muda, em certa medida) é paulatinamente devorada pelas engrenagens do Capitalismo.

Fabiano vem a trabalhar em terra alheia, sendo lesado no salário, escorraçado pelo “soldado amarelo” (símbolo da opressão governamental), preso, ludibriado na compra de querosene (aguado, assim como a cachaça). Nesse calvário de explorações contínuas, a família segue sua trajetória, de maneira cíclica. Do primeiro segmento, intitulado “Mudança”, nada parece se modificar de fato até o capítulo “Fuga”, que encerra o livro.

Como fugir à realidade opressiva, para onde se mudar? Fabiano, Sinha Vitoria e seus filhos (cujos nomes nem aparecem ao longo do romance) ao fim da obra buscam se evadir do sertão, seguir para a cidade grande, materializando o conhecido fenômeno do êxodo rural. Este não é escolha. No fundo não são eles que decidem fugir, é o sertão que os expulsa. E continuará a expulsar mais e mais famílias semelhantes. Até quando?

 

Winter Bastos Author

Autor do livro de crítica literária Malandragem, Revolta e Anarquia: João Antônio, Antônio Fraga e Lima Barreto (Editora Achiamé, 2005). Em 2011, recebeu menção honrosa no IX Concurso Municipal de Conto – Prêmio Prefeitura de Niterói com "O Anão", posteriormente publicado. Em 2013, obteve menção honrosa no 7º Prêmio UFF de Literatura, com o conto "(Des)encontro", incluído em antologia publicada pela EdUFF. Em 2016 ganhou primeiro lugar no 2º concurso de contos promovido pelo Centro Literário e Artístico da Região Oceânica de Niterói (CLARON). Já em 2017, recebeu 2º lugar com o conto "A Prova", no III Festival do CLARON. No Concurso Literário Bram Stoker (contos de terror), foi contemplado com o décimo lugar em 2018.