7 motivos para ler ‘Gafieira de dois tostões’, de Simenon

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Ainda não é um leitor dos romances policiais de Simenon? Aqui vão sete motivos para começar a ser.

6788801-quand-colette-simenon-giono-et-gary-passaient-a-la-radioSe você está procurando um romance de ação, um daqueles romances policiais nos quais há pessoas saltando de telhados, tiroteios emocionantes, personagens durões e másculos, ou seja, todos aqueles clichês existentes no gênero, esqueça, talvez esse não seja um livro para o seu gosto. Porém, caso queira um romance em que se especula a atmosfera, os personagens e as circunstâncias do cotidiano que são capazes de levar um homem comum a cometer um crime – e seu investigador a ter certa identificação com quem cometeu o crime –, este é o teu livro.

Vou roubar a sinopse da própria editora sobre Gafieira de dois tostões:

Antes de ser executado, o condenado Jean Lenoir confessa ao comissário Maigret que foi testemunha de um crime seis anos antes – e que acaba de descobrir o paradeiro do assassino: a Gafieira de Dois Tostões, um bar ordinário à margem do rio Sena. Em pleno verão, em meio à insistência de Madame Maigret para que o comissário saia de férias, Maigret segue a pista do condenado e se vê envolvido num emaranhado de intrigas que ainda vai custar um punhado de vítimas.

A essência está aí: um condenado à morte confessa ter presenciado um crime seis anos antes, ele releva parte, mas não tudo que sabe. Maigret, após a execução, se interessa pelo caso e devido a um acaso acaba se deparando com o local do crime, outro crime, o qual ele presencia, e outras coisas.

Ainda não parece interessante? Então vai lá sete motivos para ler esse romance de Georges Simenon.

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1 – Simenon releva as pequenas camadas da vida

Quem já leu algum dos romances ou contos do autor belga, sabe que suas narrativas não estão tão interessadas de forma obsessiva com quem cometeu o crime, mas com o porquê. Maigret sempre segue as pistas, porém o mais interessante é quando o famoso comissário revela pouco a pouco as pequenas camadas da vida: as contradições, os esquemas familiares, as pequenas traições, compreendendo os motivos que podem levar uma pessoa a cometer o crime. Mais do que revelar um assassino, ele revela que nossas vidas são cheias de pequenas fraturas, as quais fazemos questão de esconder da maioria.

2 – O interesse não pelo crime, mas pelo criminoso

Como citado acima, Simenon não está tão preocupado com quem matou, mas por quê. Entender como uma pessoa, indiferente de sexo, orientação religiosa e classe social é capaz de tirar a vida de outra pessoa é o que move todos os romances e contos de Simenon. Nada de grandes investigações psicológicas, cheia de termos complicados e divagações fúteis; antes um recolher de cacos do cotidiano, conforme mostrado no item anterior, que levam Maigret a entender, e às vezes compreender e aceitar, que essa transgressão, por mais repulsiva que possa ser, seja sincera – mesmo necessária.

13575_gg3 – A forma única com que Simenon conduz o romance

Houve muitos homens e mulheres que escreveram romances policiais antes de Simenon e muitos outros ainda escrevem e escreverão. Há muitos caminhos para se contar um crime e sua investigação, nenhum como o do autor de Gafieira de dois tostões. Sua atmosfera única nos transporta a um mundo antigo, de casas de uma França cheia de personagens pequeno-burgueses, suas intrigas e a beleza decadente que segue a vida de cada personagem – assustadoramente parecidos conosco. Esse roman dur (romance duro, em francês) nos aporta em um mundo contraditório e gostoso de se penetrar.

4 – A paisagem e uma época que não voltam mais

Se há algo particularmente interessante em Gafieira de dois tostões, é a paisagem rural descrita no romance. A história se passa entre Paris e Morsang, um subúrbio parisiense onde encontramos a gafieira, os personagens e uma vida bucólica de final de semana vivida pelos personagens urbanos. Simenon descreve muito bem todos seus cenários, mas a beleza natural do lugar, junta à força descritiva precisa do belga, criam uma visão única e perfeita, que por si só já valeria o romance.

5 – A culpa e a consciência de que a sociedade cria seus próprios monstros

Maigret em nenhum momento deixa de aceitar o fato que Jean Renoir, o homem prestes a ser executado que revela ter sido testemunha de um crime, seja um criminoso. O que ele faz, ainda mais pensando no ano de publicação do romance, 1931, é pensar o que levou um jovem a acabar tão cedo como culpado por tantos crimes ao ponto que a sociedade queira matá-lo. Apesar de não admitir, o comissário sente uma culpa paterna pelo fato de ver o jovem Renoir, de 23 anos, prestes a morrer. Maigret tem a consciência de que a sociedade tem grande parcela de culpa, incluindo ele mesmo, na execução de Renoir. Em 2016, ano que bandido bom é bandido morto, fica a dica para rever certos conceitos analisados pelo conservador Simenon.

6 – É uma boa história

Na verdade, são duas boas histórias, cada uma com a sua devida atenção. A primeira, que engatilha a segunda, é a do relacionamento entre Maigret e o condenado a Jean Renoir. O comissário parisiense se sente atraído pelo jovem homem prestes a encontrar com a morte. Ele não entende, e sente culpa por isso, como alguém com tão poucos anos de vida aceita o grande fato com tanta calma. Boa parte dessa inquietação é o que o leva seguir a pista do crime por ele citado. A outra revela um mundo pequeno-burguês contraditório, cheio de traição consentida, dinheiro e uma falsa felicidade sustentada na bela paisagem bucólica de Morsang.

7 – Porque é um livro bom, bonito e barato

Se tudo dito acima não te convence, tentarei te ganhar pelo bolso. Essa pequena joia de Simenon custa R$ 29,90 (vinte e nove reais e noventa centavos, jovem), apenas R$ 20,90 (vinte reais e noventa centavos) na versão digital. É uma boa história, tem um preço acessível e ainda é um belo livro. A Companhia das Letras está fazendo um grande trabalho com o lançamento da obra de Simenon no Brasil. Boa diagramação e ótimas capas – veja você mesmo ao lado. Se o conjunto bom, bonito e barato não te convence, sinto dizer que é uma pena, pois é um prazer ler Gafieira de dois tostões, de Simenon.