A jornada de Malagueta, Perus e Bacanaço

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Amplamente premiado, o primeiro livro de João Antônio, Malagueta, Perus e Bacanaço, fala dos desvalidos da sociedade paulistana com humor e profundidade psicológica.

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Jogo da vida, adaptação para o cinema da Malagueta, Perus e Bacanaço.

Se tivesse ocorrido numa sexta-feira 13, todo mundo diria que foi por causa da data agourenta. Mas foi na sexta-feira 12 de agosto de 1969 que um incêndio no bairro paulista de Jaguaré destruiu a casa da família de João Antônio. Queimaram-se todos os textos que ele havia escrito, inclusive os originais de Malagueta, Perus e Bacanaço. O estrago só não foi maior porque alguns contos ali reunidos já haviam sido publicados em jornais e revistas literárias.

Mesmo assim é um choque para um escritor perder qualquer trecho de sua obra. O pai disse a ele na ocasião: “Pobre tem que fazer tudo duas vezes, e muito bem feito, se não quiser fazer outra vez”.

Assim foi. Mário da Silva Brito conseguiu uma autorização para João Antônio usar com privacidade e conforto a cabine 27 da Biblioteca Municipal Mario de Andrade, onde ele pôde reescrever aquele que ficou conhecido como seu mais importante livro: Malagueta, Perus e Bacanaço, o qual veio a ser lançado em 1963 pela Editora Civilização Brasileira.

A obra é dividida em três partes: Contos gerais, Caserna e Sinuca.

Contos Gerais é composta por três textos: Busca, Afinação da arte de chutar tampinhas e Fujie. Busca é narrado em primeira pessoa: Vicente conta um domingo em que sai a passear por São Paulo, visita o amigo Luís e fica se lembrando do boxe, esporte que teve de abandonar por causa dum problema no fígado. Pensa também no pai, falecido, e nos passeios que a família fazia junta, passeios estes que pretende retomar como hábito. Já de início, o leitor nota o talento de João Antônio em revelar o riquíssimo mundo psicológico de personagens suburbanos, pobres, em geral tidos como desimportantes.

Na história seguinte, Afinação da arte de chutar tampinhas, também se optou pela narração em primeira pessoa, continuando a desenvolver o caráter psicológico do livro, em que a disposição dos contos nitidamente obedece a um critério estético deliberado. É mostrado o cotidiano do narrador, cujas principais preocupações são: ler Aldous Huxley (principalmente o romance Contraponto), assobiar sambas de Noel Rosa e chutar tampinhas de garrafa.

O conto Fujie tem como epígrafe: “Nem tu, mulher, ser vegetal, dona do abismo, que queres como as plantas, imovelmente e nunca saciada. / Tu que carrega no meio de ti o vórtice supremo da paixão” (O Dia da Criação, Vinicius de Moraes). O laço com a música popular é bastante frequente em João Antônio e suas narrativas volta e meia trarão epígrafes tiradas de canções, principalmente sambas de Noel Rosa. Aqui é mostrado o envolvimento amoroso de Fujie com o narrador personagem, melhor amigo de seu marido Toshitaro. O texto é sensual, mas, sobretudo, melancólico e – principalmente – bem escrito. Não foi à toa que a narrativa tinha ganhado um concurso de contos promovido pela revista A Cigarra em 1958.

Já a segunda parte do livro, chamada Caserna, é composta por: Retalhos de fome numa tarde de G.C. e Natal na cafua. O primeiro escrito é narrado em terceira pessoa, com tempo verbal no passado. Fala do cotidiano dos soldados no quartel e da gradual aproximação entre o personagem principal, soldado, e a moça Tila, mãe solteira e prostituta. Já em Natal na cafua (premiado pelo jornal Última Hora no fim dos anos 50) retoma-se a narrativa em primeira pessoa – é relatado um acidente de automóvel em que um subtenente acaba ferido, e o narrador é mandado para a cadeia, onde vem a passar a noite de Natal. O ambiente militar é mostrado como opressor, mas o texto está longe de soar como algum vulgar panfleto antimilitarista. A humanidade está presente em todos, longe de qualquer maniqueísmo, o que não impede que a crítica à opressão surja claramente desde o início deste segmento batizado de Caserna, o qual começa com uma definição categórica: “Soldado é aquilo que fica debaixo da sola do coturno do sargento”.

Sinuca, a terceira parte do livro, composta pelas histórias: Frio, Visita, Meninão do Caixote e Malagueta, Perus e Bacanaço, é dedicada “à picardia, à lealdade e em especial – a beleza de estilo de jogo do muito considerado mestre Carne Frita, professor de encabulação e desacato e cobra de maior taco dos últimos anos”. Nesta parte percebe-se um caráter menos intimista nos textos. É como se a ótica do livro seguisse a partir do particular, âmbito mais privado da percepção (nos primeiros textos), e seguisse até o mais universal, em que o caráter dos personagens aparece mais através de suas ações que do puro devaneio, mesmo quando a narrativa se dá em primeira pessoa (caso de Visita e Meninão do Caixote). Frio (já publicado em A Cigarra em 1958) conta a noite em que um menino vai levar um pacote misterioso, por ordem do malandro Paraná, até um ferro-velho. Visita aborda a nostalgia dum funcionário de multinacional por uma época em que ele, desempregado, ganhava a vida nas sinucas. Em Meninão do Caixote (ganhador de concurso literário do jornal Tribuna da Imprensa na década de 50) um menino vai comprar leite, acaba se refugiando da chuva num bar onde conhece a sinuca, se fascina por ela, envolvendo-se completamente com o jogo a partir dali.

Malagueta, Perus e Bacanaço, novela que dá nome ao livro, é o ponto alto da obra, trazendo elementos já apresentados nos outros contos, porém desenvolvidos e aprofundados. Vemos: o antimilitarismo surgir através do personagem Perus, desertor do exército; a sinuca como ambiente de liberdade; a melancolia da vida suburbana; a riqueza psicológica de tipos humanos normalmente tidos como simplórios…

O texto é bastante fragmentado, dividido em vários segmentos que correspondem aos ambientes percorridos pelos três protagonistas, malandros jogadores de sinuca, a peregrinar pela cidade de São Paulo em busca de dinheiro. Em companhia deles, atravessamos Lapa, Água Branca, Barra Funda, Pinheiros, e viajamos por uma linguagem transgressora, abundante em gírias e ditos populares que abandonam a habitual condição de clichê, tornando-se hiperexpressivos ao serem inseridos numa prosa inovadora, livre de qualquer convencionalismo.

A principal viagem que João Antônio nos proporciona é sair das mesmices duma intelectualidade vazia e mergulhar em novas formas de expressão, através de uma escrita livre e ousada onde não há terrenos proibidos, ou considerados indignos do campo literário.