A Biblioteca Nacional da Argentina e o espetáculo: Borges… Descifrando las tinieblas

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No dia 27 de julho de 2013, quatro integrantes do Homo Literatus visitaram a Biblioteca Nacional da Argentina; e de quebra assistiram a um espetáculo sobre a obra de Jorge Luis Borges, um dos maiores nomes da literatura dos hermanos.

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No Centro da capital Argentina, localizada na região da Recoleta (mesma da Casa Rosada), encontra se o prédio de estrondosa arquitetura. A instituição existe desde 1810. A estrutura atual poderia sem dúvida ser classificada entre as “maravilhas do mundo moderno”. A empreitada foi longa, desde a colocação da pedra fundamental, em 1971, até sua inauguração em 1993. “Seu estilo às vezes é classificado como ‘brutalista’ – uma das variantes do expressionismo do século XX –, é sempre motivo de interrogação e estudo por estudantes de arquitetura. Invade os estilos arquitetônicos da cidade que a aloja, com uma forte voz irreverente, escultórica e pampiana, que não deixa até hoje de fazer parte do acervo de discussões culturais argentinas”, segundo o site da biblioteca[1].

A arquitetura ousada da Biblioteca Nacional da Argentina
A arquitetura ousada da Biblioteca Nacional da Argentina

Mas donde poderia ter vindo a ideia duma estrutura tão incrível? Pense literariamente para acertar na resposta.

“O universo (que outros chamam a Biblioteca) compõe-se de um número indefinido, e talvez infinito, de galerias hexagonais…”.
– Jorge Luis Borges, no início do conto A Biblioteca de Babel.

Exato. Borges.

Juntamente com o subdiretor José Eduardo Clemente, Borges, na época diretor, supôs que poderia edificar a biblioteca como um local para o pensamento e a literatura. Da mente à ação, foi muito efetivo durante o processo de construção, mesmo tendo se demitido do cargo em 1973, após a reeleição de Perón à presidência da Argentina.

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Cheios de expectativa,  subimos as escadas que davam acesso ao colosso literário. Na recepção, o discurso de sempre, um portunhol meio indígena.

Nosotros somos brasileños y pertenecemos la uno sitio literário, el Homo Literatus.

A recepção foi calorosa. Diferente do que pensávamos, os argentinos não nutrem qualquer rivalidade por nós, ou pelo menos, não aparentemente. A cordialidade na forma como a recepcionista nos atendeu ativou minha imaginação. Formei uma imagem canhestra de estar sendo recebido por Maria Kodama, a popular secretária de Borges, que depois viria se casar com ele. Talvez fosse a áurea surreal de estar naquele ambiente, ou apenas minha doença ficcional, que ajusta minha realidade. Não sei explicar.

Entrada da Biblioteca Nacional Mariano Moreno
Entrada da Biblioteca Nacional Mariano Moreno

Fomos informados que como turistas podíamos visitar o primeiro, o terceiro e o quinto piso. No primeiro piso havia o Auditório Jorge Luis Borges e a sala de exposições Leopoldo Marechal, na qual estavam expostos livros da importante figura histórica argentina, Eva Perón. No terceiro piso, a audioteca e a mediateca em geral. Mas ansiosos mesmo estávamos para chegar ao quinto piso, onde se encontra a sala de leitura Mariano Moreno, ou melhor, onde ficam os livros. Contudo, não pudemos ter decepção maior. Para ter acesso aos livros, precisa-se dum cadastro; o qual só pode ser efetuado ao ter-se posse do número de identificação argentino. Como turistas, não tínhamos esta opção. A magia foi perdendo sua força. Ir numa biblioteca e não ter acesso a um livro sequer, fato inédito para todos nós, tarados por literatura.

Deixamos descansar nossos corpos numa área destinada à leitura. Já passava de meia-tarde e estávamos desde cedo na rua, explorando Buenos Aires. Ficamos ali decepcionados. Tudo ficou pior quando percebemos que nem a WI-FI funcionava direito.

