Tolstói e o problema cognitivo da introspecção em “A morte de Ivan Ilitch”

Tolstói e A morte de Ivan IlitchAs obras literárias tendem a ser boas armas de uma crítica da cultura. No presente ensaio, foi buscado perscrutar a narrativa A morte de Ivan Ilitch com propósito de compreender como ela pode iluminar nossa própria cultura contemporânea e como obter dessa obra do século XIX críticas contra o século XXI.
O corpo-a-corpo com a obra me permitiu, portanto, compreender, com a falta de introspecção de Ivan Ilitch para realizar indagações sobre sua própria vida, o quanto é fundamental sua leitura em nossos dias.
As perguntas básicas do autoconhecimento — quem sou? O que realmente sinto, desejo e acredito? O que pretendo fazer de minha vida? — parecem conter um elemento intratável que as torna singularmente escorregadias e avessas a um encaminhamento confiável do ponto de vista cognitivo.

Contudo, com o ressentimento e o narcisismo a ele inerente essas perguntas tornam-se muito mais escorregadias e, de modo geral, nem são levantadas. E não realizar essas perguntas é a intenção de evitar a responsabilidade. Ter responsabilidade não é algo que devemos evitar; é algo que precisamos aprender.

Trata-se da Selbstbestimmung[i] descrita pelo filósofo alemão Johann  Fichte (1762-1814). É só participando das relações intersubjetivas, com seus riscos, conflitos e responsabilidades, que eu venho a me conhecer como livre, a desfrutar de minha própria perspectiva e individualidade, e a me tornar uma pessoa realizada entre as outras.

 

*  *  *

Não há como deixar de admitir o surgimento da sempre possível polêmica fraterna que visa um confronto judicativo entre os eminentes poetas do cenário de nossas letras nacionais; porém, certo é que poucos buscam a si o papel dissidente em não inferir aos versos de Drummond a experiência literária cuja estrutura significativa mais consubstanciou uma pauta de sentimentos problematizadores da realidade cotidiana, mesclada a um alto grau de consciência histórica. A impactante tonalidade psicológica derivada do ennui que está contida em A flor e a náusea, problematiza o indivíduo das grandes cidades que não passa de um número perdido na multidão anônima:

……………

Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
Resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
E soletram o mundo, sabendo que o perdem.[ii]

 

A Rosa do Povo situa, também ostensivamente, o indivíduo apegado ao fluxo do cogito pessoal, com vista a tornar-se livre de constrangimentos e imposições sociais. Todavia, esse indivíduo nunca encontra o que carece (O Elefante), o que por sua vez lhe proporciona sempre o sentimento de uma vida menor:

…………

Tristeza de ser exaurido
E peito deserto,
Nem a pobre hora
Da evacuação:
Um pouco de ti
Desce pelos canos,
Oh! Adulterado,
Assim decomposto,
Tanto te repugna,
Recusas olhá-lo:
É o pior de ti?
Torna-se a matéria
Nobre ou vil conforme
se retém ou passa?[iii]

 

A malícia sem penas secretas desses versos reside em demonstrar a pobreza humana da vida moderna mesmo quando cada indivíduo está centrado em uma busca ontológica, posto que essa busca individual por um eu inalienavelmente seu, inaugura o que o historiador Christopher Lasch (1932-1934) denominou experiência subjetiva do vazio. Os primórdios desse processo foram presenciados por Drummond, à época de elaboração e publicação da coletânea lírica A Rosa do Povo.

Bem, de lá para cá, essa experiência subjetiva do vazio eclodiu, a ponto de que Lasch considerou o narcisismo como a melhor metáfora de nossa condição humana atual. Assim, em sua importante obra publicada em 1980, A Cultura do Narcisismo, Lasch assevera que nosso culto da intimidade origina-se não da afirmação da personalidade, mas de seu colapso.
Gradualmente tornado narcisista, o indivíduo contemporâneo “vê o mundo, mesmo em sua vacuidade, como o espelho de si mesmo”[iv].

