5 Exercícios cerebrais praticados durante a leitura

No Réveillon são feitas muitas promessas para o novo ano ser melhor. Muitos prometem emagrecer, mudar de emprego ou então praticar exercícios para cuidar da saúde. Se você fez tal promessa, aqui vão algumas dicas para fortalecer seu cérebro, que também é um músculo

Antes de se sentir cansado só com a ideia de ter que se exercitar, tenho uma boa notícia: você não precisará transpirar nenhuma gota de suor, basta abrir um bom livro e praticar a leitura diariamente.

A neuropsicologia vem demonstrando nos últimos anos os efeitos provenientes da prática da leitura em nosso cérebro. Vou destacar aqui cinco exercícios cognitivos realizados enquanto nos aventuramos nas páginas de um livro.

 

Memória

Não há vida sem memória. Se não tivesse memória você não estaria lendo este artigo porque não saberia que sabe ler. Durante a leitura, as regiões encefálicas onde se encontram as memórias de curto e longo prazo são ativadas. A de curto prazo tem a função de processar informações, tal como a memória RAM dos computadores. É através dela que as palavras se agregam em um sentido para a compreensão (ou não) do texto. A de longo prazo contém todo o aprendizado de uma vida, é o grande recipiente do conhecimento.

Então, quando você lê Sherlock Homes está em uma sala mobiliada de modo rústico a memória de longo prazo busca referências pessoais para os conceitos de “sala”, “moveis rústicos” e até para “Sherlock Homes”. Desse modo o leitor o famoso detetive no cômodo descrito. A cada leitura praticada, novas conexões neurais são feitas ampliando cada vez mais a capacidade de processamento do cérebro.

 

Atenção

Se você chegou até este ponto do artigo sua atenção (e perseverança) estão preservadas. Quando lemos, nossa atenção tem uma árdua tarefa: selecionar e depois excluir estímulos que sejam irrelevantes para a tarefa, como por exemplo: as mensagens de zapzap que não param de chegar, o cachorro latindo no vizinho, aquela conta a ser paga depois que terminar de ler um capítulo, e etecetéras.

Nossa atenção é dividida em três modos. Um deles sustenta a atenção para não haver desvios, como o foco de uma lanterna. Outro modo alterna o foco dessa lanterna entre dois estímulos importantes, como por exemplo se você lê no ônibus ou metrô. Parte de sua atenção está na história e parte mantém-se atenta à estação em que vai descer. E por fim a capacidade de selecionar e inibir aquilo que não tem função para o momento, como por exemplo quando você tenta ler e uma voz ou pensamento insiste em interferir. Você até lê o que está escrito, mas quando percebe não absorveu nada. Sem a atenção não tem como a memória desempenhar o seu papel. Como seria possível memorizar todos os nomes de personagens ou de suas famílias em O Senhor dos Anéis ou em As Crônicas de Gelo e Fogo sem a atenção?

 

Visopercepção

A leitura é uma atividade visual em dois sentidos. Primeiro, sem os olhos não poderíamos captar as palavras impressas nos livros. No caso dos deficientes visuais são os dedos que fazem essa função. Portanto, a função cognitiva da visopercepção é a habilidade de captar as informações externas a nós e encaminhá-las para o processamento interno.

O outro sentido da atividade visual é que você enxerga o que o escritor esculpiu nas páginas. Ao contrário de um filme, onde as imagens são transmitidas prontas para a captação visual, na leitura estas são criadas. Com o auxílio da memória de longo prazo somos capazes de visualizar através da imaginação tudo o que está escrito, até aquilo que é impossível no plano concreto. Quantos e quantos livros não descrevem ambientes, situações ou objetos que nunca tivemos contato?

Para os amantes da ficção um dado interessante: para o cérebro não há diferença entre informação enxergada através da imaginação ou pelos olhos, as duas são processadas na mesma região encefálica. Portanto, do ponto de vista cerebral, não há diferença entre o real e o imaginário.

 

Função executiva

Localizada na região encefálica de desenvolvimento mais recente no processo evolutivo, esta função é o grande diferencial em relação às outras espécies. É nela que mora nossa capacidade de abstrair, raciocinar, julgar, de sermos lógicos e criativos. Durante a leitura a função executiva, como o seu próprio nome diz, executa e coordena as demais funções descritas acima, como um maestro rege uma orquestra. O ato de ler exige de nós diversos tipos de raciocínios, de lógica, mesmo quando não há (aparentemente) uma lógica estabelecida. Se não fosse por esse processador central, talvez nossa espécie nunca teria criado sua melhor invenção: os livros.

 

Afeto

E por fim os afetos, não menos importante que as demais funções cognitivas. Afeto é tudo aquilo que te afeta, logo, existem afetos bons e ruins. A leitura desperta uma série deles que tiram o leitor de sua zona de conforto. Isso estimula a curiosidade e o desejo de continuar nesse desconforto gerador de prazer. O bom escritor consegue trabalhar os afetos do leitor ao longo da trama com reviravoltas e um clímax de tirar o fôlego. Stephen King chama essa habilidade do escritor de telepatia. Exemplos não faltam: quantos(as) não ficaram de fogo ao ler Cinquenta tons de Cinza? Ou então sentiram um grande desconforto – para não dizer angústia – com o Estrangeiro de Albert Camus?

A empatia que sentimos, por exemplo, à família dos Stark em As Crônicas de Gelo e Fogo, ou então ao anão Tyrion Lannister, é proveniente desta função cognitiva. Reconhecemos de forma positiva ou negativa os elementos humanos que os personagens da narrativa espelham sobre nós. Durante a leitura vivemos aquele sentimento despertado, seja ele qual for. Não é possível, do ponto de vista cerebral, pelo menos, não sair modificado de uma leitura.

***

Existem muitas outras funções cognitivas em ação durante a leitura. Ler é considerado uma das atividades cerebrais mais complexas, pois envolve praticamente 100% da nossa capacidade cognitiva. Sabe aquela história de que o ser humano usa apenas 10% de seu cérebro? Pois é, essa não é uma verdade quando se trata de leitura. Há muito mais em jogo do que pensamos.

Portanto, se você prometeu exercitar-se no ano de 2015, já começou bem. Tente incorporar em sua rotina uma leitura diária, porque assim a máquina extraordinária que está acoplada à sua cabeça vai longe… muito longe.

 

 

Mickael Menegheti
É casado e trabalha como psicólogo. Paulista de nascimento e mineiro por criação vê na literatura o eco da alma humana corporificar-se em palavras. Conheceu o mundo das letras por culpa da série Vagalume com o clássico O mistério do cinco estrelas e desde então não parou mais. Fã assumido de J.R.R. Tolkien, Arthur C. Clarke e Luís da Câmara Cascudo. É amante declarado do Cinema, Blues e videogames. Contista e escritor de ficção tentando sair da ficção.
Mickael Menegheti
É casado e trabalha como psicólogo. Paulista de nascimento e mineiro por criação vê na literatura o eco da alma humana corporificar-se em palavras. Conheceu o mundo das letras por culpa da série Vagalume com o clássico O mistério do cinco estrelas e desde então não parou mais. Fã assumido de J.R.R. Tolkien, Arthur C. Clarke e Luís da Câmara Cascudo. É amante declarado do Cinema, Blues e videogames. Contista e escritor de ficção tentando sair da ficção.
- Advertisment -

Em Alta

- Advertisment -