A Filha do Senador 029 – Gisele Corrêa

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Acordei com o barulho da campainha. Ainda eram 8h e eu não esperava ver ninguém àquela hora. A Marta e o Horácio saíram para as compras então eu mesma fui atender.

– Ricardo? (eu estava surpresa). Você quer falar com a minha mãe?

– A esta hora? (ele sorriu) Não, vim ver você mesma… (ele percebeu meu pijama). Então entrando no ritmo?

– Quem sabe? (brinquei) Mas acho que é só cansaço mesmo… Quer sentar? (perguntei apontando o sofá).

– Ótima ideia (sentou-se descontraído). Eu vim te fazer uma proposta.

– Proposta? (não escondi minha curiosidade). Fala…

– Você foi muito legal com a dona Carmem (eu não queria falar sobre isso e ele pareceu perceber), e acho que poderia fazer por outros pacientes também. Conversei com a diretora do hospital e concordamos que alguns pacientes gostariam de ter a companhia de uma garota bonita e simpática (sorria).

– Pacientes? (a ideia me pareceu assustadora, eu não queria me envolver com outras pessoas que estivessem a beira da morte). Acho que pode não ser uma ideia tão boa assim… (respondi em dúvida).

– Não se assuste (ele apressou-se em dizer), Não são pacientes comuns, na verdade são apenas dois…

– Dois?

– É um garotinho e uma garotinha, que ficam algumas horas semanais conosco, algumas vezes mais, outras menos…

– São crianças?

– É, as duas estão fazendo quimioterapia, passam um tempo conosco… Achamos que seria bom se alguém lesse um pouco ou brincasse com elas…

– Não sei… (eu estava mesmo na dúvida). Depois do que aconteceu com a dona Carmem, acho que não quero me aproximar de pessoas doentes…

– Entendo o que quer dizer, mas não vai acontecer com elas… São fortes e estão resistindo bem, diferente do caso da dona Carmem… São crianças…

– Eu posso pensar? Não quero me comprometer sem ter certeza…

– Tudo bem, mas se você quiser conhecê-los, posso te levar até lá… (ele mantinha o bom humor mesmo com a minha resistência).

– Agora? (ainda tinha esperança de dormir mais um pouco).

– E porque não? Tem algum compromisso inadiável com o sono?

Acabei concordando e depois de deixar um bilhete na mesa da cozinha já estávamos a caminho. O Ricardo parecia descontraído, e fiquei feliz quando perguntou se a minha mãe estava bem.

– Ela está ótima! (respondi sem segurar o riso).

– Deve estar sendo difícil, depois de tantos anos de casamento (eu sabia muito bem onde ele queria chegar)…

– Na verdade acho que ela segurou a onda muito bem, as coisas não estavam mesmo perfeitas entre os dois…

– Que bom… (soltou sem perceber), digo, é uma pena…

– Mas tudo está bem quando acaba bem, não é? Quero dizer eu sei que não foi nada amigável, mas estamos melhor aqui.

– É, acho que você está mesmo certa, sua mãe me disse que vai voltar a estudar…

– É, ela comentou mesmo alguma coisa. (concordei).

– E você já se decidiu?

– Ainda não, mas não quero me preocupar com isso agora, uma coisa de cada vez.

Chegamos ao hospital e a Ester nos recebeu sorrindo:

– Então está de volta? (perguntou enquanto procurava alguma coisa).

– Ainda não sei…

– Sabe que será bem vinda (tinha um grande sorriso). Doutor a Fernanda deixou isso para o senhor. (entregou um pote fechado).

– Biscoitos de melado… (ele abriu o pote pegou um e me ofereceu). Os meus preferidos.

Era mesmo delicioso, diferente dos que a gente compra no mercado, mais macio, fresquinho.

– Uma delícia! (falei assim que engoli).

