A imagem na poesia

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Para Octavio Paz, a imagem poética produz a pluralidade da realidade e revela quem nós somos

Octavio Paz | Foto: Alvarez Bravo

O poeta e crítico literário Octavio Paz, no capítulo intitulado “A imagem”, da obra Signos em Rotação (2015), define com maestria o conceito de imagem na poesia e seus modos de construção. Ele começa definindo a imagem como sendo toda forma verbal, frase ou conjunto de frases, que o poeta diz e que, unidas, compõem um poema. Segue afirmando que cada imagem ou composto de imagens pode conter inúmeros e distintos significados.

Para exemplificar sua teoria acerca das imagens, Paz menciona que a poesia permite que o poeta afirme que pedras são plumas, sem que estes elementos percam seu caráter concreto e singular, ou seja, a imagem criada não faz com que as pedras deixem de ser ásperas e duras, amarelas de sol ou verdes de musgo e nem que as plumas deixem de ser leves e delicadas. Eis a questão “escandalosa” do resultado da imagem quando construída, pois ela desafia o princípio de contradição e, ao enunciar a identidade dos contrários, atenta contra os fundamentos do nosso pensar. Portanto, a realidade poética da imagem não pode aspirar à verdade.

A poesia, nesse sentido, é uma linguagem capaz de transcender o sentido de isto e aquilo e de dizer o indizível, de modo que não se pode separar seu raciocínio das imagens. Sendo assim, a poesia é ponto de encontro onde nomes e coisas se fundem e são a mesma coisa, um reino onde nomear é ser. De acordo com Paz, devemos retornar à linguagem para entender e enxergar como a imagem pode dizer o que, por natureza, a linguagem parece incapaz de dizer.

Octavio Paz assevera:

As imagens do poeta têm sentido em diversos níveis. Em primeiro lugar, possuem autenticidade: o poeta as viu ou ouviu, são a expressão genuína de sua visão e experiência do mundo. Trata-se, pois, de uma verdade de ordem psicológica, que evidentemente nada tem a ver com o problema que nos preocupa. Em segundo lugar, essas imagens constituem uma realidade objetiva, válida por si mesma: são obras. […] Neste caso, o poeta faz mais do que dizer a verdade; cria realidades que possuem uma verdade: a de sua própria existência. As imagens poéticas têm a sua própria lógica e ninguém se escandaliza que o poeta diga que a água é cristal […]. (PAZ, 2015, p. 45)

O poeta, ao construir imagens, mostra-nos o mundo e quem nele vive; as imagens poéticas revelam o que somos. E além desse poder de revelação do ser, a imagem poética tem o poder de produzir a pluralidade da realidade. Paz defende, ainda, que um poema não tem mais sentido que as suas imagens, portanto, sentido e imagem são a mesma coisa, constroem a significação do texto poético.

O autor destaca também que a imagem é capaz de reconciliar elementos contrários, mas esta reconciliação não pode ser explicada pelas palavras, isso é possível somente pelas imagens. Trata-se de um recurso capaz de ir contra o silêncio que nos invade quando tentamos exprimir as experiências que nos constituem enquanto seres humanos.

O crítico literário Octavio Paz defende que a imagem é responsável por transmutar o homem e convertê-lo em imagem, isto é, em espaço onde os contrários se fundem. Destaca ainda que o próprio homem, desgarrado desde o nascer, reconcilia-se consigo quando se faz imagem, quando se faz outro, porque, segundo ele, a poesia tem o poder de colocar o homem fora de si e, simultaneamente, o fazer regressar ao seu ser original, isto é, voltá-lo para si: “O homem é sua imagem: ele mesmo e aquele outro. Através da frase que é ritmo, que é imagem, o homem – esse perpétuo chegar a ser – é. Poesia é entrar no ser. (PAZ, 2015, p. 50).

 

Referência: 

PAZ, Octavio. Signos em Rotação. São Paulo: Perspectiva, 2009