Yuri do Livrada: Uma porrada de literatura em um bate-papo

Um bate-papo com o crítico literário Yuri Al’Hanati (Yuri do Livrada), criador do blog e canal de Youtube Livrada

Yuri do Livrada
Yuri Al’Hanati, do Livrada/ google

Autodescrito como “Uma porrada de literatura na sua cara!”, o Livrada passou de blog para um canal no Youtube, onde seu criador, o jornalista Yuri Al’ Hanati (também conhecido como Yuri do Livrada), faz crítica literária com uma voz autoral ácida, bem-humorada e sem solenidades. Não é exagero considerá-lo um leitor exigente, que nutre um afeto tão sincero por algumas obras específicas que isso se torna, involuntariamente, parte de sua expressão ao falar de livros, da importância do humor, realçada no vídeo sobre O Vendido, de Paul Beatty, à literatura russa, um de seus temas principais, com direito a uma entrevista com o tradutor Rubens Figueiredo. E também é implacável quando alguma característica o incomoda, da linguagem à sensação durante a leitura – incluindo as análises dele para livro redação nota 6 do Enem ou uma obra cuja condução dê a entender que busca manipular as emoções de quem a lê.
Mas sobreviveu a livros encaixados nessas duas últimas descrições, e até às perguntas desse redator.

Entrevista com Yuri do Livrada

1- Temos booktubers até perder a conta. Ao mesmo tempo em que cada um tem seu foco, também há questionamentos quanto ao tom crítico e ao conhecimento deles. Você exerceu crítica literária em jornal e também mediou mesas-redondas com booktubers. Quais as suas impressões das mudanças na abordagem sobre literatura? Qual é o espaço que cada uma tem?

 

Não há muita distinção, no YouTube, entre um trabalho de crítico, que analisa a obra no contexto da literatura mundial, observando formato, linguagem, subtexto e essas bobagens com que, no fundo, muito pouca gente se importa, e a imensa comunidade de leitores que desejam, muito legitimamente, conversar sobre livros com outras pessoas.
Isso tem um aspecto positivo, que é a diluição da fronteira que separa o crítico do leitor comum, favorável para trazer a discussão toda mais pro rés-do-chão e democratizar essa coisa de ler, que ainda é vista como coisa de nerd esquisitão solitário, mas também tem um lado negativo, que é a diluição da fronteira que separa o crítico do leitor comum, fazendo o exercício da crítica parecer uma versão prolixa do gostei ou não gostei, sem falar no aspecto de preservação e consagração da literatura contemporânea, porque se jogar pra galera é bem capaz de darem um Nobel praquele cara que escreveu A Culpa é das Estrelas. Então, dá pra ver por aí que talvez estejamos usando as ferramentas certas para os fins errados. Ou vice-versa.

 

2 – O Livrada começou como um blog antes de ser um canal no Youtube. O que te levou a mudar de formato? Você sentiu alguma diferença do público nessa mudança?

 

Uma amiga sugeriu o formato, e me deu o empurrão inicial (leia-se: o equipamento necessário) pra fazer os primeiros vídeos. A mudança foi drástica, pelo menos na minha vida. Antes o público crescia a passos lentos e tímidos e agora me param pra tirar foto e me mandam calcinha pelo correio (aconteceu mesmo). Não sei avaliar para além disso, entretanto, porque não pensava muito em como o pessoal que lê blogs consome literatura.

3- Como você acha que é o público que acompanha o Livrada?

 

De acordo com os dados do Analytics, são pessoas entre 26 e 45 anos, bem distribuídas quanto ao gênero. São leitores comuns e, segundo minha observação, mais exigentes quanto ao que leem, e que usam a crítica literária como ela sempre foi usada pelo povão: mediação de leitura, orientação de consumo e circulação de ideias. Também sentem uma vontade danada de me ver abrindo caixas na frente de uma câmera, mas isso é outra história.

 

4- Parte da voz autoral do Livrada se deve à sua abordagem da literatura russa, mesmo que você não se defina um especialista nela. Como você a conheceu e o que tanto te cativa nela?

 

Tentei ler O Idiota na época do vestibular e da auto-escola. Foi uma péssima ideia. Não terminei o livro, não entrei pra faculdade nenhuma e até hoje dependo de ônibus. Mas depois, com calma, fui adentrando no universo da literatura russa. Mais especificamente Gógol foi o responsável por me fazer enxergar aquele conjunto de escritores consagrados com outros olhos. Para mim, a literatura russa oferece uma visão mais colorida, sincera e psicológica da literatura francesa, que foi o arquétipo precursor da geração de ouro — Tolstói, Dostoiévski, esses caras. Também serve, para mim, como um escape da literatura contemporânea que por vezes pouco fala ao meu coração. Acabo acompanhando algo de literatura soviética e pós-soviética pela curiosidade cultural da herança literária deixada por esses mestres na região. Gosto menos, mas leio também.

 

5- Esse ano você postou, no Instagram do Livrada, fotos de uma viagem à Rússia, com direito a bustos de autores hoje consagrados. Como é a relação do povo de lá com a literatura?

 

Os russos são apaixonados pela literatura do país, mais pelo espírito nacional que ela lhe confere do que pelo valor artístico. É comum nesses países em choque com outras culturas exaltar seus maiores poetas, aqueles que consolidam a identidade cultural do povo. Visitei o Cáucaso e lá também é assim. Shota Rustaveli na Geórgia e Sayat-Nova na Armênia têm o mesmo peso de um Pushkin na Rússia. Entretanto, há muito pouco interesse sobre literatura contemporânea, que é vista como oportunista e partidária. Um cara como Sorokin é, grosso modo, desprezado por eles.

Walter Bach Author

Colaborador do Homo Literatus desde 2014, demente profissional (vulgo editor) desde 2016.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *