5 escritores que desapareceram sem deixar rastro

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É certo que todos nós iremos desaparecer um dia e restará, ou assim esperamos que seja, apenas nossa lembrança na memória de alguns que ficam, até que esses também partam; exceção feita  àqueles como alguns escritores, que podem ficar para sempre na memória da humanidade, geração após geração. É  por isso que deixar uma obra para a posteridade é uma das grandes ambições humanas. É inadmissível para nossa vaidade desaparecer por completo, mas também compreensível. Afinal,  a maioria de nós vai desaparecer em menos de um século. Mas quando desaparecemos sem deixar rastro algum, a incerteza da morte e no caso desta, a falta dos restos mortais para que se possa ritualizar o fim e dar seguimento à vida, costuma ser de extremo sofrimento para os que ficam. Confiram, agora,  uma lista de cinco escritores que desaparecem ser deixar menor rastro:

1. Antoine de Saint –Exupéry

Antoine de Saint –Exupéry

O autor tornou-se conhecido por causa do livro O Pequeno Príncipe, obra rica em simbolismo sobre o sentido da vida.  Saint-Exupéry foi um escritor, ilustrador e piloto francês nascido em 1900 e falecido em  julho de 1944 quando o avião que pilotava durante uma missão militar, caiu perto de uma baía em Toulon. Desde então seu desaparecimento gerou várias hipóteses até que em 1998 um pescador encontrou uma pulseira em sua rede de pesca com o nome Saint-Exupéry. Em 2003 destroços de um avião retirados do mar foram identificados pelo número de série como sendo do aparelho que ele pilotava, um Lockheed Lightning P-38. Próximo foram encontrados também destroços de um avião alemão e a investigação foi direcionada para este país. Até que em 2006 um ex-piloto alemão de nome Horst Rippert, à época com 86 anos,declarou ser ele quem havia abatido o avião de Saint-Exupéry.  Rippert disse ter desconfiado várias vezes tratar-se do escritor, mas como não tinha certeza resolveu calar-se. Depois de todas as evidências descobertas, lamentou a ironia do destino, pois era leitor de seus livros e dizia admirá-lo. Toda a pesquisa sobre a morte de Exupéry levou a um livro lançado na França, parece que sem edição no Brasil, pelo mergulhador Luc Vanrell e pelo jornalista Jacques Pradel:  Saint-Exupéry – L’Ultime Secret  (Saint-Exupéry – O último Segredo).

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2. Ambrose Bierce

Ambrose Bierce

Ambrose Gwinnet Bierce foi um escritor, jornalista e um crítico satírico norte americano, nascido em Ohio, Estados Unidos, em 24 de julho de 1842. Ficou especialmente conhecido por sua obra O Dicionário do Diabo. Dizia que “ sozinho” era estar em “má companhia”.  E nada escapava ao seu cinismo e humor negro: família, nação, raça humana. Dizem que nasceu em uma família um tanto excêntrica, cheia de conflitos e mortes estranhas. Seu pai era dominado pela mulher, fanático religioso e apaixonado por poesia, o que parece contraditório ao imaginar-se desse tipo de paixão um mínimo de espírito livre. Bierce faleceu aos 71 anos em 1913 ao partir em viagem para o México sem deixar rastros.  Uma tese popular diz que ele teria sido fuzilado pelos revolucionários de Pancho Villa. Seus textos eram sombrios, reflexões sobre desaparecimento e morte, e por causa de sua personalidade sarcástica e irascível arrumou muitos desafetos pela vida. Bierce é hoje considerado um dos mestres da literatura de horror americana ao lado de H.P.Lovecraft  e Edgar Allan Poe. Era descrente de tudo, agnóstico, ateu, herege. “Minha independência é meu patrimônio. É minha literatura”, dizia. “Escrevo para agradar a mim mesmo, não importando quem saia ferido”.  Até que no verão de 1913 já amargo, velho e doente (sofria de asma e alcoolismo), desapareceu  para sempre da civilização que tanto detestava e foi encontrar-se com a personagem de suas obsessões: a morte.

