5 aprendizados de Gangnam Style para a Literatura

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O que a canção Gangnam Style, do coreano Psy, pode mostrar a Literatura do século XXI?

gangnam-styleÉ pouco provável que alguém, em 2012 ou nos anos a seguir, não tenha topado com o vídeo Gangnam Style do músico coreano Psy. No momento em que escrevo, o vídeo tem 2.447.848.317 visualizações no Youtube, fazendo-o ser o mais visto, até então.

O que explica tamanho sucesso e o que a literatura pode tirar de aprendizado disso? Selecionamos alguns deles, para melhor entendermos as perspectivas da literatura no novo século.

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A barreira do idioma pode ser vencida

Muitos países, principalmente o Brasil, dizem que nunca chegarão ao patamar de grande literatura ou de reconhecimento devido à barreira linguística. Psy prova que um bom trabalho pode quebrar a barreira da língua. O coreano não é um idioma muito falado – tem 77 milhões de falantes contra 250 milhões do português, por exemplo – nem é considerada uma língua fetiche como o francês, com seus 120 milhões de falantes. No entanto, o trabalho interessante pode superar facilmente essa barreira-problema que tantas vezes é posta como nosso inimigo. Daí também podemos tirar o aprendizado a seguir.

O futuro da cultura e da literatura provavelmente não está nos grandes centros

Psy é da Coréia do Sul, um país economicamente rico, mas culturalmente menor – ainda mais comparado com seus vizinhos Japão e China. Isso não impediu a crescente invasão de Gangnam Style e do K-Pop em geral. Na literatura isso também ocorre. O Brasil e outros países historicamente periféricos tornam-se, cada vez mais, o centro das atenções na literatura. Chimamanda Adichie, nigeriana, Mia Couto, moçambicano, Salman Rushdie, indiano, são exemplos disso. Mesmo se contarmos o Nobel a partir do ano 2000, países como China, Hungria, Turquia, Peru, Canadá e Bielorrússia têm marcado posição. O futuro tem grande chance de não estar nos velhos países do centro (EUA e grandes nações europeias), mas naqueles lugares que antes eram ignorados.

 

O não-usual pode dar certo

Há de tudo, menos coisas usuais em Gangnam Style. Um coreano acima do peso tocando dance, de terno formal e com uma atitude hip-hop muito estranha. Boa parte do sucesso dele e de muitos autores vem exatamente dessas combinações estranhas. O não-usual, o diferente, a mistura de elementos anteriormente postos em campos diferentes. Não é admitir que toda mistura usual dá certo – pois nem sempre dá -, mas antes ver que os velhos modelos devem ser reformulados, misturados, implodidos e reconstruídos com novas misturas. O nome da rosa, de Umberto Eco, é isso (romance policial mais romance histórico). As narrativas do Realismo Mágico, também (o mágico, o local, o universal). O americano Thomas Pynchon talvez seja o caso extremo dessas misturas e testes – o que torna a literatura cada vez mais interessante.

 

Clichês bem usados podem ainda dar certo

Quem vê e ouve o vídeo de Gangnam Syle encontra um sem fim de clichês musicais – mas eles funcionam. Tomados de um espírito romântico um tanto démodé, boa parte dos escritores busca sua singularidade, busca a inovação pela inovação, o afastamento cada vez maior do que já foi feito etc. Eles refutam e negam tanto os clichês ao ponto de se tornarem ilegíveis para qualquer leitor que não tenha feito um doutorado em teoria de literatura. A inovação e a abstração chega a limites absurdos para que os escritores fujam dos lugares comuns – sinônimo de clichê, de coisa fácil. Robert McKee, roteirista e autor de Story, fala que os clichês são bons desde que usados para ajudar o texto, não como saída fácil. Às vezes, amontoá-los sem uma lógica torna a literatura chata, mas sendo bem usado – ou melhor, reutilizado de forma criativa – a obra tem apenas a ganhar.

 

É possível fazer rir e fazer pensar 

Pouca gente se toca, mas Gangnam Style faz uma dura crítica ao bairro rico de Seul e aos seus habitantes. Enquanto rimos das cenas absurdas com a canção pouco provável, Psy nos apresenta um mundo classe alta padrão ocidental: cavalos, tênis, jacuzzi, belas mulheres e por aí vai. Temos ótimos exemplos literários que expõe da mesma forma a questão. O guia do mochileiro das galáxias, de Douglas Adams, faz o leitor rir na sucessiva peripécia absurda no espaço. No entanto, o leitor mais atento consegue captar que não estamos rindo dos personagens, antes de nós mesmos. Tanto Psy como Douglas Adams nos lembram que o riso e o deboche podem nos divertir, contudo conseguem ser autocríticos mesmo com o riso.