5 lições de Dom Casmurro para entender a crise

O que a visão de mundo de Bentinho, em Dom Casmurro, pode nos ensinar sobre parte da situação política atual

Dom Casmurro, série da Rede Globo em comemoração do centenário da morte de Machado de Assis

Estamos em um momento de “crise”, entre aspas mesmo. Crise política, crise financeira, crise ética. Para alguns, a maior crise de todos os tempos no Brasil – mesmo que ele tenha apenas quinhentos e quinze anos. Como é de se esperar em situações nas quais certezas somem, culpados são apontados. Foi fulano, a culpa é dele, dela e mais daquele outro. Eu sou um ser humano perfeito, faço tudo corretamente. Venho de um tempo em que tudo funcionava, em que tudo era melhor, em que havia respeito. Devemos voltar àquele tempo etc.

(a continuação do parágrafo acima muda pouco, deixo-a à imaginação do leitor)

Vamos ao que interessa.

Machado de Assis publicou Dom Casmurro em 1900, obra na qual acompanha a vida de Bentinho/Bento Santiago. O narrador-protagonista narra a história do seu relacionamento com Capitolina/Capitu, à qual dedicou toda a sua vida, casando com ela e formando família até que descobre ter talvez sido traído por ela com seu melhor, Escobar.

Errado.

Dom Casmurro não é um romance que fala, mas que silencia muitas coisas – e esses não ditos são os que realmente significam algo. Machado de Assis consegue nos apresentar um grande painel do Brasil, das classes abastadas e dos políticos. A própria dúvida de Bentinho é o resultado de um ser mimado, mas que nunca admite esse fato e se põe como vítima das situações.

Podemos tirar muitas conclusões ao lermos Dom Casmurro, verdadeiros conselhos de vida. Para tanto, selecionamos cinco deles para analisarmos a situação atual do país.

Talvez esses cinco pontos não sejam muito fiéis aos fatos. No entanto, creio que o próprio Bento Santiago entenderia o caso.

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Sempre tendemos a idealizar o passado

É algo preciso de todos nós. Em algum momento, pelo menos uma vez na vida, tendemos a acreditar que antes era melhor por um motivo qualquer. A distância distorce os fatos e a memória – Bentinho que o diga. Acreditar que antes as coisas eram melhores e agora estamos no pior momento, que é o fim de tudo, dos tempos, enfim, todos esses clichês, mostra vários pontos da personalidade de quem pronuncia o fato, mas atentarei somente a dois: 1) que estamos vendo o que foi muito melhor com a distância, e o esquecimento e 2) que estamos envelhecendo.

É mais fácil se agarrar a uma certeza dúbia do que analisar com frieza os fatos

Em Dom Casmurro, percebemos que Bentinho é um homem cheio de certezas acerca do seu passado e do seu relacionamento com Capitu. Todas elas, entretanto, são tão firmes e fundadas quanto um as bases de um castelo de areia. No famoso capítulo CXXIII (Olhos de ressaca), Bento Santiago conclui que foi traído pelo defunto:

No meio dela, Capitu olhou alguns instantes para o cadáver tão fixa, tão apaixonadamente fixa, que não admira lhe saltassem algumas lágrimas poucas e caladas…

Como é fácil notar, não há nada que comprove a falta – bem como nada que a negue. O fato em si mostra uma situação, nada mais.

Pode parecer óbvio, mas hoje, na política nacional, temos vários políticos que acusam sem provas a presidenta de corrupção, por exemplo, enquanto outros, com muitas provas, são ignorados ou tolerados ou, melhor ainda, incentivados enquanto são úteis. Talvez a máxima de Jacques Le Goff, historiador francês, deva ser dada a ambos, aos políticos e a Bentinho, para lembrar o óbvio: Pas de documents, pas d’histoire (sem documentos, não há história).

A inveja dos acertos alheios nos leva a crer que os reais defeitos são muito maiores do que realmente são

Há algumas verdades inegáveis em Dom Casmurro: Capitu é uma personagem dúbia em vários momentos e Bentinho é um narrador tão dúbio quanto a personagem que retrata. Ele é o primeiro a apontar os defeitos dela, mas não reconhece os próprios: os ciúmes, o quão mimado é (para ficar nos mais óbvios). Como resultado, quando ela pratica uma ação que, na visão dele, é duvidosa, ele a toma como certa, elevando-a a pecado capital. Isso vem do fato que ele tem muita inveja dela, não apenas enquanto pessoa. Bentinho é um ser preso, sem vontade. Todos mandam nele e dão as ordens de qual caminho seguir: a mãe, o tio, o agregado, a própria Capitu, Escobar. Ela, porém, é livre e prática, toma ações dignas de nota como, por exemplo, manipular toda a situação para que ela, inicialmente mal vista pelo agregado que insiste em afastá-los, seja integrada e amada pela matriarca da família, Dona Glória.

