3 Clássicos em diálogo com o presente

Saiba como Os miseráveis, O grande Gatsby O Processo dialogam com a atualidade!

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Foto de Dave DiCello

 

Uma obra literária é fruto de seu tempo e seu espaço. Em muitos casos, ela retrata cenários e hábitos próprios de determinado lugar do mundo, de uma determinada época; em outros, levanta questões pertinentes ao momento em que é escrita, mesmo que não traga um ambiente ou período conhecidos – como costuma acontecer nas distopias. No entanto, muitos sustentam que os grandes livros, os chamados clássicos, são aqueles que, mesmo circunscritos ao seu local e tempo de produção, são capazes de extrapolar esses limites, abordando temas e questionamentos universais. São elementos que dificilmente envelhecem porque tratam de sentimentos entendidos em diversas culturas, situações possíveis de serem vividas em qualquer lugar do mundo, atitudes compreensíveis em hemisférios diferentes do globo. Nós os reconhecemos quando os encontramos, e esse reconhecimento mexe com o nosso interior. A identificação gera o espanto, a reflexão, a alegria, a dor… E é por meio de todas essas sensações que essas obras nos marcam.

Muitos livros podem ser enquadrados nessa categoria. Abaixo, falamos de três deles, e de como eles parecem mais próximos do Brasil atual do que poderíamos, a princípio, imaginar:

 

Os miseráveis, de Victor Hugo (1862)

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A grande (literalmente!) obra de Victor Hugo é um caso curioso: ao mesmo tempo em que pode ser considerada bastante datada, traz também reflexões que impressionam pela sua contemporaneidade. Quem já a leu consegue entender muito bem o que isso significa. Hugo faz um retrato apurado da Paris da primeira metade do século XIX, com suas figuras mais comuns, os espaços pelos quais circulam, seus hábitos, vestimentas e outros detalhes. Isso sem contar todas as inúmeras citações em que geralmente associa essa Paris da época com personagens mitológicas e homens e mulheres célebres de outros tempos, construindo um tecido narrativo complexo para o leitor de hoje, atordoado por tanta erudição, apesar de pertinente para o leitor francês daquela época. Como se isso não bastasse, a história principal é intermediada por longas reflexões de Hugo (ele se coloca, em um exercício de metalinguagem, como o próprio narrador da obra) a respeito dos mais variados assuntos. Algumas dizem respeito a questões do período, mas outras dialogam facilmente com o mundo de hoje.

A questão mais relevante levantada pelo autor é justamente um dos tópicos centrais da obra: as consequências da pobreza. O protagonista, Jean Valjean, é apresentado como um jovem miserável que cometeu um pequeno furto por necessidade. Devido a esse crime, foi apreendido e enviado às galés, navios onde os condenados cumpriam sua pena, acorrentados e sujeitos a situações de insalubridade e penúria. Por desespero, Jean tenta fugir algumas vezes, e a cada fuga frustrada o seu tempo de internação aumenta. Esse homem só é liberto dezenove anos depois, e sai odiando tudo e todos, como um animal ferido.

As reflexões de Hugo sobre a questão são contundentes, provocadoras, muito mais imbuídas da noção de uma justiça igualitária do que era comum na sua época. O trecho abaixo, em que o autor fala por meio do pensamento de seu protagonista, dá uma amostra:

Nessa história toda, o erro era só dele? Era igualmente grave o fato de ele, trabalhador, não ter trabalho; ele, trabalhador, não ter pão. Depois de a falta ter sido cometida e confessada, o castigo não foi por demais feroz e excessivo? Onde haveria mais abuso: da parte da lei, na pena, ou da parte do culpado, no crime? Não haveria excesso de peso em um dos pratos da balança, justamente naquele em que está a expiação? Será que o exagero da pena não apagava completamente o crime, quase que invertendo a situação, fazendo do culpado vítima, do devedor credor, pondo definitivamente o direito do lado de quem cometeu o furto? Essa pena, aumentada e agravada pelas sucessivas tentativas de fuga, não era, por acaso, uma espécie de atentado do mais forte contra o mais fraco, um crime da sociedade contra o indivíduo, um crime que todos os dias se renovava, um crime que se estendeu por dezenove anos?

Como ler esse trecho e não pensar nos questionamentos que o Brasil vem fazendo, nos últimos tempos, sobre a redução da maioridade penal? Não é justamente a questão da desigualdade social um dos principais argumentos levantados contra a medida? Hugo reflete, há mais de 150 anos, sobre a justiça que se busca fazer sem que haja, antes, a simples justiça social, o que “desequilibra a balança”. O caminho do jovem de família desagregada, que vive na miséria (como foi o próprio Jean Valjean), não é fatalmente o crime? É o que nos perguntamos hoje e Hugo se perguntava naquela época. Só por esse raciocínio – e pelas histórias que são sustentadas por ele ao longo da narrativa – Os Miseráveis já vale entrar para a sua lista de leituras.

 

O Grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald (1925)

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Essa obra, assim como Os Miseráveis, é bastante representativa do seu tempo. Embora o estilo límpido de Fitzgerald não permita que ele caia num poço de erudição sem fim, tal qual o nosso caro Victor Hugo, temos na sua história a tentativa clara de reproduzir o espírito dos anos vinte, que trazia a busca infindável por diversão, luxo e um senso de que o presente é o melhor dos tempos para se viver.

