7 pontos que a ficção ensina sobre Política

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O que a ficção sobre Política tem a nos ensinar?

Não vivemos tempos políticos, pois sempre é hora de Política. No Brasil, talvez, estejamos num período em que muitos estão falando sobre, alguns estão agindo acerca de, poucos estão entendendo o que se passa. Política, com maiúscula, não é uma brincadeira. Poucos sobrevivem a ela. Alguns, como Getúlio Vargas, literalmente dão a vida por ela.

Ficção nunca será Política, mas ao menos nos ajuda compreendê-la melhor em sua amplitude e complexidade. Se há um triunfo nela, é o fato de que ganhamos muitos anos de experiência em suas páginas, com suas cenas, com suas tramas etc. Bons políticos sempre a usaram ao seu favor (Vargas, por exemplo, tinha Os Sertões na cabeceira).

Escolhemos sete pontos que a ficção ensina sobre Política. Eu, autor do texto, não me importo com as inclinações políticas de quem lê, o que vão sentir etc. Política não se importa com sentimentos, assim como esse texto.

Aproveite.

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1. Política não é justa

Se você é alguém que acredita em Papai Noel, Coelinho da Páscoa e outros seres de contos de fada, você acreditará que Política tem algo a ver com Justiça – mas não tem. Em A Revolução dos Bichos, Boxer, um cavalo dedicado, acredita que tudo que está sendo feito na fazendo é pelo seu bem, pelo bem de todos. Ele acredita em Justiça. Pior, ele acredita que Justiça e Política façam sentido na mesma sentença. O fim de Boxer exemplifica o fim de todos que acreditam no que ele acreditou. É triste, contudo, admito, me parece merecido. Se você toma partes, à direita ou à esquerda, acreditando em melhorias e em Justiça, o futuro ridículo de Boxer o aguarda de braços abertos.

2. Existe o que vemos e existe a verdade

Gosto muito de House of Cards. Enquanto fã de ficção, acho que é uma das obras de ficção que mais abrangem a complexidade do métier. O que há, ao meu ver, de mais chocante e belo é a maneira com que a verdade é posta – e subsequentemente escondida por Frank Underwood. Em Política, há o que vemos e há o que é de verdade. São dois objetos diferentes, cada qual com seu objetivo. A série do Netflix mostra que os objetivos no meio existem e precisam ser alcançados – e ninguém se importa como. É uma visão pessimista? Talvez, mas prefiro vê-la como realista. Política não requer amizade ou bondade, e sim aliados úteis para atingir objetivos – a moral entra depois, bem depois. Entre a manchete da Folha de São Paulo ou da Carta Capital, há o que não sabemos e nunca provavelmente saberemos, mesmo sob investigação. Não se deixe levar por esse senso pueril de Verdade, apenas fica mais ridículo com o passar do tempo.

3. Todos somos manipulados pela política,  dentro ou fora dela (alguns mais, outros menos)

Em Mera Coincidência (Wag the Dog, no original) o fato acima posto é belamente apresentado. Há um problema com o presidente. Connie Bean (Robert De Niro) precisa contornar a situação, manipulando-a. Ele faz uso do produtor Motss (Dustin Hoffman) para produzir um vídeo e uma (suposta) guerra. Mesmo dentro da Política, porém, Bean se vê forçado a dar passos que não deseja, ou pior, vê que foi levado a seguir caminhos por causa de terceiros. Assim é a Política. House of Cards nos mostra o mesmo com muita facilidade, assim como A revolução dos bichos. A diferença está no fato de que às vezes se é manipulado mas se tem consciência do fato (Frank Underwood e Connie Bean), outras apenas se deixa levar pela “Verdade” (Boxer e os burros da fazenda). Os primeiros conseguem tirar proveito da situação ou sabem quando estão ferrados, os outros, bem, acabam mal em todos os sentidos.

4. Há os que acreditam na política e há os que vivem da política

Há um personagem muito interessante em 1984: O’Brien. Ele é um membro do partido que tem um livro proibido e que o empresta ao narrador. Para quem se lembra do enredo, lá pelo fim ele captura Winston e Julia, torturando-o. Nunca saberemos se ele fez isso com peso na consciência ou não. Ele fez Política. Ele vive disso, logo, apesar dos seus ideais, O’Brien sabe diferenciar o que acredita do que ele vive. São pontos conflitantes, claro, que não o fazem, porém, tomar a escolha errada. Vivendo do que vive, o correto e o justo são secundários. Sua profissão é a Política – ou, nos termos de Foucault, a microfísica do poder. Nesse meio, não há espaço para acreditar, apenas agir.

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5. Se você é uma pessoa que posta coisas em redes sociais apoiando lado a ou b, sorria, você é o mais de dois itens acima

Os dois romances supracitados de George Orwell mostram de forma clara o fato (há um sem fim de ficção que aborda o fato, você pode dizer quais nos comentários). Apoio público das partes envolvidas mostra que 1) você comprou a bobagem dita, 2) não conhece os fatos, 3) é facilmente manipulável. Em A revolução dos bichos, adoro ver o coro de “todos iguais, mas uns mais iguais aos outros” sendo proclamado pelos burros. Eles acreditam no apoio que dão aos porcos depois de tudo – das mudanças, das mentiras, do posicionamento agressivo deles. Os burros simplesmente acreditam e militam por. São estúpidos demais para verem que são manipulados e mais estúpidos por não verem que são um joguete. São crianças na política. Rebanho, nada mais. Eis a imagem perfeita de você que hoje, 2016, está no Facebook, Twitter e afins defendendo ou atacando políticos e partidos (sorria, você está sendo enganado).

6. Política não é bonita

Poderia citar exemplos de House of Cards ad infinitum. Prefiro, no entanto, citar Guerra e Paz. Nele vemos que todos os movimentos políticos não são nem um pouco agradáveis. As decisões de Napoleão, as pequenas intrigas da corte russa, nada disso está mais distante do que se considera belo – e por consequência justo. Política não é lugar de ações louváveis, não há espaço para elas nesse campo pragmático. Política precisa de resultados rápidos, não de beleza. Esta fica apenas para quem as vê no fim como citado alguns itens acima. O Napoleão de Guerra e Paz é um político que entende esse fato muito bem – talvez melhor que o real.

7. Política não é ficção

Muitas obras foram citadas e muitas outras poderiam ter sido. O fato, porém, é que ficção é ficção, Política é Política. Não se deixe enganar pela beleza das cenas e pela emoção dos enredos. Política não tem nada de emocionante como a ficção por vezes insiste em apresentar (Barack Obama confirma o fato). A ficção nos apresenta o que nos quer mostrar, o que precisa para atingir seus fins enquanto ficção – não enquanto Política. Ficção lida com entretenimento e ensino. É um mágico que mostra o truque, não o que é feito para atingi-lo. Ela seleciona o que vai apresentar, às vezes mostrando o chocante, às vezes fabulando sobre o óbvio, às vezes mostrando o real. Lembrem, ela mostra o real, nunca toda a realidade.