Corri os olhos pelos folhetos que havia raptado nalguns pontos da biblioteca. Entre eles, encontrei um livreto, Vacaciones de invierno. O design com um colorido sobreposto sobre tons sóbrios prendeu minha atenção. Era uma espécie de guia onde se apresentava a programação de eventos da biblioteca. Folheei até encontrar o dia 27 e vi algo que fez meus olhos brilharem. Estava ali um evento que não entendi ao certo a que se referia, mas o título me prendeu: Borges… Descifrando las tinieblas.

Informamos-nos sobre o horário com os funcionários da biblioteca e às 18h estávamos no auditório, ainda sem saber do que se tratava exatamente o espetáculo.

Para nossa surpresa, o espaço ficou lotado em poucos minutos. Estávamos relativamente bem posicionados, numa fileira intermediária, bem de frente. Logo o público silenciou, a música subiu e os atores começaram a entrar, um a um, eram onze ao todo.

Aos poucos, iniciou-se a apresentação. Eu estava em vantagem em relação aos outros integrantes do Homo Literatus ali comigo, pois conhecia boa parte da obra de Borges. Cada ator se projetava em relação aos outros, perante o público, e recitava um poema de Borges, em interpretações que pareciam ir além das palavras, alcançando os sentimentos. Talvez como o escritor argentino gostaria que se dissesse, abarcando o todo do universo. Tive a impressão que ali mesmo, naquele auditório, era o A Aleph, citado no conto que leva este nome, o ponto donde é possível enxergar todo o universo.

O folhetinho que depois chegou até nós, referente ao espetáculo, dizia que a direção era de Helena Tritek. O subtexto buscava esclarecer o objetivo: “A partir da leitura dos textos de Borges nos apaixonamos e adentramos a experiência de relatar sua poética”.

E conseguiram. Duas interpretações me marcaram.

Espetáculo: "Borges... Descifrando las tinieblas"
Espetáculo: “Borges… Descifrando las tinieblas”

Primeiro a do poema , de Borges, por Ercilia Agostinelli. Embora não a conheça, diria que a única mulher de rosa no palco poderia estar numa ópera, mas em lugar algum teria uma interpretação tão poderosa quanto naquele momento. “Um só homem nasceu, um só homem morreu na terra/ Afirmar o contrário é mera estatística, é uma adição impossível[2]”.

E a última voz a se erguer por Borges no palco foi a de Ezequiel Ruiz, relatando o conto A Intrusa. Por já conhecer a história, não esperei que fosse me tocar tanto, mas me enganei.  O conto fala de dois irmãos bastante brutos, porém inseparáveis, até o dia em que uma mulher entra na vida deles, desgraçando os inseparáveis. A interpretação tipicamente argentina, melancólica e com forte carga emocional, pareceu dar novo sentido à história, tornando-a mais trágica.

No fim do espetáculo, a plateia aplaudiu efusiva. Dois integrantes do Homo Literatus se colocaram de pé para aplaudir, porém não foram imitados, pelo visto este não é um costume por lá.

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No táxi, de volta para o hotel, fomos em silêncio. Borges se foi, mas ao mesmo tempo estava li. Sua voz ressoava em nossos corações. Talvez não fosse ele, e sim, nós.

Todos. Un solo hombre.

Integrantes do Homo Literatus em frente à Biblioteca Nacional da Argentina. Da esq. para a dir. Juliano Rodrigues, Giovanni Arceno, Vilto Reis e Giseli Corrêa
Integrantes do Homo Literatus em frente à Biblioteca Nacional da Argentina. Da esq. para a dir., Juliano Rodrigues, Giovanni Arceno, Vilto Reis e Giseli Corrêa

[1] http://www.bn.gov.ar/historia
[2] No original: “Un solo hombre ha nacido, un solo hombre ha muerto en la tierra.
Afirmar lo contrario es mera estadística, es una adición imposible”.

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Este texto pertence à série Viagens Literárias, em que colaboradores do Homo Literatus trazem uma perspectiva literária de outros lugares do mundo em que estiveram.