A alegria que a literatura não me deu

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O que a literatura pode e não pode nos dar5811716939_35f9bc6b66_b

Quando criança, eu era feliz e ingênua. Sofria com algumas coisas pequenas, como ralar os cotovelos e (não tão) acidentalmente cortar os cabelos das minhas bonecas de uma forma grotesca e, óbvio, irreparável, mas qualquer tristeza profunda se escondia de mim, como o mundo se escondia. Até que comecei a ler.

Me contaram que leitura deixa as pessoas mais felizes. Me contaram que não foi uma conclusão produzida aleatoriamente, mas através de estudos, e como não estou em posição de contestar diretamente estudiosos com algumas pesquisas próprias, só queria deixar uma palavra de dúvida: depende.

O que aprendi com literatura é que a única coisa que ler faz é expandir o que conhecemos. Nenhum livro que chegou nas minhas mãos me tornou mais feliz. É claro que saboreei da felicidade em muitas passagens e, quando lia ficção, sentia a exultação das personagens; mas a tarefa da literatura nunca foi de nos encher de alegria, ou de um propósito, mas fazer algo realmente perverso: contar a verdade. E a verdade não é alegre ou triste. A verdade é o que é, e o que você faz dela, no fim, é o que importa.

Joan Didion escreveu Noites Azuis como um relato de sua vida após a morte da única filha, Quintana. Depois de terminar a leitura, é difícil não se sentir massacrada, não querer se esconder em uma bolinha debaixo do edredom, até que parte da dor de Didion, que agora existe um você, resolva dar uma trégua. Mas “Noites Azuis” é fabuloso; é Arte, de tão belo, e sou agradecida por ter terminado-o, por ter passado pela melancolia de cada página.

Literatura: o segredo está na troca entre o autor e o leitor. A verdade que quero contar, e a verdade que você vai receber, remoer, absorver. A verdade nem é sempre bonita, ou traz felicidade; porque o mundo é um lugar neutro, não um lugar que nos deve satisfação. Quem lê é mais feliz? Mais completo? Eu não saberia afirmar. Ouso dizer que quem lê, quem realmente lê, talvez seja mais esclarecido; não em relação à felicidade, mas às diversas verdades que fazem da existência o que ela é, com lágrimas, dor, tortura, momentos de júbilo. Quem lê já está condenado, corrompido. Já provou do universo lá fora, e só tem a opção de recuar ou de provar ainda mais. Raramente recua, o leitor que começa, já que deixar de ler é retornar ao tempo em que não se sabia. E conhecimento é mais importante do que a felicidade. A verdade é mais viciante. Morda a maçã.