1º dia do Festival Tarrafa Literária

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A sexta edição do festival Tarrafa Literária deu início às mesas de discussão no dia 26, no Teatro Guarany em Santos, SP. Em meio a um dia chuva, o festival contou com participações importantes para a literatura brasileira e latino-americana, com escritores como Evandro Affonso Ferreira, ganhador do Jabuti 2013 por O Mendigo que Sabia de Cor os Adágios de Erasmo de Rotterdam; Cristovão Tezza, renomado e premiado escritor de O Filho Eterno e O Professor; e Carlos María Domínguez, autor de Casa de Papel.

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Mesa 1: Livros que habitam livros – Ignácio de Loyola Brandão, Joca Reiners Terron e Carlos María Domínguez

A primeira mesa do dia iniciou-se às 14h, com a presença de Carlos María Domínguez, Ignácio de Loyola Brandão e Joca Reiners Terron, com o tema: “Livros que Habitam Livros”.

A conversa girou em torno das histórias pessoais de cada um sobre seus primeiros contatos com os livros, além das pessoas e influências que estiveram envolvidas no processo. Carlos María Domínguez falou um pouco sobre o poder que os livros exerceram sobre ele quando criança; contou ainda sobre como a experiência com a ditadura afetou seu olhar sobre a literatura, e como a ida para o Uruguai foi uma influência para novas histórias. Segundo ele, “As palavras nos formam nos primeiros anos”, e disse ainda que foi o livro O Grito da Selva, de Jack London, um dos primeiros a provocar nele o encanto pela literatura. Loyola cativou a platéia com seu bom humor, iniciando sua participação com piadas sobre os costumes da oralidade da Língua Portuguesa. Citou a coleção Tesouros da Juventude e os livros de Julio Verne como seus livros da infância e de sua formação. Contou, ainda, um pouco sobre a influência de seu pai, um ferroviário que “tinha uma biblioteca com mais livros do que a biblioteca municipal”, no seu interesse pela leitura quando pequeno.

Seguindo a conversa, Carlos María Domínguez citou o livro Demian, de Hermann Hesse, como destaque em sua juventude, falou um pouco sobre o caráter subversivo que a arte tinha em seus tempos de garoto e a influência de uma de suas professoras na relação com os livros. Loyola seguiu também a deixa da educação, fazendo uma crítica dura ás bibliotecas públicas do Estado de São Paulo, ao não disponibilizar livros pouco lidos, guardando-os em um “quarto dos livros mortos”. Mencionou também a necessidade de tornar o escritor uma figura menos “sagrada”, e contou episódios nos quais teve contato com o analfabetismo e iniciativas importantes que testemunhou em escolas para o estímulo à leitura.

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Mesa 1: Ignácio de Loyola Brandão, Joca Reiners Terron e Carlos María Domínguez (da esq. para dir.)

No momento em que as perguntas da platéia iam sendo respondidas, falou-se sobre o jornalismo na vida dos dois escritores. Ignácio disse que a vida cotidiana o fascina, e definiu a crônica como uma “literatura sob pressão.” “Inspiração é o olhar e o ouvido aberto”, disse ele, que revelou que sua literatura nasce do mundo a sua volta. “Sem o Jornalismo, eu não teria mergulhado na vida real.”

Carlos María Domínguez afirmou que o Jornalismo se define por curiosidade para ele e, brincando sobre como há escritores que tem uma relação de matrimônio com a escrita, ele disse que tem uma relação de amante com a literatura: “escrevo quando quero, quando acontece, quando há inspiração. Eu sou um pouco anárquico”.

 

Mesa 2: Literatura: modo de usar – Evandro Affonso Ferreira, Mario Vitor Santos e Cristovão Tezza

A segunda mesa do evento, “Literatura: modo de usar”, contou com a presença de três amigos: Cristóvão Tezza, Evandro Affonso Ferreira e Mário Vitor Santos, o mediador da discussão. A conversa descontraída começou com Cristóvão Tezza contando sobre o sonho de ser escritor quando jovem: “eu achava que a universidade ia me matar como escritor”, disse ele, que nutria o sonho de viajar pelo mundo escrevendo romances. Contou um pouco sobre a entrada na faculdade de Letras e o estudo da Lingüística.

