A Filha do Senador 030 – Final – Gisele Corrêa

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Desci perto da hora do almoço, mas ele já tinha saído e minha mãe andava pela casa a procura das chaves do carro.

– Cléo, você viu a chave da caminhonete? (perguntou).

– Não, o Horácio não saiu com ela? (lembrei que ele havia ficado de levar o cliente do vovô para ver os cavalos).

– É mesmo, eu havia me esquecido! O pior é que a Isabel ligou, para sairmos à tarde e eu queria ir com ela…

– Acho que ele volta antes do almoço… (falei despencando no sofá).

– Tudo bem, então o jeito é esperar… (sentou-se ao meu lado). Então vai voltar ao hospital é?

Tinha segurado a minha mão e brincava com os meus dedos calmamente. Era diferente vê-la tão mãe, sem preocupar-se o tempo todo com o meu pai, ou com os horários no salão e todas as outras futilidades que fazíamos antes. Nossa mudança tinha modificado minha mãe, e eu gostava muito desta nova mulher.

– Acho que sim, eu tinha que arrumar o que fazer, e acabei não sabendo dizer não… E a senhora, já decidiu o que vai fazer nessas poucas horas vagas?

– Estudar! Vou comprar uns livros, e pedi a secretária do seu pai que me mandasse as suas apostilas, se eu quiser mesmo entrar para a faculdade, acho que vou ter que ralar um pouco… Você bem que poderia estudar comigo…

– Pra mim está ótimo! Não posso mesmo me acostumar a não usar o cérebro, então depois que as aulas do Gui começarem, podemos estudar um pouco… (concordei).

Continuamos conversando sobre o vestibular e ela tentava me ajudar a encontrar uma profissão que eu gostasse. Eu não estava com vontade de falar sobre isso e só concordava ou discordava sem dar muita atenção. Queria mesmo era falar sobre os olhos do Ricardo nas pernas dela, mas não tive oportunidade, porque depois do vestibular passamos a falar sobre minhas visitas ao hospital e depois sobre o Guilherme, pensei que com este assunto teria a chance de tocar no outro, mas a Marta nos chamou para almoçar, então o papo acabou.

O Guilherme ia tocar e nos convidou para ir vê-lo, então eu e minha mãe saímos à noite para jantar no mesmo restaurante que o Ricardo tinha nos levado da outra vez.

Minha mãe estava linda, não como quando era uma esposa de político e se vestia elegantemente para poder ficar ao lado dele como um discreto bibelô. Não a minha mãe estava linda para chamar atenção mesmo. Ela tinha saído durante à tarde para fazer compras com a Isabel e voltou com o cabelo cortado e bem tratado, as unhas feitas e uma grande variedade de sacolas. E deve ter tirado sua blusa vermelha, suas botas novas e sua saia preta de dentro de uma delas.

Eu estava bem normal de jeans escuro e blusa azul. Meus cabelos estavam um desastre, mas eu não estava a fim de fazer compras naquela tarde, nem tinha pique para aguentar o salão.

A banda já estava tocando quando chegamos então escolhemos uma mesa em um canto um pouco afastado e minha mãe ficou responsável de fazer os pedidos. A Marina chegou pouco depois e acenou pra gente. Pegou uma mesa um pouco distante e só depois que já estava sentada vi que não estava sozinha, a Dana juntou-se a ela.

– Aquela não é a menina maluca? (minha mãe perguntou).

– É… Incrível como a mais maluca não é a de cabelo colorido… (brinquei).

Ficamos mais um tempo, de bobeira, até que o Ricardo apareceu por lá.

– Oi garotas, relaxando um pouco? (perguntou ao se aproximar).

– Acho que é tudo que temos feito… (minha mãe continuou a brincadeira).

– Posso sentar com vocês? (ele já estava segurado a cadeira ao lado da minha mãe).

– Claro, senta aí! (falei depressa). Então vai me pegar amanhã?

– Pode ser…

– Não (minha mãe adiantou-se), eu mesma posso levá-la…

– Não acredito que a bela adormecida vai interromper seu soninho da manhã… (ele brincou).

– Vale a pena, se ela acabar vendo o príncipe encantado… (minha mãe mandou na lata, sem desviar o olhar do Ricardo).

O sorriso dela estava diferente esta noite. Era como se tivesse se preparado a tarde toda para aquele momento, estava radiante. O clima entre os dois estava intenso, e me arrependi profundamente por não ter ficado em casa.

Eu estava totalmente por fora do assunto deles, e conversavam tão baixo que mesmo que estivesse por dentro seria impossível acompanha-los.

O marasmo já estava no auge, e eu já estava pensando em pegar um táxi quando o Gui trocou de lugar com outro garoto e saímos um pouco.

Sentamos em um banco da calçada, ele perguntou se eu estava cansada, respondi que só um pouquinho, ele me deu um selinho e voltou a perguntar.

– Quase nada (respondi sorrindo antes de voltarmos a nos beijar).

Ficamos um tempinho ali namorando um pouco (coisa que mandou pra longe todo o meu arrependimento), até que vi um carro preto comprido passar bem devagar pela gente.

– Aquele ali, não era o meu pai? (perguntei).

