48 Contos Paranaenses, ou 48 conversas sobre pessoas

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Organizada pelo escritor Luiz Ruffato, a coletânea 48 Contos Paranaenses reúne escritores de várias épocas, nascidos ou radicados no Paraná.

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Luiz Ruffato

Organizar uma antologia literária deve ser uma bela incógnita: imagino um lado da mesa forrado com livros dos quais emprestar material, e outro canto preenchido por folhas com anotações de nomes a pesquisar. Especificadas, as definições básicas não aliviam: devem-se buscar os contos produzidos no Paraná, e a coletânea deve permitir a quem lê – recém chegado a esta produção ou um entusiasta com algum conhecimento – explorar e ter alguma noção do vasto território semeado. Foi por este terreno que Luiz Rufatto passeou ao organizar 48 Contos Paranaenses.

No prefácio, o organizador fala um pouco dos primórdios literários do Estado: desde sua desmembração do Estado de São Paulo no século XIX, a uma leve controvérsia sobre quem teria inaugurado de fato algo possível de ser chamado ‘literatura paranaense’. O termo é involuntariamente ambíguo, pois os autores e autoras nasceram ou viveram/vivem no Paraná, mas isso não significa que suas produções estejam unidas. Isso não é próprio do gênero conto e me arrisco a dizer que esta ‘desunião’ é um acerto da antologia, pois se existissem muitas semelhanças de tema ou estilo, seria possível termos uma falsa impressão de que os autores paranaenses estão (e estiveram) ligados sempre nos mesmos tópicos.

Não é o caso, ainda bem. 48 Contos desenha um mapa do início da vida cultural do Paraná a partir de 1896, ano de publicação de Contos Paranaenses de Lucio Pereira, e incluí autores(as) nascidos(as) até 1980 apresentados em ordem alfabética, cada um com pelo menos um livro publicado, seleta de contos ou não. Esta linha do mapa nos diz muito: temos gente consagrada dividindo espaço com quem andou no conto apenas a passeio ou, quem sabe, está com uma andança planejada. Há mais critérios especificados no prefácio, mas vamos a alguns dos contos.

“Por lá é tanto pessoal diferente que você ia se aceitar do jeito lindo que é, e ia se amar”. Legal, mas o que a Regina Benitez quis dizer com diferente em Os Minúsculos rapazes do Palace Bar ? “Algumas mulheres, entre cochichos, mexericavam que a braba e os bigodes, dos quais tanto a outra se envaidecia, eram postiços”. Alguém quis deixar o leitor se perguntando o que ele tem a sua frente.

Vamos a Tebas, de Lucio Pereira, é a história de um símbolo de fortuna de um homem e de sua consciência sobre ele, afinal, o ‘símbolo’ bípede o serviu por anos e era só um bem qualquer, seu fim cabia ao seu dono, e tanto faz se a rapariga de confiança e os demais empregados do senhor Manoel Colosso ficassem tristes com sua partida forçada – o homem era um pouco inflexível, de mandar fazer e pronto.

“Mas, nhô Zeca […] a alguma cousa mecê vem… Será alguma parelhinha que vai atar e precisa do velho pra arrumar a raia; ou algum amorzinho novo que não quer se ajeitar?” Bem mecê podia torcer para ser só um amorzinho descarrilhado, enquanto os convivas deste causo de Julio Perneta, batizado O Exorcismo, chuchurreiam um chimarrão enquanto palestram em torno do fogo.

Há mais contos, em especial anteriores à primeira metade do século XX, com este singelo linguajar hoje chamado antigo, e isso dá um charme e tanto. Soam naturais pelo jogo verbal e pela estrutura direta de narrar o ficcional sem floreios, como transcrições escritas de causos estranhos acontecidos na cidade ou no campo em décadas onde o espaço urbano ainda não era a maioria. Com muito esforço um autor atual pode buscar reproduzir tal atmosfera, mas mesmo sendo bom (e assumindo o risco de parecer saudosista) não é a mesma sensação de se ler algo escrito por quem viveu no início do século XX.

contosparanaensesNada contra os contos recentes, pois também tem seus méritos. A professora de Aula de Reforço, de Cristovão Tezza, pode ser uma amiga ou conhecida nossa, pois vale qualquer extra para encher os bolsos nessa cidade de empregos tão firmes quanto um prédio a espera da ruína – recebendo antes e cuidando para não se meter em uma baita encrenca, óbvio.

O Menino na Árvore, de Oscar Nakasato, é outra narrativa desta safra. Nada de caça a dinheiro por aqui, apenas a um espaço, seja onde for – e principalmente por seu custo. E a Rita Ritinha Ritona, ela pode ser uma guria que se conhece numa balada, meio grupo de amigos fica de olho nela e ninguém sequer é notado, e olhando mais de perto a gente pode intuir muito do destino dela – está tão na cara!- , e não ficar feliz em ter razão ao ver a dona da rua se arrebentar por tão pouco (reclame com o Trevisan sobre a Rita, ele é um senhor acessível).

Senti falta de um conto do Jamil Snege, seria ótimo poder mostrar o humor ácido dele – em geral o humor de 48 Contos Paranaenses é mais sutil, quando presente. E nela também vemos que alguns autores não brilham tanto como contistas, pois Grande Hotel Rosebud, de Manoel Carlos Karam, é bem escrito mas não é divertido como o bagunçado romance (?) Jornal da Guerra contra os Taedos. Mas isso vai de você, claro. Como Luiz Ruffato deixou no prefácio, “cabe ao leitor escolher, entre tantos, aqueles que melhor dialogam com suas próprias experiências”.

Para mim, ao invés de insistir em uma possível identidade paranaense (como se houvesse identidade catarinense, mato-grossense e conversas parentes), este é o cerne da antologia: experiências. Mesmo as geograficamente localizadas no Estado do Paraná poderiam ter acontecido ou sido contadas por gente de outras vizinhanças. Pode ser visto também como uma (ou mais uma) leitura sobre gente – e esta, sabemos, muda de lugar mas nem sempre de manias. Ainda bem: sobra mais assunto para a ficção.

 

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“Chamada” (ou: estão no livro 48 Contos Paranaenses): Aluísio Ferreira de Abreu, Andrade Muricy, Antonio Cescato, Assionara Souza, Carlos Machado, Caetano Galindo, Cezar Tridapalli, Cristovão Tezza, Dalton Trevisan, David Gonçalves, Ernani Buchmann, Fábio Campana, Guido Viaro, Jayme Balão Junior, Jair Ferreira dos Santos, José Cruz Medeiros, José Marins, Júlio Damásio, Júlio Perneta, Luci Collin, Lucio Ferreira, Luiz Andriloli, Luís Henrique Pellanda, Luiz Felipe Leprevost, Manoel Carlos Karam, Marcio Renato dos Santos, Mário Araújo, Marco Cremasco, Miguel Sanches Neto, Nestor Victor, Nilson Monteiro, Newton Sampaio, Oscar Nakassato, Otávio Duarte, Otto Leopoldo Winck, Paulo Sandrini, Paulo Venturelli, Regina Benitez, Reinoldo Atem, Renato Bittencourt Gomes, Roberto Gomes, Roberto Muggiati, Rocha Pombo, Sérgio Rubens Sossélla, Susan Blum, Thiago Tizzot, Wilson Bueno e Wilson Rio Apa.