Você precisa conhecer Jun’Ichiro Tanizaki (e sua novela sobre gatos)

Lançamento da editora Estação Liberdade traz novamente à cena um dos mais importantes escritores japoneses, Jun’Ichiro Tanizaki.

Tanizaki
Junichiro Tanizaki

Aos 23 anos de idade, em 1909, o escritor japonês Jun’Ichiro Tanizaki começava a publicar seus primeiros escritos. Iniciou por uma peça de teatro de um ato, que saiu em uma revista literária que ajudou a criar. Entretanto, seu primeiro conto a fazer sucesso saiu em 1910. Shisei apresenta a história de um homem que tatua uma aranha gigante no corpo de uma jovem. No estilo femme fatale, a beleza da mulher assume um caráter demoníaco, em uma combinação de erotismo e sadomasoquismo. Este caráter antimoralista da obra do autor nortearia toda a carreira de Tanizaki, muito provavelmente por sua formação budista que, diferente da cultura cristã, desconhece a noção de pecado.

Sua reputação viria mesmo a decolar em 1923, após o Grande Terremoto de Kanto, que destruiu sua casa em Yokohama (no momento da catástrofe, Tanizaki estava em um ônibus em Hakone e, assim, escapou sem ferimentos).  Sua mudança para Kyoto naquele ano propiciou um recomeço para o autor. Conteve sua paixão juvenil pelo ocidente e a modernidade e se voltou à cultura japonesa tradicional, com ênfase na região de Kansai, as cidades de OsakaKobe e Kyoto.

Daí para frente, publicou uma série de romances bem-sucedidos, inclusive Yoshinokuzu (1931), que faz alusão ao Bunraku e ao teatro kabuki, ao mesmo tempo em que faz uso de metaficção. Estas obras falam de obsessão sexual e identidade cultural, lesbianismo, entre outros temas.

Sua obra-prima seria Sasameyuki (1943- 1948, literalmente “A Luz da queda de neve”, mas publicado como As Irmãs Makioka em português). O livro surgiu a partir das traduções que Tanizaki fez para o japonês moderno de O Conto de Genji (que muitos afirmam ser o primeiro romance da história), um clássico do século XI. As irmãs Makioka retrata a história de quatro filhas de uma família rica comerciante de Osaka, em pleno declínio no decorrer dos primeiros anos da Segunda Guerra Mundial. O romance foi publicado na revista literária Chuokoron, mas seus editores foram notificados pelo governo de que a obra não contribuía para o momento do país e, com medo de perder quantidades de papel, não foram adiante com a serialização.

Passada a Segunda Guerra Mundial, Tanizaki voltou a se destacar. Ganhou uma série de prêmios, como o Prêmio Asahi em 1949, a Ordem de Cultura pelo governo japonês em 1949, e em 1964 foi eleito membro honorário da Academia e do Instituto de Artes e Letras americano – o primeiro escritor japonês a receber tal honra.

Em 1958, Tanizaki sofria de paralisia da mão direita e foi hospitalizado por angina pectoris em 1960. Faleceu de um ataque cardíaco em 30 de Julho 1965, pouco depois de celebrar seu 79º aniversário.

 

A gata, um homem e duas mulheres e o cortador de juncos

As obras de Jun’Ichiro Tanizaki vêm sendo traduzidas e publicadas no Brasil. A última novidade é a tradução de A gata, um homem e duas mulheres e o cortador de juncos, publicado pela editora Estação Liberdade no fim de 2016. O livro contém duas novelas do escritor. Dois textos bastante complexos e diferentes. O cortador de juncos faz referência a inúmeras obras clássicas da literatura japonesa, enquanto A gata, um homem e duas mulheres apresenta um enredo simples, mas de uma profundidade psicológica ímpar.

Destaco a última novela citada. Inicia-se com uma carta de uma mulher para a outra. A ex-esposa, Shinako, escreve à atual, Fukuko, pedindo que dê um jeito de enviar para ela a gata que vivia com eles. A gatinha Lily, na verdade, monopoliza as atenções de Shozo, um homem cuja única rebeldia contra a mãe é a paixão pelo animalzinho. A carta de Shinako faz com que Fukuko comece a sentir ciúmes da gata, embora suspeite que o interesse pela rival superada em ter a gata seja se aproximar de Shozo.

Com muita simplicidade, Tanizaki narra esta história, expondo aqui e ali as sutilezas da psicologia de cada personagem. Até mesmo o leitor, caso não se cuide, acaba manipulado por Lily, tamanha a habilidade do escritor em sensibilizar. De forma mais suave que em outras histórias de Tanizaki, o erotismo (ou a falta dele) se expõe com o ciúme e insegurança que as mulheres, a ex e a atual, apresentam com relação à gata.

Sem dúvidas, A gata, um homem e duas mulheres é uma ótima porta de entrada para começar a conhecer não só a obra Jun’Ichiro Tanizaki, como também a literatura japonesa.

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Vilto Reis Author

Escritor, Editor-chefe do Homo Literatus, Diretor da RUSGA - Cursos Para Escritores, Publisher da Editora Nocaute e autor do romance Um gato chamado Borges (Nocaute, 2016).