A inveja sobre o fato nunca é citada, mas é sentida em todas descrições psicológicas dela, principalmente a partir do trecho supracitado. Dom Casmurro fala da inveja de ter sido traído, mas também da de ser inferior a um ser humano que, na sua visão, era inferior a ele: uma mulher pobre por quem se apaixona.

Vemos o mesmo na política nacional. A inveja pelos acertos do atual governo leva a um delírio quando os erros dele aparecem. Longe de defendê-los, quero apenas mostrar que citam-se muito os erros, mas esses provavelmente são citados não por repulsa pela prática da corrupção, esta praticada tanto pela situação quando pela oposição, antes pelo fato de que, mesmo ela existindo, há um número grande de pessoas que apoia o governo.

Além disso, fala-se muito da queda do PIB, mas esquece-se também que este é muito maior do que o que havia em 2002. Mesmo em baixa, ele supera o deixado pela oposição. Mais uma vez vemos Dom Casmurro apontar o dedo pelo motivo errado. O que nos leva ao ponto seguinte.

Preferimos apontar os defeitos alheios, nunca os nossos

Em Dom Casmurro há um sem fim de defeitos de Capitu. Bentinho lista tantos que precisaríamos de um post exclusivo para eles. No entanto, em nenhum momento, o narrador aponta os próprios: o ciúme, a comodidade, o mimo excessivo etc. É muito fácil o que se passa com os outros, mas é mais difícil refletir sobre si.

O mesmo podemos dizer de ambos os lados políticos atuais. Tanto situação quanto oposição adoram apontar dedos e defeitos do adversário. Um é petralha, o outro, coxinha. Nunca, entretanto, se faz o movimento de olhar os próprios. Os dois lados têm – e cada vez mais eles se assemelham em tipo, tamanho e quantidade. Assim como Bentinho, PT e PSDB atacam o problema alheio sem nunca tocar o dedo na ferida dos que eles também têm.

Tememos e rejeitamos o desconhecido

Dom Casmurro rejeita saber o que de fato aconteceu. Em nenhum momento ele pretende chegar ao que ele não sabe, rejeita o desconhecido de forma infantil, preferindo uma verdade falsa, criada a partir de suposições. O desconhecido é perigoso para Bentinho, pois pode levá-lo à pior das verdades: o fato de que talvez não tenha havido traição e de que o problema do casal está nele, na sua cabeça.

O atual chavão de que estamos na pior crise do Brasil de todos os tempos e de que o futuro que nos espera é terrível pode ser lido, fazendo-se uma leitura a partir de Dom Casmurro, da seguinte forma: 1) quem o diz não conhece História do Brasil (ignora o fato que Getúlio Vargas cometeu suicídio para evitar uma convulsão social, além de sair da vida para entrar na História); 2) quem o diz teme o que vai acontecer pelo simples fato de não ter certeza sobre o futuro. Assim como Bentinho, a pessoa capaz de gritar tamanho impropério não reclamava ou fazia a vez de revoltado quando as coisas caminhavam na mais perfeita harmonia durante o chamado Milagre Econômico da última década.

Outro ponto.

Nunca antes na história deste país (risos) houve a oportunidade de uma verdadeira mudança, profunda, que atinge a maior parte da população, aquela que antigamente era relegada à pobreza. Esse é um fato sem volta. As coisas não vão ser como eram. Os pobres, as classes C e D, têm chegado aos lugares aonde normalmente não chegavam por falta de oportunidade. O presente é diferente do passado, consequentemente gerando um futuro incerto, desconhecido, quem sabe (e nesse momento muitos tremem na base, assim como Bentinho) algo novo. Assim como em Dom Casmurro, as coisas nunca mais serão as mesmas do que eram.

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P.S.: Este texto tem base em Dom Casmurro, mas como qualquer outro texto, tem um autor, e esse tem opiniões. Caso elas sejam diferentes das tuas e tu queiras comentar, por favor, faça algo construtivo. Se for xingar, chamar de comunista (clique aqui para entender o mínimo sobre o assunto antes de usar o termo como xingamento), petralha ou adjetivos semelhantes, por favor, reserve-se ao silêncio. Não transforme o melhor da internet (dar opinião sobre qualquer coisa) no pior (dar opinião sobre qualquer coisa).

José Figueiredo Autor

editor-chefe do homoliteratus, podcaster (30:MIN), mestrando em teoria da literatura (UFRGS), autor de "Há um tubarão na piscina" (2018)