– Seu pai? Mas o que ele estaria fazendo por aqui? Quero dizer, não deve ser ele…

Ele me segurou pela cintura e voltou a me beijar. Esqueci completamente o que tinha acabado de ver. Pelo menos até que alguém começasse a gritar atrás de mim.

– Então é isso? (meu pai estava branco de raiva). É só ficar alguns dias longe da civilização que você já começa a agir como uma garota qualquer se agarrando com um caipira!

Ele olhava pra mim com raiva e eu não conseguia entender o porquê, pra mim, ele só poderia estar maluco.

– Pai, este é o Guilherme, meu namorado… (falei com calma ao mesmo tempo que o Gui lhe estendia a mão).

Ele ignorou a mão estendida e continuou a falar comigo.

– Namorado? E desde quando você tem idade para ter um namorado? Ainda é uma criança!

– Engraçado lembrar disso, porque a Elaine é só alguns meses mais velha que eu e o senhor não pensou que era uma criança quando resolveu agarra-la em público! (levantei-me segurando a mão do Gui). Vamos pra dentro. (falei sem olhar para o meu pai que continuou parado olhando pra gente).

– Volte aqui garota, eu ainda não terminei!

– Pois eu já! (respondi entrando novamente no restaurante).

Estava pensando no que falar a minha mãe quando o Guilherme me segurou:

– Acho melhor não irmos até lá. (apontou a nossa mesa).

O Ricardo estava beijando minha mãe! Ela tinha finalmente conseguido que acontecesse, e eu não sabia o que fazer. Dei meia volta para tornar a sair, mas não tive chance, isso porque meu pai já tinha entrado atrás da gente, e ao contrário de mim não demorou a ver o que estava acontecendo com a minha mãe. Tentei segurá-lo, mas ele avançou decididamente, passando como um raio entre eu e o Gui.

– Meu Deus! Eu devo estar em um pesadelo! Minha filha aos beijos com um caipira lá fora e minha esposa se amassando com outro caipira aqui dentro!

Todos os clientes fizeram silêncio para escutar melhor o que meu pai dizia, todas as cabeças estavam voltadas pra minha mãe de mãos dadas com o Ricardo.

Minha mãe estava lívida, e nesse momento me arrependi de não ter contado sobre o telefonema da Elaine. Os dois se levantaram, meu pai parou um segundo ao avaliar o tamanho do Ricardo perto dele, mas recuperou sua coragem ao perceber que o restaurante estava cheio.

– Ricardo, então conseguiu dar um beijo na garota dos seus sonhos? (o tom de deboche dava nojo). Espero que tenha aproveitado, porque eu voltei e vou leva-la novamente para casa…

Ele segurou minha mãe pelo braço e ia arrasta-la gritando para fora do restaurante quando o Ricardo falou com firmeza:

– Olha só Luiz, porque você não deixa que ela mesma decida isso?

– Acho que não… Minhas garotas acabaram de provar que não sabem escolher boas companhias… (ele olhou pra mim e pro Gui) Vamos embora Cléo!

– Eu não vou mesmo… (respondi sorrindo). Aliás acho que só tem uma pessoa aqui que deveria cair fora, só uma pessoa está fora do quadro…

– Como é? A minha filha está me mandando embora? O que você fez com ela Lucia? Levou-a para conviver com os caipiras?

– Cala a boca Luiz! (minha mãe finalmente tinha entendido o que estava acontecendo). Você não tem o direito de falar nada, nós somos adultas e fazemos a nossas escolhas, e adivinha só? Você não faz parte delas. (ela puxou o braço libertando-se dele). Volta pra sua vidinha em Brasília e esquece da gente. Poderá vir nos visitar se quiser, mas não tem o direito de mandar nossa vida.

– Como não tenho o direito? Eu sou seu marido!

– Ex-marido (minha mãe corrigiu). Hoje pra mim, você não passa de mais um político hipócrita, que não irá ganhar o meu voto!

Ela sorria, e as pessoas ao redor sorriram também. Meu pai tinha perdido muitos votos naquela noite e acho que percebeu isso porque começou a dizer meio abobadamente:

– Besteira de casal, vocês realmente não deveriam acreditar nisso…

Ele caminhava de costas para a porta até que bateu em um dos seguranças do restaurante que o segurou pelo ombro e gritou com voz grossa:

– Cai fora Senador, e se quer uns conselhos, não volte mais aqui, e pensa em outra maneira de ganhar a vida, acho que a política acabou pra você…

Meu pai sorriu nervoso e caminhou até o carro.

– A gente se vê… (disse sorrindo ao abrir a porta).

– Espero que não… (escutei o Ricardo dizer enquanto abraçava a minha mãe).

É estranho como um acontecimento que aparentemente vai destruir a sua vida só faz com que ela mude um pouco, só ajuda você a perceber o que antes estava perdendo. Eu não sabia que poderia acontecer até que saímos de Brasília e conheci todas as coisas boas que a cidade pequena tem a nos oferecer.

Quando voltamos pra casa àquela noite, eu não fui a única a demorar pra entrar em casa, e pude por toda a culpa nela, porque no fim das contas, o Guilherme só ficou ali porque tinha que esperar o Ricardo para levá-lo pra casa.

É como dizem: “Tudo está bem quando acaba bem, e se não está bem é porque ainda não acabou”.

Entramos as duas em casa e nos largamos no sofá… Não estava tudo bem… Estava perfeito!