Não há dúvida para Lasch de que o fato de o narcisista contemporâneo possuir o mundo intrapsíquico tão pobremente povoado consiste, principalmente, na atrofia das tradições e no enfraquecimento do sentido do tempo histórico. Conforme assinala o autor de O mínimo eu, a atrofia das tradições “minou a competência cotidiana, em uma área após outra, e tornou o indivíduo dependente do Estado, da corporação e de outras burocracias” e, portanto, “o narcisismo representa a dimensão psicológica dessa dependência. Não obstante suas ocasionais ilusões de onipotência, o narcisista depende de outros para validar sua autoestima”[v].

Em estudos recentes o psiquiatra e crítico cultural Theodore Dalrymple estabelece críticas a essa condição de atrofia das tradições, destacando que a época que se destine a destruir a influência do costume, da tradição e da autoridade de fato destrói costumes particulares, como também tradições específicas, mas apenas para substituí-los por outros. Nesse aspecto, o autor de Podres de mimados considera que o novo preconceito que está sendo difundido como fenômeno de massa é justamente uma conduta de repúdio a qualquer autoridade preexistente, a modo de cada indivíduo “possa se tornar um agente moral completamente autônomo”:

Livres de qualquer mancha herdada, não temos apenas o direito, mas o dever de fazer tudo do nosso jeito, sem a menor referência àquilo que terceiros já pensaram. Somos átomo morais a nos mover no vácuo, para os quais o passado nada significa, ou ao menos nada que seja positivo ou que mereça ser imitado, ou mesmo mantido. Em vez disso, o passado é algo a ser evitado a todo custo[vi].

De modo semelhante a Lasch, Dalrymple considera que o enfraquecimento do sentido do tempo histórico proporciona enorme dependência do indivíduo às burocracias e ao poder do governo. No entanto, o fenômeno que se debruça com agudeza para descrever é o do ressentimento. Esta é a pior consequência, a ponto de Dalrymple concluir que “nosso período será conhecido como a Era do Ressentimento”[vii].

O ressentimento torna-se, assim, um grande entrave ao problema cognitivo da introspecção, uma vez que o narcisismo inerente a ele sempre nos permite autojustificarmos a fim de concluirmos que sempre estamos certos. Dessa maneira, para Dalrymple

A verdadeira recompensa do ressentimento está em que ele muda as polaridades do sucesso e do fracasso, ou ao menos do valor de ambos. O fato de eu ser um fracasso em determinado aspecto revela que sou não apenas mais sensível do que um bem-sucedido qualquer no aspecto em questão, mas também moralmente superior. Para se tornar um sucesso, ele não teve de lidar com tudo com que eu lidei para me tornar um fracasso. Eu sou de fato melhor do que ele – se ao menos o mundo reconhecesse![viii]

Portanto, a rigor, quando nos debruçamos a analisar nossas vidas de modo ressentido, isto é, assumindo já desde o início uma conduta moralmente superior, não teremos nenhum acesso privilegiado a nossas próprias emoções, valores e intenções; mais do que uma dificuldade ao autoconhecimento introspectivo, o ressentimento levará o indivíduo diretamente ao auto-engano.

 

A morte de Ivan Ilitch – A obra, o autor e a moral

As implicações do auto-engano são tão numerosas e de alcance tão amplo em nossas vidas, pois, com frequência, mal estamos cientes delas. Uma obra literária eficaz para compreendermos o peso dessas implicações na forma de cada indivíduo lidar com sua vida é, com efeito, a novela A morte de Ivan Ilitch[ix], do escritor russo Liev Tolstói (1828-1910). Lembrado sobretudo por seus romances com forte transcendência rumo à epopeia, a novela em questão, publicada em 1886, possui uma narrativa estruturada em um enredo simples.

Quadro do pintor francês Jean Frédéric Bazille (1841-1870), que foi utilizada pela Editora L&PM como capa para o livro “A morte de Ivan Ilitch”, lançado em 1997.

