A Cidade e a Cidade

Camadas de uma ficção estruturada em cidades

China Miéville

Besźel e Ul Qoma são cidades de países diferentes, com povos, culturas e línguas diversas. Partilham apenas uma coisa: estão situadas geograficamente no mesmo local.

A Cidade & a Cidade, como se exige da boa ficção, é uma obra construída em camadas. Dependendo da profundidade em que você mergulha na história, dará um rótulo diferente ao livro.

A camada mais aparente é a de um livro policial. Ele inicia com a clássica cena do investigador chegando à cena de um crime de assassinato. Toda a narrativa da história é estruturada no desenvolvimento e desfecho da investigação. Durante ela, acompanhamos Tyador Borlú, do Esquadrão de Crimes Hediondos de Besźel, que obstinadamente tenta encontrar o assassino de Mahalia, uma arqueóloga jovem e contestadora.

A segunda camada situa-se entre a ficção científica e a fantasia. O autor, China Miéville, aos poucos, introduz o leitor naquele complexo mundo que construiu, onde cidades coexistem no mesmo espaço físico. Qualquer explicação ou descrição de como se dá essa conjunção, sobreposição ou outro qualificativo que se possa utilizar seria limitante e reducionista, sugestionando o futuro leitor. A descoberta gradual e a compreensão de como Besźel e Ul Qoma se unem e ao mesmo tempo se isolam é uma das principais, senão a principal, razão para se ler o livro.

O leitor será introduzido em conceitos como a “brecha” – a passagem proibida de uma cidade para outra – ou como o “desver” – o ato de não olhar ou fingir não perceber a outra cidade, incluindo pessoas que passam ao seu lado, quase encostando em você.

E, então, quando o leitor compreende e se situa neste mundo de sobreposições, chega à terceira camada. Aquela onde presta atenção aos símbolos e às metáforas que Miéville utiliza para ressaltar a alienação dos personagens e as diferenciações artificiais das sociedades que descreve. Por extensão, percebemos que ele nos joga na cara, por baixo do texto, a nossa própria hipocrisia como indivíduos, que se esforçam a não enxergar o próximo, e como coletividade, ao criar e insistir em divisões sociais arbitrárias e, no mais das vezes, injustas.

Essa simbologia mostra-se ainda mais clara quando o leitor conhece a biografia de Miéville. Formado em antropologia e pós-graduado em relações internacionais, é membro da Organização Internacional Socialista e tem atuação política em partidos de esquerda na Inglaterra, tendo, inclusive, sido candidato a Câmara dos Comuns. Em tempos nos quais as patrulhas ideológicas estão à solta, é bom deixar claro que ele é um caso no qual a matiz ideológica concede cor e profundidade ao texto, ao invés de limitá-lo.

A Cidade & a Cidade recebeu o Prêmio Hugo de melhor romance em 2010 (em um empate com o livro The Windup Girl, de Paolo Bacigalupi). Para quem não conhecesse, o Hugo talvez seja um dos mais plurais e prestigiados prêmios concedidos para obras literárias de ficção científica e fantasia do mundo. Mas A Cidade & a Cidade ganhou, ainda, os prêmios British Science Fiction Association, World Fantasy e Arthur C. Clarke.

Todas essas premiações fizeram com que o livro se tornasse conhecido como uma obra de ficção científica, embora não o seja. A história se passa nos dias atuais. Não há inovações tecnológicas ou outras concessões ao imaginário que não a ideia básica de uma “sobreposição” das cidades. Os problemas dos personagens, assim como os panoramas e conflitos políticos e econômicos existentes reproduzem aqueles que vivemos cotidianamente. Miéville já afirmou, em entrevistas, que gosta de ser conhecido com um escritor de weird fiction, um gênero que engloba o horror, a fantasia e a ficção científica e que teve como maior expoente H. P. Lovecraft.

A narrativa, contudo, contém também algumas pequenas omissões e defeitos, a começar pelo personagem principal. Tyador Borlú não possui um histórico. Nada da sua vida pregressa, praticamente, é abordado. Fundamentalmente, não se sabe o que o motiva. Ele acaba, com isso, por recair no estereótipo do investigador que toma o caso como uma cruzada pessoal, sem qualquer explicação do porquê. Esta ausência de background estende-se aos demais personagens, com exceção da vítima do assassinato. As relações entre eles são um pouco forçadas, com a formação de estreitos laços de confiança, profundos a ponto de se arriscarem carreiras e vidas, sem a existência uma explicação convincente.

A linguagem utilizada, por vezes, não me parecia à altura da obra, com longas e confusas frases, repetições de palavras e um vocabulário impreciso. Dou, abaixo, um exemplo:

Mas, passando através do Copolla Hall, ela ou ele pode deixar Besźel e, no fim do hall, voltar exatamente (corporeamente) para onde estava, mas em outro país, um turista, um visitante maravilhado, para uma rua que partilhava a latitude-longitude de seu próprio endereço, uma rua que eles nunca haviam visitado antes, cuja arquitetura haviam sempre desvisto, para a casa ul-qomana que ficava logo ao lado e a toda uma cidade de distância de seu próprio edifício, desvível agora que haviam atravessado, feito todo o caminho através da Brecha, de volta para casa. (página 75)

Ao final do livro, há uma explicação acerca da dificuldade de se traduzir o texto e a existência de erros propositais de linguagem. Conforme Fábio Fernandes, o tradutor, o livro foi escrito como se Borlú estivesse “traduzindo para o inglês por ele próprio de maneira inculta e um pouco tosca”. Acredito, no entanto, que a explicação deveria constar como uma nota introdutória à versão em português.

Na edição que tenho (a primeira lançada pela Boitempo Editorial, em 2014) ocorreu um “adensamento” do texto, com o uso de uma fonte muito pequena e uma diagramação concentrada, certamente para cortar os custos de impressão. Isso acaba por tornar a leitura dificultosa, mesmo para aqueles que, como eu, ainda não precisaram se render aos óculos.

Sopesados estes (pequenos) defeitos, A Cidade & a Cidade é uma obra inteligente, instigante e original (qualidade cada vez mais rara), que pode agradar tanto os aficionados por weird fiction quanto aqueles que desejam, tão somente, um bom livro de ficção.

Daniel Nonohay Autor

Escritor, colorado, juiz do trabalho, pai e marido, não necessariamente nessa desordem.