– Ela sempre manda um pote depois que eu trato do Leo, a família é muito gente boa…

Ele voltou a fechar o pote e pediu que a Ester guardasse até que voltássemos. Entramos em outro corredor e viramos na primeira entrada à esquerda, quarto 53. As duas crianças estavam vendo TV e ficaram felizes quando ele entrou.

– Oi Doutor (o menino falou abrindo espaço na cama). Estamos vendo desenho, vai assistir com a gente?

– Não, só estamos de passagem… Vim trazer uma amiga para conhecê-los, Cléo estes são, Julia e Marcos e garotos esta é a Cléo…

– Oi Cléo… (falaram quase ao mesmo tempo).

– Você vai ver o desenho com a gente? (a garotinha perguntou).

– Acho que não, eu também estou de passagem… (expliquei). Só vim aqui para conhecer vocês…

– Você vai voltar aqui? (agora era o menino quem perguntava)

– Ainda não sei, vocês querem que eu volte?

– Pode ser, você gosta de ver desenho? (ele voltava a perguntar).

– Gosto… (respondi com sinceridade).

– Então pode voltar… Mas não amanhã, porque amanhã eu vou estar em casa… (ele parecia feliz).

– É, mas eu vou ficar aqui amanhã, então pode vir…

A garotinha tinha se levantado e estava parada perto de mim. Ela usava um boné rosa para cobrir a cabecinha careca, e tinha olhos grandes e azuis. Pensei comigo que se não estivesse mesmo com vontade de vê-los novamente não deveria ter chego até ali. Tanto um como outro pareciam muito legais, e o fato de estarem doentes me deixou abalada. Quando ela falou comigo eu já sabia que teria que voltar, então me abaixei para perguntar:

– A que horas você quer que eu venha amanhã?

– Vou ficar aqui a manhã toda (fez um gesto amplo com as mãos).

– Ok, eu virei vê-la amanhã então.

Ela me ensinou um cumprimento cheio de voltas e saí. O Ricardo ria enquanto andávamos, e eu não me dei ao trabalho de perguntar a ele o motivo. Eu tinha mordido a isca, tinha novamente uma tarefa matinal, só que desta vez com uma garotinha.

Passamos na recepção, pegamos o pote de biscoitos e ele foi me levar novamente pra casa. Conversamos um pouco sobre a doença dos dois e o que eu poderia fazer com eles enquanto estivesse lá. Pedi para que passássemos em uma papelaria e comprei alguns livros infantis, papel sulfite e canetinhas. Ainda não sabia o que iríamos fazer, mas era bom ter um arsenal legal.

Minha mãe já estava acordada quando chegamos, mas ainda usava seus pijamas curtos e levou um susto quando entramos na sala.

– Bom dia mãe… (falei ao abrir a porta).

– Bom dia Cléo (ela veio me encontrar, mas parou no meio do caminho quando viu o Ricardo entrando comigo).

– Oi Lu, lindo pijama…

Ele estava sorrindo e percebi quando seus olhos desceram para as pernas descobertas da minha mãe. Ele avançou um pouco para lhe cumprimentar e quando ele a abraçou pensei que minha mãe deveria estar se sentindo igual a mim, quando o Gui me abraça com aqueles braços fortes, como se nada mais pudesse me acontecer.

– Eu já ia tirar… (ela falou sem jeito) Fiquem a vontade… (escapou para a escada).

– Que é isso Lu, não esquenta, já vi em estado bem pior… (ele brincou enquanto ela subia).

– Mesmo assim, acho melhor eu trocar de roupa. (gritou do topo antes de sumir pelo corredor).

Ele assentiu contrariado e sentou-se no sofá, era visível que ainda se interessava por ela. As perguntas que fez pela manhã eram apenas um indício, mas o olhar que ele lhe lançou e o abraço que lhe deu, estes eram sinais fortes.

Sentei por perto e lhe fiz companhia até que ela desceu (com um vestido leve e o cabelo preso), então deixei os dois na sala e fui até o meu quarto separar as coisas que havia comprado.