7 dicas de Kurt Vonnegut para escrever bem

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VonnegutA primeira dica  é “encontre um assunto que você se importe”. No meu caso, ‘dicas de escrita por escritores que respeito’ é o assunto. A segunda dica é “não divague”. Então, perdoem-me pela tradução livre e vamos às dicas:

 

1 – Encontre um assunto que você se importe

Encontre um assunto que você se importe e que sinta em seu coração que os outros também deveriam se importar. É esse cuidado verdadeiro, e não seus jogos de linguagem, que vai ser o mais convincente e sedutor elemento do seu estilo de escrita.

Não estou encorajando você a escrever um romance – mas não ficaria triste se você escrevesse, a partir de algo que você genuinamente se importe. Uma petição para o prefeito sobre uma fossa em frente a sua casa ou uma carta de amor para sua vizinha servem.

 

2 – Não divague

Não vou divagar sobre isso.

 

3 – Mantenha as coisas simples

Lembre-se que os dois maiores mestres da linguagem, William Shakespeare e James Joyce, escreveram sentenças que pareciam infantis quando os assuntos eram muito profundos. “Ser ou não ser?” pergunta de Hamlet, de Shakespeare. A maior palavra da frase tem três letras. Joyce, brincando com as palavras, poderia fazer sentenças tão emaranhadas e deslumbrantes como um colar para Cleópatra. Entretanto, minha frase favorita está em sua pequena história “Eveline”; é essa: “ela estava cansada”. No ponto da história, nenhuma outra palavra poderia quebrar o coração do leitor como essas três.

 

4 – Tenha coragem para cortar

Pode ser que você também seja capaz de fazer colares para Cleópatra, digamos. Mas sua eloquência deve ser serva de suas ideias. Sua regra deve ser essa: Se uma frase, não importa quão excelente esteja, não iluminar seu assunto de uma maneira nova e útil, corte-a.

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Kurt Vonnegut

5 – Soe como você

Seu estilo de escrita acaba repetindo o discurso que você ouviu quando era criança. Inglês foi a terceira língua do romancista Joseph Conrad, e muito do que parece picante em seu uso do inglês foi, sem dúvida, colorido por sua primeira língua, que era polonês. Sortudo é o escritor que cresceu na Irlanda, pois o inglês de lá é tão divertido e musical. Eu mesmo cresci em Indianápolis, onde a fala comum soa como uma serra cortando estanho galvanizado, e emprega um vocabulário tão sem adornos como uma chave inglesa.

Acontece que eu confio na maior parte da minha própria escrita, e outros parecem confiar mais quando pareço mais como uma pessoa de Indianápolis, que é o que eu sou. Quais são as alternativas que eu tenho? Sem dúvida você foi pressionado por professores que te ensinaram a escrever como os ingleses de um ou mais séculos atrás.

 

6 – Diga o que você quer dizer 

Eu costumava me irritar com estes professores, mas não me irrito mais. Meus professores desejavam que eu escrevesse com precisão, sempre selecionando as palavras mais eficazes e relacionando as palavras sem errar, de forma rígida, como peças de uma máquina. Afinal, os professores não queriam me transformar em um inglês do século passado. Eles esperavam que eu me tornasse compreensível e, portanto, compreendido. E lá se foi o meu sonho de fazer com palavras o que Pablo Picasso fez com a pintura ou o que alguns ídolos do jazz fizeram com a música. Se eu quebrar todas as regras de pontuação, fizesse com que as palavras significassem o que eu queria que eles significassem, e amarrando-as juntas, eu simplesmente não seria compreendido. Então, você, também, é melhor evitar Picasso como estilo de escrita. Isso se você tem algo importante a dizer e gostaria de ser compreendido.

Os leitores querem que nossas páginas pareçam muito com páginas que já tenham visto antes. Por quê? Isso é porque eles próprios têm um trabalho difícil para fazer, e precisam de toda a ajuda que podem obter de nós.

 

7 – Tenha pena dos leitores

Os leitores têm de decifrar milhares de pequenas marcas no papel, e entendê-las imediatamente. Eles têm de ler. Uma arte tão difícil que a maioria das pessoas realmente não a domina mesmo depois de anos de ensino fundamental e médio.

Portanto, devemos, finalmente, reconhecer que as nossas opções estilísticas como escritores não são nem numerosas nem glamourosas, já que os nossos leitores são mais como artistas imperfeitos. Nosso público obriga-nos a ser como professores simpáticos e pacientes, sempre dispostos a simplificar e esclarecer, enquanto nós preferimos voar alto acima da multidão, cantando como rouxinóis.

Essa é a má notícia. A boa notícia é que nós, americanos, somos regidos sob uma constituição única, o que nos permite escrever o que quisermos, sem medo de punição. Assim, o aspecto mais significativo de nossos estilos, que é o que escolhemos para escrever sobre, é totalmente ilimitado.

 

Adaptado do site Brain Pickings.