5 motivos para ler e 5 motivos para não ler Bukowski

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Você acha Bukowski o máximo? Um merda? Cinco motivos para lê-lo (ou não)

Postcard featuring Charles Bukowski at his typewriter in 1988. Photo by Joan Levine Gannij, published by Island International Bookstore, Amsterdam. Courtesy of the Huntington Library, Art Collections and Botanical Gardens. (HAND IN PHOTO 9-29-10)

No decálogo do contista perfeito, Horacio Quiroga sugere já de primeira: “crê num mestre como na própria divindade”. Charles Bukowski foi esse cara pra mim. Depois de ler boa parte do que ele escreveu, tive nele minha primeira grande referência literária. O tempo, no entanto, fez com que eu, que costumava nele crer como na própria divindade, passasse a odiá-lo como se fosse a própria besta.

Isso se dá porque Bukowski é amável e odiável nas mesmas medidas e dispensa meios termos. Se para muitos ele representa um suspiro de autenticidade e sinceridade na literatura, para outros, não menos numerosos, trata-se somente de um autor descartável e superestimado. Então, se você está em dúvida entre começar ou voltar a ler Bukowski ou não, este texto foi feito especialmente pra te confundir mais ainda:

5 motivos para ler Bukowski:

A destruição do sonho americano: Bukowski nasceu na Alemanha, numa cidadezinha chamada Andernach, da qual, provavelmente, você nunca ouviu falar, e se mudou com os pais para os Estados Unidos com apenas três anos. Pobre, imigrante e recebendo uma educação familiar traumática, sentiu na pele o que há de pior no american dream. Assim, seu alter ego, Henry Chinaski, que protagoniza quase toda sua prosa, representa todos os não pertencentes, os oprimidos, aqueles que não se encaixam no modelo de vida norte-americano pré-fabricado, cruel e excludente. Se você não se identifica nos mocinhos românticos, mas sim nos decadentes e fracassados, Bukowski é o escritor certo para você.

Bukowski é completo: Charles Bukowski não é o melhor romancista que você vai ler na vida. Bukowski é um ótimo poeta, mas definitivamente está muito longe de ser o melhor poeta da América (Sartre que me perdoe). Contista? Bem, alguns contos dele são bastante interessantes, é inegável sua criatividade, mas convenhamos, faz um esforcinho que você encontra uma pá de contistas melhores. No entanto, Bukowski nunca se propôs a estar entre os melhores, e se chegou lá, foi assim, despretensioso, confiando na própria sorte, se colocando num seleto grupo de escritores que conseguiram se destacar, com relativa habilidade, em mais de um gênero literário.

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É preciso contextualizá-lo: Bukowski é um dos autores mais citados da Internet. Ele sofre do mesmo mal da Clarice Lispector, tendo frases suas pinçadas de seus contextos e distribuídas em massa. Se você tem aquele preconceitozinho com o Bukowski (e com a Clarice) por causa disso, ler sua obra pode mudar o seu ponto de vista.

Escrita objetiva e direta: quem lê Bukowski come cru. E isso não é necessariamente ruim. Sua prosa é veloz, Bukowski empilha os fatos e não fica de firula. Ele vai direto ao ponto com frases, na maior parte das vezes, curtas. Bem, nesse caso, nada melhor que um exemplo prático para representar. Este é um trecho do primeiro capítulo de Misto-Quente, publicado em 1982:

“Então não havia nada… depois uma árvore de Natal. Velas. Pássaros ornamentais: pássaros com pequenos ramos apinhados de frutinhas em seus bicos. Uma estrela. Duas pessoas enormes lutando, gritando. Pessoas comendo. Pessoas sempre comendo. Eu também comia. Minha colher era curva, assim, se eu quisesse comer, precisava pegá-la com a mão direita. Se eu pegasse com a esquerda, o alimento se afastava da minha boca. Eu queria pegar a colher com a minha mão esquerda”.

Bukowski é obsceno: se você tem qualquer problema com isso, é provável que Bukowski não seja o autor adequado para você. Bukowski era tão transgressor nesse sentido que dedicou seu último trabalho, Pulp, à subliteratura (melhor que Cartas na Rua, dedicado a ninguém). Seus diálogos são repletos de palavrões e xingamentos. Em sua prosa, podem ser encontradas diversas situações desagradáveis, que vão desde hábitos escatológicos e brigas de arrancar o couro, até violência sexual.

