Um cartão de visita da literatura holandesa

A antologia Contos Holandeses é um cartão de visita à produção literária holandesa

 

 

A antologia Contos Holandeses (2017) foi organizada pelo tradutor Daniel Dago, um apaixonado pelo idioma holandês – e não seria exagero chamá-lo de devorador cultural. A obra nos dá um cartão de visita da produção literária holandesa, criando uma ponte para conhecermos uma parte de sua cultura por meio dos contos.

São impressões que podemos ter lendo essa entrevista, que Dago concedeu ao Homo Literatus.

 

1- Como você conheceu o idioma holandês e o que te fez estabelecer um vínculo com ele?

Eu falo/estudo muitas línguas, sempre adorei estudar idiomas. O holandês foi uma das últimas (ou a última) línguas germânicas que estudei. Não pensei que fosse gostar tanto. Acabava preterindo o estudo de outras línguas para me focar apenas no holandês.

Sempre gostei muito de música e, ao pesquisar bandas para aprender mais o idioma, topei com Acda en De Munnik, banda pop-rock dos anos 90 extremamente famosa por lá, e até hoje minha banda holandesa favorita.

Meu vínculo afetivo com música é muito grande. Só traduzo ouvindo música, a ponto de, se o fone de ouvido quebrar, eu não traduzo naquele dia.

Sempre que estudo a língua X, busco literatura, cinema, música do local. Mas, num primeiro momento, o que me uniu mesmo ao holandês foi Acda en De Munnik. A literatura veio depois.

 

2- Em alguns trechos da antologia, você menciona que determinados textos ofereceram desafios à tradução devido às suas particularidades. Existem características do idioma parecidas com o nosso português ou com algum idioma estrangeiro mais próximo da gente?

Uma das coisas mais estranhas da língua holandesa é a quantidade de reformas ortográficas. Não lembro o número exato, mas foram dezenas e dezenas. Mesmo. Muitíssimo mais que o português, não há dúvida.

Emants e Couperus, que em Contos Holandeses (1839-1939) aparecem com contos escritos em 1920, usam reformas ortográficas totalmente distintas, como se fossem de décadas diferentes. Isso ilustra bem a insanidade. Para tradução, basicamente, é um pesadelo, pois não há como reproduzir isso, e nenhum tradutor de holandês no mundo tenta. O que dá para fazer é deixar marcas normais de arcaísmos, mas não tentar reproduzir a loucura das reformas.

Atualmente, os holandeses têm dificuldade de ler seus próprios clássicos. A quantidade absurda de reformas é considerada pelos tradutores como um dos motivos pelos quais a literatura holandesa foi tão pouco traduzida durante décadas. Os ingleses, por exemplo, lêem numa boa Tom Jones, de Fielding, publicado no século dezoito. Os holandeses, não. Um livro dessa época tem que ser quase retraduzido ao holandês de hoje.

O holandês é uma mistura do alemão e inglês. Muitas vezes, quando não entendo algo, é só pensar como seria em inglês que me vem a resposta.

Alguns termos náuticos holandeses entraram no português, como stuurboord/ estibordo, bakboord/ bombordo. Não sou filólogo, mas imagino que devem ter entrado durante a invasão holandesa no Brasil – lembrando que a Holanda teve enorme importância marítima durante esse período.

 

3- Ao escolher autores, sempre há opções entre recortes. E também eventuais buscas a direitos autorais com herdeiros de autores falecidos. Como foi a seleção?

Escolhi os grandes autores clássicos até às portas da Segunda Guerra, para o bem ou mal. Alguns, particularmente, não gosto tanto, como Van Looy e Hildebrand, mas outros estão entre meus favoritos, como Van Bruggen e Couperus.

Minha preocupação foi fazer algo variado, de diversos gêneros, mesmo que hoje o autor não seja conhecido por lá; apenas um professor universitário muito culto conhecerá Aart van der Leeuw ou Arnold Aletrino. São os dois autores menos conhecidos da antologia. O resto, em maior ou menor escala, é leitura obrigatória nas escolas e universidades.

Consultei dezenas de antologias do conto holandês feitas na Holanda e no exterior – possuo, por exemplo, umas dez traduzidas.

“Teresa Immaculata”, de Marsman, li numa antologia do conto holandês feita nos EUA, nos anos 40, gostei muito e resolvi colocá-lo. Minha ideia inicial, em relação ao Marsman, era traduzir “O visitante”.

De Slauerhoff, por exemplo, eu poderia ter escolhido “A última viagem do Nyborg”, conto bastante incluído em antologias, sobre um navio – o Nyborg do título – cuja carga são corpos humanos.

Foi mais difícil escolher conto X que autor Y, porque os autores clássicos do período são esses mesmos, não dá para fugir disso. Só queria ter conseguido incluir Ferdinand Bordewijk e Nescio, figuras seminais, mas não obtive os direitos.

 

4- Há comparações dos holandeses a já conhecidos nossos, entre elas Simon Vestdijk (autor de Um dois três quatro cinco) a James Joyce, ou Edgar du Perron (O drama da pensão, Casa na praia) a Thomas Mann. Vimos obras de Arnon Grunberg (Tirza) e Tommy Wieringa (Joe Speedboat) serem lançadas aqui, e até a presença destes no Brasil. Como o intercâmbio literário entre Brasil e Holanda está sendo construído? Qual é a influência da situação editorial de cada país nessa travessia?