Evandro começou respondendo a uma afirmação de Mário Vitor Santos, de que a linguagem de seus últimos livros tem se tornado mais “palatável”. Sempre em tom de brincadeira, falou sobre sua empolgação com as palavras e sobre como costumava compilá-las e juntá-las a fim de que novas palavras pudessem nascer. “Eu pensava assim: se eu tivesse que escrever ‘loucura’ eu procurava outra palavra com o mesmo sentido”, diz ele. “Porque ‘loucura’ é uma palavra comum e todos os escritores a usariam”.

Questionado sobre seu modo de escrever pelas ruas, Evandro Affonso Ferreira disse que é das pessoas ao redor que tira sua inspiração e que prefere escrever em restaurantes ou bares, onde se senta e escreve “conversando telepaticamente” com os clientes ao redor.  “E se alguém senta na sua frente ou fala com você?” Mário Vitor Santos perguntou. Em resposta, Evandro brincou: “Eu vou para lugares em que ninguém me reconheça. Em geral, quase ninguém me conhece.”

Mencionou ainda que, em termos de escrita, foi um autodidata, e que começou a escrever romances somente aos 44 anos de idade.

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Mesa 2: Evandro Affonso Ferreira, Mario Vitor Santos e Cristovão Tezza (da esq. para dir.)

Tezza contou um pouco sobre sua trajetória como escritor, sobre seu primeiro livro de contos, A Cidade Inventada e sobre como, logo após os contos, os romances assumiram sua verdadeira forma. Respondendo à pergunta: “Editoras preferem publicar romances?”, entre outras coisas, disse que os escritores nunca escolhem de fato seu gênero de escrita, mas que na verdade o percebem dentro de si. “Os contos foram a minha maturação”, diz ele, que escrevia vários romances quando jovem, mas que só após os contos que “os romances começaram a assumir a minha verdadeira forma.” À respeito de contos, ainda brincou: “Você leva anos para ter uma ideia e a gasta em três páginas”. Mencionou seu livro Trapo (1982) como seu primeiro livro maduro, que surgiu do tédio que lhe dava as aulas teóricas de literatura do curso de Letras, quando estudante. “Eu sou um prosador total. A poesia para mim é muito difícil”, afirmou Tezza, sobre como o prosa lhe surgiu como um estilo mais natural.

Falando sobre sua maior obra, Tezza afirmou que escrever O Filho Eterno foi um verdadeiro desafio para ele. De cunho autobiográfico, o livro nasceu da necessidade que Tezza sentia de explorar literariamente a sua experiência de pai com um filho deficiente. “Foi um desafio porque a sociedade já tem um discurso politicamente correto sobre a criança com deficiência, a fim de protegê-la”, ele diz, sobre uma das dificuldades que sentiu em abordar o tema em seu livro. Entre os “achados técnicos” que obteve com o livro, Tezza citou o “narrador de fora”, mas com acesso ao personagem, e a perspectiva de tempo que o permitia fazer uma visão do presente e do futuro. Ainda sobre a técnica, afirmou: “não é simplesmente uma coisa de cartilha. Foi preciso trinta anos de experiência para escrever O Filho Eterno”.

A conversa, de tom amigável e piadista, ainda girou em torno de assuntos como as saias justas sobre escrever resenhas de outros livros, ao que Tezza afirmou que “as resenhas me tornaram mais conhecido em São Paulo”, mas que com o tempo começara a resenhar como um crítico literário, cargo para o qual não achava que se encaixava; e a freqüência com que Evandro Affonso Ferreira escreve sobre a morte, sobre a qual Evandro brincou: “Eeu tenho uma certa amizade com a morte”, e citou a obra A Arte de Morrer, do Padre Antônio Vieira, como um bom livro sobre o assunto.

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O primeiro dia do festival ainda contou com a presença de Ruy Castro, Zuza Homem de Mello e Jorge Oliveira para a mesa “Canções sobre papel”, e Mauro Ventura, Antonio Altarriba e Mário Dávila em “Memórias de Subsolo”.

Vale salientar que as mesas são transmitidas ao vivo pelo site do Festival.