Vinganças e perdões

Cena de “Para minha amada morta”, de Aly Muritiba | Reprodução

Eduardo acha irônico o Canal Brasil ser parte da Rede Globo. Há muita qualidade na sua programação e ele sempre o recomenda para seus alunos nas aulas de Literatura. Logo em seguida, lembra-se que é uma emissora por assinatura. Nem sempre bom entretenimento vem de graça e a maioria dos estudantes não tem como pagar por isso.

A matriz já mostrou filmes mais legais do que os que são transmitidos hoje. “Intercine” e “Corujão” eram boas pedidas nas madrugadas de sua infância. Em entrevista ao “Provocações” – Eduardo ainda pasma ao pensar que o mestre Antônio Abujamra se foi -, Lourenço Mutarelli, com muita razão, disse: a televisão brasileira nivela muito por baixo o intelecto de seu público.

Quando Eduardo olha para a grade do Canal Brasil, sente um tipo de culpa apertar-lhe o peito: sua falta de conhecimento sobre filmes brasileiros, principalmente os que estão fora do mainstream, rodados apenas em mostras e festivais, que faturam apenas o suficiente para pagar sua produção. Logo ele, professor de Literatura, saber tão pouco sobre o cinema de seu país! Imperdoável.

Há algumas semanas, uma amiga recomendou-lhe um desses filmes. Ela havia ido a uma sessão do longa, que foi seguida por um bate-papo com o diretor. Disse que Eduardo deveria conhecê-lo, pois sua trajetória profissional é parecida com a dele, no sentido de trabalhar muitos anos com o que não se gosta – antes de atuar como professor, Eduardo trabalhou como torneiro mecânico. Além disso, a película também valeria muito a pena. Tratava-se de Para minha amada morta, filme dirigido por Aly Muritiba. Na última terça-feira, Eduardo teve a sorte de encontrá-lo no salvador Canal Brasil.

Fernando (interpretado por Fernando Alves Pinto), fotógrafo da polícia, é um homem arrasado pela recente morte da esposa. Mexendo em velhas fitas VHS, descobre que ela o traía e, não contente, gravava esses momentos. Valendo-se de sua posição no trabalho, ele descobre o paradeiro de Salvador (Lourinelson Vladmir), o amante.

Eduardo achou que a grande sacada do filme talvez seja a habilidade de Muritiba em fazer com que o tempo se arraste e as cenas sejam sufocantes. Fernando entra na vida de Salvador, planejando executar sua vingança. Mas de que modo?

Depois de ver o filme, Eduardo pensou muito no conto “Duelo”, do livro Sagarana, título que seus alunos relutam tanto em ler. Ali, Guimarães Rosa apresenta o seleiro Turíbio Todo, homem rústico que flagra sua mulher em pleno adultério com Cassiano Gomes. A partir daí, um ciclo de perseguições movidas por vingança é iniciado. Mas a lei do sertão é diferente da urbana. A justiça é feita no manejo da garrucha. Fernando e Salvador não são homens cascudos como Turíbio e Cassiano: consideram muita coisa antes de puxar o gatilho.

Na opinião de Eduardo, Para minha amada morta mostra que vinganças e perdões às vezes são desnecessários. A solução, nesse caso, é esquecer (ou pelo menos tentar) do passado e seguir em frente.

Sabe que a possibilidade de seus alunos acatarem a sugestão de ver o filme é mínima, mas, ainda assim, falará sobre ele na aula de amanhã.

Murilo Reis Author

Mestrando em Estudos Literários pela Unesp, escreveu o livro de contos "Identidades secretas" (Lamparina Luminosa, 2016). É autor do blog O paralelo (oparaleloblog.wordpress.com). @murilunk

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