3. Arthur Cravan

Arthur Cravan

Cravan  (pseudônimo de Fabien Avenarius Lloyd) nasceu em 22 de maio de 1887, em Lausanne. Era sobrinho de Oscar Wilde e tinha uma personalidade transgressora, extravagante. Para se ter uma ideia foi poeta e lutador de boxe, atividades que nos parecem discrepantes. Talvez  sua personalidade explique o fato dele ter sido um anarquista e possivelmente o precursor do dadaísmo, movimento artístico que surgiu na Europa em 1916, mais exatamente  em Zurique na Suiça, e que tinha como característica principal a ruptura com as formas de arte tradicionais. Foi criador da revista Maintenant constituída por textos escritos por ele sob vários pseudônimos. Cravan desapareceu no Golfo do México em 1918 quando estava indo com a mulher e a filha para a Argentina em busca de uma vida melhor. Elas foram de trem e ele de barco, mas ele nunca chegou ao destino e ninguém sabe o que de fato aconteceu, porém  alguns diziam tê-lo visto circulando pela Europa até os anos 1920. Conta-se  que certa vez  Cravan anunciou que iria se suicidar em público, o que gerou uma grande concentração de curiosos. Ele então os acusou de voyeuristas e ofereceu uma conferência detalhada sobre a entropia, movimento natural que leva todos os corpos de volta à massa da terra.

4. Rodolfo Walsh

Rodolfo Walsh

Rodolfo Walsh nasceu em 1927 na província argentina de Neuquén e morreu em 1977. Atuou no campo literário primeiramente como tradutor e editor, mais tarde como jornalista e ficcionista. Em Bueno Aires na esquina das avenidas Entre Ríos e San Juan, os mais atentos podem ver uma modesta placa em sua homenagem.  Consta que foi ali que agentes da repressão durante a ditadura do presidente Jorge Videla, cercaram o escritor e o crivaram de balas. O autor argentino armado ainda tentou reagir, mas foi morto e colocado em um veículo, e desde então seu corpo nunca mais foi encontrado.  Walsh foi um ativo membro dos Montoneros (grupo marxista que apoiava Perón), inspirado por sua ascendência irlandesa e pelos guerrilheiros que lutaram pela independência daquele país. Por causa disso Walsh é visto como herói para muitos, mas também como vilão para outros, mas nem uma coisa nem outra  tira o seu mérito como escritor. Ele é o autor do clássico da não ficção Operação Massacre, e já tem  sua obra completa de ficção lançada no Brasil. Saiu pela editora 34 o terceiro volume de sua coleção de contos, A Máquina do Bem e do Mal, reunião de 25 textos escritos entre 1950 e 1967. Segundo o escritor Ricardo Piglia, os textos têm o mérito de mostrar “uma verdade referencial, mas nunca dizê-la”. Os contos de Walsh são carregados de sentido político, mas não da maneira panfletária como faz a maioria da esquerda na Argentina.

5. Héctor Germán Oesterheld

Héctor Germán Oesterheld

Oesterheld foi um escritor argentino filho de pai alemão, referência na criação de quadrinhos, contos de ficção científica e romances. Nasceu em 1919 em Buenos Aires e desapareceu durante a ditadura  em 1977, provavelmente assassinado por militares. Como Walsh, se juntou com suas filhas aos Montoneros  e  passou a viver na clandestinidade até ser seqüestrado e desaparecer.  Suas filhas, genros e netos  também desapareceram. Uma história trágica para sua família. Oesterheld abandonou a profissão de geólogo para se dedicar à literatura e ao roteiro de desenhos animados. Através de suas  histórias em quadrinhos ele criticava a ditadura militar argentina. Com ilustrações de Francisco Solano e Alberto Breccia criou o Eternauta, obra prima de quadrinhos da América Latina, que continua republicado em vários idiomas e tem milhares de seguidores na América e Europa. Sua esposa Elsa Sánchez participou dos protestos das Mães da Plaza de Mayo e tornou-se uma das porta-vozes para as Avós da Plaza de Mayo, que advoga para o retorno de crianças dos desaparecidos para suas famílias de origem.

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Os desaparecimentos de Walsh e Oesterheld são alguns exemplos da maneira de agir dos regimes de governo ditatoriais que chocam pela torpeza dos motivos.