A Beat-fissura de Junky, de William S. Burroughs

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O título desta resenha também poderia ser: “não me julgue pela capa do meu livro”.

Eu estou no terminal de ônibus. Seguro um livro, lendo-o da mesma forma de sempre, indesviável. As pessoas me olham. Percebo, várias. Continuo lendo. Deixem-me, o que vocês têm a ver com meu livro verde florescente que faz fundo a uma agulha rosa que está na capa?

Li Junky, de William S. Burroughs e agora o resenho.



Todos que acompanham o site sabem que tenho uma queda – talvez uma ladeira – pelos escritores da Geração Beat. Kerouac e Ginsberg já acumulam alguns posts por aqui. Quanto ao Burroughs, porém, eu ainda estava devendo.

JunkyJunky, nesta edição, pela Companhia das Letras, inicia-se com uma introdução à edição de 1977, escrita por Allen Ginsberg. Nela, o poeta de sua geração explica todo o processo de edição do livro, inclusive a dificuldade para conseguir publicá-lo; e que só saiu, graças ao editor Carl Solomon, o homenageado em Uivo, de Ginsberg, ter concedido a oportunidade de publicação.

A seguir, o leitor se depara com um prólogo narrado em primeira pessoa pelo protagonista, da mesma forma que vai ocorrer durante o livro inteiro. William Lee relata como foi sua vida até então, que não tinha dificuldades financeiras, até aquele momento; ou até encontrar o junk –  acredito que a melhor tradução para este termo seja “droga pesada”. O personagem principal conta como se viciou e então passa a mostrar os desdobramentos da vida de um viciado; por exemplo, como esconder drogas dos outros usuários; como conseguir as receitas médicas de morfina; a fissura de ficar sem a droga; as identificações rápidas entre outros usuários; e a ida até o México para conseguir um preço mais acessível; tudo com o propósito de revelar quais as motivações e prazeres de uma vida como aquela.

“ ‘Por que o senhor precisa de entorpecentes, Sr. Lee? é a pergunta mais formulada pelos psiquiatras estúpidos. A resposta é: “Preciso de junk pra levantar da cama, pra me barbear e tomar café. Preciso de junk pra me manter vivo”.

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Certo, mas por que ler este livro?

Não, eu não sou um junkie, um usuário de drogas pesadas, no entanto, ao crescer num bairro periférico da cidade, acompanhei ao longo da vida inúmeras pessoas passando por fatos semelhantes aos narrados no livro. Hoje em dia, dificilmente se achará alguma família que não tenha alguém passando por algo do tipo. Este livro de Burroughs aproxima o mundo dos que não são usuários dos que são; chega a ser um documento perfeito para análise dos dependentes que estão ao nosso redor.

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Além de tudo que já foi citado, ao publicar este livro em 1953, William S. Burroughs trouxe uma discussão que permanece em aberto até hoje, a liberação da maconha; basta conferir este trecho:

“Maconha não induz ninguém ao crime. Nunca vi ninguém ficar belicoso sobre efeito do fumo. Fumetas são uma raça de sociáveis. Sociáveis demais pro meu gosto. Não entendo por que as pessoas que acusam maconha de instigadora de crimes não vão mais longe e pedem também a proibição do álcool. Todos os dias você vê bêbados cometendo crimes que não aconteceriam se estivessem sóbrios” (pg. 39).

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Junky, de William S. Burroughs é um livro diferente, mesmo em meio às criações da Geração Beat. Ele expõe o ser humano ao máximo, diante de uma condição de dependente de químico; diferente de outros livros, conta uma história por dentro, instigando um sentimento de compaixão a alguns e repulsa a outros, mas mesmo assim, mostrando a situação como ela é.

Título: Junky
Autor: William S. Burroughs
Editora: Companhia das Letras
Ano de publicação: 2013
Páginas: 176



Vilto Reis
Autor do livro "Um gato chamado Borges", professor de escrita criativa e apresentador do Podcast de Literatura 30:MIN.
Vilto Reis
Autor do livro "Um gato chamado Borges", professor de escrita criativa e apresentador do Podcast de Literatura 30:MIN.
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