A violência subjetiva em ‘Má conduta’, de Matheus Lara

Má conduta (2015), segundo livro de Matheus Lara, reúne seis contos que tratam da violência no cotidianomatheus lara

O jovem escritor Matheus Lara reside em São Mateus do Sul – PR e já publicou dois livros, um romance chamado A flor que não é sua (2012) e o livro de contos Má conduta (2015). Este último nos chama bastante atenção e aponta Lara como um bom nome na literatura paranaense.

Má conduta reúne seis contos, todos permeados pela violência subjetiva. E aqui abro parênteses para explicar o termo:  a violência subjetiva à qual me refiro é aquela postulada pelo filósofo e psicanalista Slavoj Žižek, a qual é visível aos olhos humanos de forma mais explícita. Trata-se de atos que em geral possuem agentes responsáveis por eles claramente identificáveis, portanto, corresponde à violência física e direta, que costuma permear nosso cotidiano: nas ruas, nos jornais, nas novelas ou nos filmes. Manifesta-se tanto em um roubo, uma briga quanto em um extermínio em massa e em um ato violência contra a mulher e transexuais.

Cada conto do livro de Matheus Lara possui gritantes realidades violentas, vivenciadas pelos mais distintos seres humanos. De modo geral, é como se os narradores, criados pelo autor, presenciassem “as cenas” violentas pela fresta de uma porta ou de uma janela.

As ações violentas presentes nos contos se dão pelas mais distintas “razões”, nos contextos mais inesperados, por agentes também inesperados. Ocorrem tanto em função de formas de comportamento ditas errôneas, como traições e mentiras, quanto em casos de abuso sexual e de egoísmo em função de aquisição de dinheiro.

má-conduta-matheus-lara
“Má conduta” (Arte Editora, 2015)

Desse modo, os contos abrem os olhos de seus leitores e os fazem perceber que a violência permeia os mais diferentes ambientes, sejam eles improváveis ou não, isto é, que a violência está mais presente em nosso cotidiano do que imaginamos, a questão é que por vezes tapetes tentam cobri-la. Em diversos momentos, na vida real (não-ficional), a violência é incorporada à normalidade, ao corriqueiro, comum no dia-a-dia.

Um bom papel que a literatura pode desempenhar é explicitar e desnudar a questão da violência. No entanto, este ainda é um tema pouco presente na literatura brasileira, sobretudo na literatura paranaense. Trata-se de uma temática bastante delicada e difícil de ser incorporada à literatura sem que pareça algo panfletário e militante.  As linhas de Má conduta, entretanto, desempenham um papel importe, pois desnudam uma sociedade permeada pela violência, e vale ressaltar que isso é colocado literariamente e não jornalisticamente, com informações concisas  e objetivas e dados estatísticos.

Por meio dos seis contos, Matheus Lara demonstra-nos que a violência subjetiva, infelizmente, faz parte do nosso cotidiano. É como se os atos violentos estivessem correndo nas veias de cada indivíduo, podendo eles serem despertados ou não um dia.

Estela Santos Author

Editora e colaboradora do Homo Literatus. Mestranda em Letras - Estudos Literários na Universidade Estadual de Maringá (UEM). Mediadora do #LeiaMulheres. Twitter: @psantosestela