Na tentativa de retratar esse estilo de vida – e suas inescapáveis contradições – Fitzgerald nos apresenta Jay Gatsby, um milionário de passado desconhecido que dá épicas festas em sua mansão todas as noites. No entanto, apesar de aparentar ser um cavalheiro divertido e descomplicado, Gatsby cuidadosamente esconde uma faceta amarga e ferida, talhada por um profundo trauma sentimental. É um lado de sua personalidade que ninguém se interessa em acessar. Embora rodeado de pessoas, trata-se de um solitário, de alguém que usa uma máscara de alegria para disfarçar sua dor. Gatsby sabe que a dor não atrai, não seduz. É preciso ocultá-la a fim de se mostrar bem sucedido e desejável. Prova disso é que, após algumas pessoas levantarem diversos tipos de informações que correm sobre o passado do anfitrião (burburinhos como “matou um homem” ou “estudou em Oxford”), uma das personagens simplesmente decreta: “Seja como for, ele dá grandes festas”.

É quase impossível não sentir que esta obra fala a cada um de nós, sobre cada um de nós, em pleno século XXI. Uma época em que a autoestima de alguém depende do número de curtidas que a pessoa recebe numa foto nas redes sociais; época em que todos os amigos são lindos, andam na moda, comem nos melhores restaurantes e viajam para os melhores lugares, ao menos pelo que mostram na tela do computador; época em que não há espaço para o sofrimento real, o sofrimento íntimo, o sofrimento que dilacera, porque é preciso ser feliz a qualquer custo, a todo momento; época em que a própria dor, quando existe, é transformada em espetáculo para gerar atenção. Vivemos hoje numa sociedade muito similar àquela exposta friamente em O Grande Gatsby – e que talvez tenha se inventado, com essa configuração, justamente naquele período. Ler esse livro hoje é ficar estarrecido com o desespero humano por ser venerado e perceber que o mundo atual achou novos canais para amenizar algumas velhas angústias.

 

O Processo, de Franz Kafka (1925)

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Publicado no mesmo ano em que O Grande Gatsby (que incrível ano esse para a literatura, não?), O Processo é uma obra singular. Como é de praxe nos escritos de Kafka, a narrativa parte de alguma situação absurda – no caso, a detenção do protagonista, Josef K., informada por dois guardas que simplesmente aparecem em seu quarto numa manhã qualquer. Aqui, ao contrário das duas obras vistas anteriormente, temos tempo e espaço bastante nublados, sem indicações precisas. Isso já ajuda o leitor a entender a história como menos datada, embora saibamos o período em que foi escrita e a nacionalidade (Kafka era tcheco) do escritor.

A graça da obra encontra-se justamente no desenrolar dessa prisão. Josef K. é informado de que foi detido porque há um processo aberto contra ele, mas as coisas vão acontecendo sem que ele entenda de que se trata esse imbróglio jurídico. O protagonista então se depara com uma série de outras situações absurdas, em que basicamente deixa de tentar entender o que acontece ou se indignar e passa a reagir ao que lhe é apresentado. Um exemplo é o trecho em que aparece atrasado a uma convocação, por não ter sido lhe dado o horário desse compromisso (compromisso, aliás, de que nada sabe) e, ao invés de retrucar ou questionar a própria convocação, K. simplesmente responde: “embora tenha chegado tarde, o fato é que estou aqui”. Ou quando a personagem encontra os guardas que o prenderam sendo torturados num quartinho de limpeza no banco em que trabalha e, encontrando-os lá numa segunda ocasião, brada nervoso aos faxineiros: “Façam alguma vez a limpeza no quarto de despejos! Não se pode entrar ali, de tanta sujeira!”.

O próprio tom de fábula da obra é um estímulo para pensá-la com um caráter mais universal. De fato, apesar do tom propositadamente surreal de certas passagens, nota-se que a história é uma crítica de Kafka aos absurdos de certos processos sociais, muitas vezes confusos, perdidos na burocracia de departamentos e encarregados diversos, de leis abstratas, de partes que não agem como um conjunto coeso. Qualquer brasileiro certamente já se sentiu como K., enterrado em procedimentos inexplicáveis e trabalhosos sem objetivo aparente. Financiamentos de imóveis, acertos com bancos, requisições em repartições públicas… Não é preciso ir muito longe. Em cada um de nós vive um Josef K., indivíduo incansável, lutando contra os labirintos que a sociedade cria para si mesma. Por isso, o melhor remédio, na próxima visita ao cartório, é levar debaixo do braço O Processo e se divertir um pouco com as surreais desventuras do protagonista.

E você, leu mais alguma clássico que dialoga bem com o nosso presente? Conte para nós!

 

Referências:

HUGO, Victor. Os miseráveis. Trad. Frederico Ozanam Pessoa de Barros. São Paulo: Cosac Naify, 2012.

FITZGERALD, F. Scott. O grande Gatsby. Trad. William Lagos. São Paulo: L&PM Pocket, 2011.

KAFKA, Franz. O processo. Trad. Torrieri Guimarães. São Paulo: Abril Cultural, 1979.

Carolina Prospero Autor

Professora de Literatura e Redação. Formada em Letras pela Unicamp, fez lá também o seu mestrado, no qual trabalhou com a obra da musa-mor Clarice Lispector. Escreve de vez em quando, muito menos do que gostaria. Adora livros, séries e o seu gato Dante.