A guerra dos bastardos e a bolsa que pode mudar suas vidas

Em A guerra dos bastardos, de Ana Paula Maia, personagens  fazem parte de uma corrida maluca e violenta em busca de uma bolsa com conteúdo valioso

Ana Paula Maia, autora de A Guerra dos Bastardos
Ana Paula Maia

A guerra dos bastardos é um romance de histórias cruzadas, nas quais todos os personagens de algum modo estão envolvidos na busca por uma bolsa vermelha muito preciosa. O que há dentro da bolsa pode mudar completamente a vida de quem encontrá-la. Desse modo, essa procura pela bolsa, longe de ser pacífica, é marcada por acidentes e mortes sangrentas.

Embora não seja muito conhecido, esse romance de Ana Paula Maia, publicado pela Língua Geral em 2007, recebeu críticas muito positivas. Foi elogiado pela crítica literária Beatriz Resende e pelos escritores brasileiros Marcelino Freire, João Gilberto Noll e Luiz Ruffato.

Confira o trailer do livro, feito pela produtora O Crepúsculo.

 

A bolsa vermelha valiosa

O conteúdo da bolsa é o mote, se assim podemos dizer, para A guerra dos bastardos.  Mas que diabo de bolsa é essa? Não, evidentemente não se trata de uma bolsa de grande marca. O importante é seu conteúdo.

O romance é iniciado com Amadeu, ator pornô de pênis não muito notável, disposto a pedir um empréstimo para Salvatore. Este é o homem de confiança de seu chefe, Zeferino Mendes, responsável pelo dinheiro das produções de filmes, pagamentos e contratações.

Quando Amadeu chega ao escritório de Salvatore, percebe vozes vindas da sala do homem. Pensa em seu discurso, mas continua sem muita coragem para pedir o empréstimo. No entanto, o “destino” acaba providenciando uma situação bastante complicada e, de certo modo, favorável a Amadeu.

Dentro da sala de Salvatore, um crime acontece e em seguida ocorre um, digamos, pequeno acidente. Amadeu toma coragem de ir até a sala, depois de ouvir barulhos estranhos. Na sala, encontra uma bolsa vermelha, com pacotes brancos, pequenos e bem fechados.

 

Levar a bolsa ou não? Eis a questão!

De início, Amadeu, lento, não sabe do que se tratam os pacotes. Depois entende que aqueles pacotes poderiam mudar a sua vida. Na verdade, os pacotes de cocaína poderiam mudar algumas vidas. Trinta segundos são suficientes para Amadeu pensar em sua vida e se devia levar a bolsa.

Pensou nos cães e nas privadas que lavou, nos descontos que teve em seus salários por quebrar pratos, nas caixas de supermercado que empilhou, nas mulheres com as quais transava, nas bocas que chupavam seu pênis de tamanho razoável e, também, na mulher que o fez ir até o escritório pedir o empréstimo.

Em seguida, pensou que não é culpado de nada. Nunca matou ninguém, ao contrário dos homens, estirados no chão. Então, apanha a bolsa, limpa suas digitais e sai, aflito.  É a partir disso que tem início a sangrenta guerra dos bastardos.

 

As histórias começam a se cruzar em A guerra dos bastardos

Ao pegar algo de tanto valor e que não é seu, Amadeu precisaria tomar certos cuidados. Alguém viria atrás da bolsa, logo chegariam a ele. Procura um novo lar e conhece Horário, assistente em filmagens de filmes B que enfrentava problemas financeiros e precisava de alguém para dividir o apartamento.

Ao mudar de casa, Amadeu percebe que, em frente ao apartamento de Horário, há um sótão na casa do senhor Lozonni, um homem sinistro. Encontra no sótão, além de pombos, cupins e tralhas, um excelente lugar para esconder a bolsa.

A fim de obter lucro rapidamente com aquela mercadoria e também livrar-se dela, Amadeu tenta vender a mercadoria. Entra em contato com Guilherme Benigno, produtor cultural, que tem alguns contatos e acredita ter uma cliente ideal, Edwiges, diretora de cinema, conhecida de Zeferino.

Depois de vender alguns pacotes, Amadeu fica um tanto mais aliviado e deixa sua bolsa no seu esconderijo ideal.  Quando está a um passo de desaparecer do mapa, Amadeu sofre um trágico acidente que, de fato, tira-o do mapa de uma vez por todas.  Enquanto isso, capangas de Zeferino Mendes, Pablo Sasaki e Edgar Wilson (personagem em outros romances da autora) procuram pela bolsa.

A corrida maluca da guerra dos bastardos começa a partir daqui.  E é a partir disso também que as histórias de todos os personagens se cruzam de algum modo, em função da mercadoria roubada. A corrida não é nada silenciosa e limpa. Muito sangue vem à tona e vidas são interrompidas, uma vez que assassinatos e tragédias acontecem em curto espaço de tempo.

 

Questões de linguagem 

A linguagem empregada, em A guerra dos bastardos, para narrar os episódios sangrentos e violentos é rápida e ágil, sem espaço para devaneios ou digressões críticas. E isso parece ser característico em romances de Ana Paula Maia, como Assim na terra como embaixo da terra (2017), De gados e homens (2013) e Carvão Animal (2011).

Os episódios do romance são todos muito bem descritos, mesmo que de modo sucinto, e bem amarrados. Além disso, a forma como a história é narrada não permite que sempre saibamos o que está por acontecer. Talvez seja por isso que nos surpreendemos quando percebemos o envolvimento dos personagens com a bolsa.

Estela Santos Author

Editora e colaboradora do Homo Literatus. Mestra em Letras - Estudos Literários (PLE-UEM). Mediadora do #LeiaMulheres. Twitter: @psantosestela