A África e suas mulheres: O pomar das almas perdidas, de Nadifa Mohamed

0
804

O pomar das almas perdidas, de Nadifa Mohamed,  alerta que precisamos ter esperança, independente de quais sejam nossas dores

Nadifa-Mohamed-Portrait-Session
Nadifa Mohamed, autora de O pomar das almas perdidas

Em 1987, na Somália, três mulheres vivenciam uma sangrenta guerra civil. Mas o que as levou até ali? Quais foram seus passos e suas histórias? O pomar das almas perdidas, de Nadifa Mohamed, é aquela espécie de obra que leva o leitor além do óbvio, que expande a mente e o coração já nas primeiras linhas. Afinal, quantos de nós conhecemos a África ou suas mulheres? A autora  produziu uma história que ultrapassa a ficção, pois suas personagens retratam mulheres extremamente poderosas que poderiam ser, e provavelmente foram, bem reais naquela época. E para sempre. E em todo o planeta.

A história em si tem início quando as três grandes figuras da obra se encontram pela primeira vez, selando seus destinos. Deqo, uma menina de nove anos que foi atraída pela promessa de ganhar um sapato, deixa pela primeira vez o campo de refugiados onde nascera e conhece Kawsar, uma viúva, que logo é espancada por Filsan, a jovem soldado que recentemente saiu da capital para conter a rebelião que crescia ao norte do país.

No final dos anos 80, a Somália vivia sob intensa ditadura militar e estava prestes a enfrentar uma guerra civil. Viver em um período assim não é fácil, as tensões são crescentes e constantes, mas a vida precisa continuar e é exatamente disso que se trata a história. Quando lemos a última linha do livro, temos a impressão de estarmos quase que completamente diferentes do que éramos ao começarmos ele. Por isso, a leitura de O Pomar das Almas Perdidas é como um clássico: ele sempre terá algo a revelar. Não se trata apenas da África, mas do mundo; não são só três mulheres, mas todos os seres humanos sob o sol. A leitura é aflitiva, prende nossos almas  e olhos, pois desejamos saber o que vai acontecer – e porque é extremamente realista. A narrativa é encantadora, lírica e muito bem estruturada. Mesmo que os fatos sejam cruéis, eles são passados de maneira bem singela para quem os lê, as palavras transmitem os sentimentos corretos para cada situação.

opomar
O pomar das almas perdidas (Tordesilhas, 2016)

A autora Nadifa Mohamed nasceu na Somália, em 1981, mas foi educada no Reino Unido e mora em Londres. Ela estudou história e política no St. Hilda’s College, em Oxford, e publicou seu primeiro livro, Black Mamba Boy, em 2010. A revista Granta elegeu Nadifa como uma das melhores jovens escritoras britânicas de 2013.

Talvez a principal mensagem que Nadifa esteja tentando nos passar com esse livro incrível é que precisamos ter esperança, quaisquer que sejam nossas dores. Ao menos aprendemos muito sobre isso com Deqo, Kawsar e Filsan. É enriquecedor. Memorável. Indispensável.