Eu faço minha parte: indico colegas tradutores e tento vender obras holandesas aos editores. A Fundação Holandesa, órgão que paga a tradução e tenta vender autores, também tenta fazer sua parte.

No Brasil, o grande problema é dinheiro. Vontade, por parte dos editores, até existe, mas eles têm medo de não haver retorno financeiro.

Na Holanda, há uma mistura de ingenuidade e desconhecimento total do mercado brasileiro e situação geral do país. Semana passada mesmo li uma entrevista de um editor holandês explicando que, durante uma feira literária, conversou com o editor brasileiro de “A fantástica fábrica de chocolate”, do inglês Roald Dahl, e ficou horrorizado com o quão pouco o livro vendeu por aqui, apesar do tamanho da população do país. O brasileiro retrucou: “livro, no Brasil, é para poucos, o índice de analfabetismo é enorme”.

 

5- Teresa Immaculata e O Incompreendido, de Hendrik Marsman e Carry van Bruggen, explicitam a influência religiosa em seus autores. Há homossexuais na antologia, e também um tom cosmopolita em alguns contos. Além de mostrar o pano de fundo de cada escritor, tais aspectos dão margens para interpretações sobre como a Holanda foi. Teve algum evento que a afetou durante esse período, ou após o recorte adotado? As mudanças do país têm presença na produção posterior à da antologia?

O grande acontecimento, dentro do recorte, foi a colonização da Indonésia, feita pelos holandeses, pouco retratada na antologia. Após o recorte, é a Segunda Guerra, há vasta literatura sobre essa temática.

Interessante você falar em religião, porque a principal do período não é retratada na antologia: protestante.

 

6- Como você avalia a produção atual da literatura holandesa? Quais os nomes em alta, com ou sem presença em outros países?

Muito diversificada, uma pena que no Brasil saia apenas a ponta da ponta do iceberg.

Autores como Grunberg, por exemplo, são cosmopolitas demais, praticamente não são holandeses; já vi entrevista de Grunberg dizendo que não se considera holandês. Wieringa, por outro lado, pertence à um grupo que escreve sobre o interior, onde há um bairrismo grande, fala-se muitos dialetos, a questão regional é muito forte.

Há vários imigrantes escrevendo em holandês, como o iraniano Kader Abdolah, ou filhos de imigrantes vindos de países árabes, como Hafid Bouazza e Abdelkader Benali.

A geração mais velha, de 60 anos para cima, ainda “causa”, como Maarten ‘T Hart, Adriaan van Dis, A.F.Th. van der Heijden, Oek de Jong, Remco Campert, P.F. Thomése, Thomas Rosenboom, Renate Dorrestein, Connie Palmen.

A mais nova, na faixa dos 30 anos, também: Ernest van der Kwast e Joost de Vries.

 

7- Ao final da antologia, lê-se que a Zouk vai publicar mais obras holandesas. Você pode nos contar mais sobre elas?

Sobre pessoas velhas e coisas que passam… , romance de Louis Couperus, algo como o Tolstói da Holanda, que lembra A morte de Ivan Ilitch; é um dos livros mais tristes, cruéis, profundos da Holanda, foi adaptado para TV e teatro, um grande clássico, realmente. Quando falo aos holandeses que traduzi este livro, todos riem de nervoso e dizem “caramba!”. Acredito que sairá ainda esse ano, tradução está pronta há anos.

Uma confissão póstuma, de Marcellus Emants, romance muito comparado a Memórias do subsolo, uma obra bastante ímpar, com um narrador em primeira pessoa muito marcante. Por aqui, tenho certeza que será comparado a Dom Casmurro. Acho que sairá ano que vem, tradução está pronta há anos.

Ainda esse ano começarei a traduzir Kees, o menino, de Theo Thijssen, romance infantojuvenil que, em termos de importância, é algo como Os meninos da Rua Paulo. É o grande clássico guilty pleasure dos holandeses, por ser infantojuvenil. Há dezenas de ruas, praças, pontes, que levam os nomes dos personagens do livro.

 

8- Que situações você encontrou durante a busca por uma editora que abraçasse o projeto?

O projeto da antologia? Foram muitas dificuldades. Teve editor que demorou um ano para dar resposta, teve editor que quis apoio de empresa holandesa, nossa, tanta coisa, mesmo… Se começar a falar, vai dar mais de uma página. A antologia passou por muitas casas. Quando eu achava que ia dar certo, alguma coisa acontecia. Uma das últimas foi a Companhia das Letras, a antologia estava dentro de um pacote. Sairia a versão integral de O diário de Anne Frank – que traduzi até a metade – e outros meus prontos, um livro por ano, mas, infelizmente, por problemas jurídicos relacionados ao diário, eles desistiram. Para Cia, o mais importante era a Anne, então desistiram do pacote inteiro. A ideia era que a antologia saísse pela coleção Listrada.

Walter Bach Autor

Colaborador do Homo Literatus desde 2014, demente profissional (vulgo editor) desde 2016.