A Favor do Best-Seller

Muita gente dita intelectualizada costuma depreciar livros Best-Sellers. Paulo Coelho talvez seja o autor mais execrado, dentre todos. O pessoal questiona a qualidade das obras, o talento dos autores, a inteligência dos leitores. Definitivamente não os engolem.

Eu, no entanto, defendo os Best-Sellers – apesar de não lê-los, mais por falta de tempo do que de vontade. O que sempre gerou discussões acaloradas, que costumam iniciar no momento em que menciono Paulo Coelho. Enfim.

Não estou aqui para discutir qualidade literária – um conceito bastante relativo, convenhamos. Estou aqui para falar em leitores.

O brasileiro, reza a lenda, não lê nem anúncio de frango assado no domingo; que dirá um livro! Mas, graças aos Best-Sellers, muita gente que nunca leu nada na vida lê pela primeira vez. E a leitura, como sabemos, só precisa de uma chance para nos fisgar para sempre.

Ouça o LiteratusCast 23 – O que significa ser um Best-Seller!? Maldição ou Consagração.

Já imaginaram quantas mulheres, que nem horóscopo de revista liam, leram 50 Tons de Cinza – um livro com quase 500 páginas? Já calcularam quantas crianças e adolescentes, que o mais próximo da leitura que chegaram foi acompanhando as atualizações de seus amigos no Facebook, leram as infinitas sagas Harry Potter e Crepúsculo? E quantos caras, que não assistiam filmes legendados por que não acompanhavam ‘as letrinhas’, leram todos os livros do Dan Brown?

Robert Pattinson interpretando Cedrico Diggory em Harry Potter. Posteriormente, ele faria Crepúsculo, tornando-se conhecido no mundo todo. Duas sagas que através do cinema levaram muitos adolescentes à literatura
Robert Pattinson interpretando Cedrico Diggory em Harry Potter. Posteriormente, ele faria Crepúsculo, tornando-se conhecido no mundo todo. Duas sagas que através do cinema levaram muitos adolescentes à literatura

Best-Sellers possuem esta função quase social: colocar um livro na mão de gente que nunca pensou em pegar um livro nas mãos.

Ora, sabemos que, para nos tornarmos leitores, precisamos somente começar. E é aqui que reside o X da questão. As pessoas nunca começam, e assim envelhecem e morrem sem nunca passar perto de um livro.

Este é um problema sério que se inicia em casa, claro, e se fortalece na escola. É quando, na quinta série, a professora de português solicita a leitura de Dom Casmurro. Obviamente todo mundo sai correndo e gritando, em desespero. E depois de Dom Casmurro na quinta série, a maioria tem certeza absoluta de que ler é o troço mais chato que existe no universo.

Porém, hoje, estes mesmos alunos que correram desesperados do Dom Casmurro na quinta série leram toda a saga Crepúsculo. E depois de lerem toda a saga Crepúsculo, é muito provável que voltem a ler, e leiam mais e mais, até que a leitura se torne o que deve ser: um hábito.

E assim ganhamos mais um leitor no Brasil.

Este fenômeno é tão concreto, que editoras nacionais já apostam em Mega-Sellers. Sim, livros que vendem mais de um milhão de exemplares. No Brasil. Um milhão. De livros. Reflita.

O Padre Marcelo Rossi, por exemplo, é um que obteve a incrível façanha de vender OITO milhões de exemplares da obra Ágape, em um país cuja tiragem média de livros não passa de cinco mil.

E antes que venham os tomates sobre o exemplo do Padre Marcelo, saibam que o escritor Laurentino Gomes vendeu mais de um milhão de livros das obras 1808 (Ed. Planeta) e 1822 (Ed. Nova Fronteira). Ambas sobre a história do Brasil.

Laurentino Gomes, mais de 1 milhão de livros vendidos
Laurentino Gomes, mais de 1 milhão de livros vendidos

Já Raphael Draccon e Eduardo Spohr, por sua vez, venderam 200 mil e 600 mil livros, respectivamente.

(Considero importante observar o fato de que todos os autores acima citados são nacionais – os mesmos que não são lidos por ninguém em detrimento de autores estrangeiros blábláblá).

Em oito anos, a rede de livrarias Saraiva registrou um aumento de 500% nas vendas voltadas ao público infantojuvenil. Em 2007 foram vendidos 277 mil exemplares. Em 2012, 1,8 milhões.

Números altos para um país que, teoricamente, não lê.

Paula Pimenta é outra escritora que possui um público leitor altamente segmentado (e vende que nem água: foram 300 mil exemplares das séries Fazendo Meu Filme e Minha Vida Fora de Série). Paula escreve para meninas entre 12 e 15 anos. Estas meninas lotam suas sessões de autógrafos e tratam Paula como se ela fosse um Beatle. Levam cartazes, faixas, gritam e desmaiam. Paula Pimenta, uma escritora, figura como ídolo para essa meninada ao lado de caras hollywoodianos como Justin Bieber.

Escritora Paula Pimenta, sucesso entre os adolescentes
Escritora Paula Pimenta, sucesso entre os adolescentes

Então eu pergunto: como podemos depreciar os Best-Sellers, minha gente?

Eles fazem pela literatura o que Machado de Assis não consegue fazer: atrair leitores.

E estes leitores, após 50 Tons de Cinza, Dan Brown e Paulo Coelho, têm muito mais chances de, afinal, ler, entender e (talvez) até gostar de um Dom Casmurro da vida.

O gosto pela leitura, assim como todos os gostos, vai também se refinando.

Só que todo mundo precisa começar, e pouco importa se for lendo obituário de jornal ou Os Lusíadas. O que interessa é que se comece.

E como o Best-Seller é uma ampla porta de entrada para dezenas de milhares de leitores, então eu o respeito.

Se você acha que está ruim com eles, meu amigo, pense no quanto estaria pior sem eles.

Jana Lauxen Autor

É produtora cultural e escritora, autora dos livros Uma Carta por Benjamin (Ed. Multifoco, 2009) e O Túmulo do Ladrão (Ed. Multifoco, 2013). Colunista da revista Café Espacial, publicou pela Mojo Books a historieta Pela Honra de Meu Pai. Publicou em mais de quinze coletâneas, e organizou seis em parceria com outros escritores. Foi editora da versão brasileira da revista eletrônica inglesa 3:AM Magazine, e também uma das idealizadoras do projeto E-Blogue.com (in memoriam). Atualmente trabalha na Editora Os Dez Melhores e é redatora na agência Teia de Marketing Literário Virtual.