5 motivos para ler e 5 motivos para não ler Bukowski

5 motivos para não ler Bukowski:

Bukowski é obsceno: se por um lado, sua subversão é um símbolo da liberdade de expressão artística, ao mesmo tempo o contato com esse tipo de literatura pode ser bastante repulsivo. Ler Bukowski demanda um pouco de estômago e paciência com certos pensamentos retrógrados. Bukowski dizia exatamente o que pensava, na lata, e é possível que você, ao terminar alguma leitura dele, conclua que ele não passava de um porco, um velho machista e preconceituoso.

Sua prosa é misógina: ele faz parte daqueles escritores do século XX que optaram por escrever suas histórias em primeira pessoa. Ou seja, trata-se de uma visão unilateral dos fatos, sempre masculina. Além disso, as personagens femininas são, muitas vezes, retratadas como histéricas, viciadas, dependentes e com uma profundidade psicológica quase nula. Aparentemente, a maioria delas não têm outra função em suas narrativas que não seja a de transar com o Chinaski – seu alter ego. Contudo, é importante lembrar que Bukowski nasceu em 1920, em uma sociedade de homens brancos. Se isso não serve para livrá-lo de problematizações, talvez possa ao menos evitar uma série de anacronismos.

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Não há nada de novo em sua escrita: buscar algo de inovador na prosa de Bukowski é inútil. Seu estilo de escrita, objetivo e direto, não vai muito além do que já faziam Hemingway e John Fante, dois de seus grandes inspiradores – porém, com menor habilidade. Não que isso ameace seu mérito literário. Mas, se este é um ponto que você leva em consideração ao escolher um novo autor, ler Bukowski é uma perda de tempo.

Bukowski é um derrotista: ao mesmo tempo em que se coloca como uma figura antagônica ao modo de vida americano, exagera um pouco na pose, se afunda na lama e não quer mais sair de lá. Não há brecha para redenção, uma vez atolado na própria solidão, a aceitação e a apatia prevalecem sempre. Isso é um problema? Não necessariamente, exceto por criar um pessimismo crônico em seus personagens, o que reflete no próximo tópico.

Bukowski é repetitivo: todo mundo conhece sua fama de beberrão. Não menos comentada é sua reputação como mulherengo e pegador. Também é muito comum que o associem a uma figura decadente e amargurada. E não são poucos os que o enxergam como um bruto de coração mole. Bom, uma coisa é certa, Bukowski tem mais de uma faceta. No entanto, não foge muito dos estereótipos apresentados e sua prosa acaba se tornando viciosa por isso. O Bukowski é manjado, depois de ler um ou dois livros dele, você já captura sua essência e ele dificilmente te surpreenderá. Os finais dos capítulos 58, 73, 74 e 79 do romance Mulheres, falam por si só:

58-
“— Quando a gente chegar em Nova York eu vou comer você como nunca!
— Sério?
— Claro.
Ela agarrou meu pau e ficou encostada em mim.
Minha primeira e única ruiva. Que sorte a minha…”
73-
“Ela se inclinou e botou ele na boca. Chupava e esfregava ele; lambia toda a extensão do meu pau.
— Isso mesmo, sua cadela!
Daí ela tirou meu pau da boca.
— Vai em frente! Continua! Deixa eu acabar!
— Não!
Joguei ela de costas na cama e caí por cima. Dei-lhe beijos selvagens. Enfiei-lhe o mangalho. Enfiei com violência. Bimbava, bimbava. Gemi e gozei. A geleia entrou fundo dentro dela.”

74-
“— Vamos trepar, Cecília.
— Hank, agora você tá fazendo seu número.
— Você é uma coisinha deliciosa. Me deixa botar aí dentro.
— Você tá bêbado, Hank.
— Tem razão. Esquece.”

79-
“Paramos para comprar bebidas, gelo e cigarros e voltamos pro apartamento. Aquele único drinque deixou Cecília zonza e tagarela, e ela nos explicou que os animais têm alma também. Ninguém contestou suas opiniões. A gente sabia que era possível. O que a gente não tinha certeza é se nós tínhamos uma.”

5 motivos para ler e 5 motivos para não ler Bukowski

Bukowski é uma das figuras mais folclóricas da literatura mundial. Sua proximidade com o submundo e sua visão catastrófica da sociedade e do ser humano certamente são capazes de conquistar qualquer tipo de leitor. Além disso, esse apelo em torno da solidão, da derrota e do fracasso pode mudar o ponto de vista de muita gente que torce o nariz para literatura, por achar pretensiosa e elitista.

Motivos para ler Bukowski não faltam, assim como sobram motivos para não o fazer. No entanto, nada substitui o julgamento próprio. Então, na dúvida, ler é sempre a melhor opção.