A atualidade de “Sombra de Reis Barbudos” de José J. Veiga

O que existe entre a obra Sombra de Reis Barbudos, de José J. Veiga, e a nossa realidade, por vezes assustadora, do século XXI?

Sombra de Reis Barbudos é um livro infanto-juvenil escrito por J. J. Veiga. A obra está longe de ser a mais conhecida do autor, que tem no currículo A Hora dos Ruminantes, seu romance de maior sucesso.

O livro, publicado pela primeira vez em 1972, carrega uma forte influência do Realismo Mágico, sendo considerado também um exemplo do movimento dentro da literatura brasileira. Ao narrar fatos extraordinários e sem explicação no cotidiano de uma cidade no interior do país, cidade essa que poderia muito bem ser a cidade natal do autor em Goiás, o romance vai também descrever o crescimento e amadurecimento do protagonista.

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A história de Sombra de Reis Barbudos apresenta duas narrativas que se complementam. Numa primeira análise acompanhamos o desenvolvimento do protagonista, sua primeira experiência amorosa, os desencantos com a vida ao envelhecer e enfrentar os pais, além da rebeldia que surge em meio a sua impotência frente ao que está acontecendo ao seu redor. E esse evento que acontece ao redor do protagonista, a criação da Companhia, que constitui a outra alegoria de Sombra de Reis Barbudos que desta vez vai se espelhar na Ditadura Militar que aconteceu no Brasil entre 1964 e 1985.

A história segue a criação da Companhia Melhoramentos de Taitara numa cidade do interior que promete trazer novidades para a pequena população que já vivia tranquilamente. Baltazar, tio do protagonista, traz fundos para erguer essa máquina burocrática que mudaria a vida de todos por ali para melhor.

Como é esperado de um livro infanto-juvenil, os problemas apresentados por aquela pequena sociedade são simples e suas soluções igualmente simples,.Por exemplo, erguer muros entre as casas para controlar o movimento de quem vem e vai. O que não difere muito do que vemos hoje, o mesmo discurso simplista para problemas multifacetados, como se a resposta certa para o combate à violência seja o armamento da população e não fortalecer a educação ou melhorar a qualidade de vida. Poderia enumerar outras lógicas como essa, mas não é o objetivo deste texto.

Em certo ponto da trama, há uma mistura entre a autoridade do pai do protagonista e essa máquina totalitária que se torna a Companhia depois da saída do tio Baltazar. Lucas precisa aprender a lidar com o pai que manda e desmanda dentro de casa e muitas vezes se perde entre a função de pai e a função que tem na Companhia. Por mais ressentido que esteja em determinado ponto Lucas tem seu pai de volta quando este percebe as atrocidades que fez, ainda havia esperança para Lucas, como ainda há esperança para nós recuperarmos aquela pessoa querida que está perdida num fanatismo político.

E então os urubus vêm. Ou sempre estiveram ali, como o próprio Lucas vai contar, mas com a Companhia tirando todas as diversões da cidade eles se tornaram animais domésticos para agradar a todos. E isso também é proibido na cidade pela Companhia. A última gota para o ódio geral pela Companhia é a despedida desses animais tão pitorescos, mas amados por todos, sob a ameaça de morte. Então os urubus vão, o que precisa acontecer a uma cidade para que sua maior diversão sejam urubus? A imagem fantástica que Veiga causa é assustadora, mas compreensível, também temos nossos próprios urubus.

A relação entre Sombra de Reis Barbudos e nossa realidade não é de todo negativa e no seu último diálogo revela uma necessidade aos tempos que virão. Talvez agora, mais do que nunca, precisaremos de mulheres e homens voadores para burlar os muros que se erguerão logo.

Arthur Souza
Um estudante de Psicologia que quer ser escritor e fã incondicional de histórias tristes.
Arthur Souza
Um estudante de Psicologia que quer ser escritor e fã incondicional de histórias tristes.
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