Trata-se, pois, de uma narrativa ambientada em Moscou, onde o protagonista Ivan Ilitch Golovin exerce o cargo de Juiz na Corte Suprema (o que lhe proporciona uma renda de cinco mil rublos, mais uma ajuda de custo), que no entanto falece inesperadamente, com apenas 45 anos. O narrador introduz o leitor na história da vida de Ivan a partir de sua morte, descrevendo como sucede a recepção da notícia pelos seus amigos e os preparativos de seu enterro, organizado pela então viúva Praskovy Fiodorovna. Após isso, temos acesso a sua história, desde sua origem familiar até o seu último suspiro de vida, com um prolongamento na agonia de Ivan decorrente de sua doença e a sua consequente necessidade de conceber a ideia da morte.

No primeiro aspecto, a recepção dos amigos os fazem apenas considerarem as possíveis promoções na carreira de funcionários públicos —

Ao ouvirem a notícia da morte de Ivan Ilitch, a primeira coisa que lhes passou pela cabeça foi o possível efeito na rodada de transferências e promoções para ele ou seus companheiros

— e o sentimento de enfado ao lembrarem “que agora teriam de cumprir todos aqueles cansativos rituais […] assistindo ao funeral e fazendo uma visita de condolências para a viúva”. Não de modo diferente, Praskovy Fiodorovna lamenta a morte de Ivan devido ao fato de sua pensão ser bem inferior a renda mensal do esposo, o que, por sua vez, resultaria em cortes de gasto; desse modo, no funeral tinha o propósito de verificar com os amigos de Ivan a possibilidade de extorquir um pouquinho mais de dinheiro do governo, além do que já tinha direito.

Todos esses acontecimentos decorrentes da morte de Ivan carregam um terror talvez difícil de o leitor compreender objetivamente. A novela de Tolstoi logo de início exprime tão visceralmente a solidão e o isolamento do indivíduo moderno, como o problema da liberdade.

É comumente reconhecida, pois, nas obras literárias de Tolstoi a desolação que suas personagens enfrentam a partir da discrepância entre o ideal e a realidade. Conforme o historiador literário Arnold Hauser (1892-1978), isso se deve porque a moderna literatura russa surge com o propósito de significar “crítica social”[x]. Do ângulo sociológico, a partir da década de 1820, a Rússia enfrenta uma atitude do czar cada vez mais reacionária, fortalecendo a Igreja Ortodoxa, impedindo a entrada de influências ocidentais. A partir dessas transformações políticas, todo entusiasmo por novas ideias, o ardor de transformar a Rússia num país moderno que a intelligentsia russa representava, defronta agora com uma volta a uma espécie de feudalismo, sem que todavia perca o espirito de oposição. Afirmará Hauser que Tolstoi “em sua atitude crítica perante a sociedade é largamente influenciado pelo modo de pensar da intelligentsia[xi].

Embora a obra literária de Tolstoi possa ser empenhada em uma atitude de oposição, obviamente não é possível concebê-la numa estrita categoria política. Segundo Hauser, Tolstoi trata-se, antes de tudo, de “um observador incorruptível da realidade social, um sincero amigo da verdade e da justiça”[xii]. O romance russo de crítica social foi cifrado em estética realista, sendo que especificamente Tolstoi representa o “triunfo do realismo”[xiii].

Será, pois, exatamente de forma realista que o narrador oferece ao leitor a história de Ivan Ilitch. Na abertura do segundo capítulo explica que esta “história de Ivan Ilitch foi das mais simples, das mais comuns e portanto das mais terríveis”. O próprio fato de considerá-la terrível como causa da simplicidade se refere provavelmente ao sentimento de justiça de Tolstoi, como mencionado por Hauser, uma vez que sugere reconhecer que quanto mais simples a vida de um indivíduo maior será a necessidade de ele submeter seu comportamento às expectativas sociais de conduta.

Nessa perspectiva, justamente por Ivan ser le phenix de la famille é que possuía a “característica de sentir-se sempre atraído por pessoas que estivessem em oposições mais altas que a sua. Adotava os modos e pontos de vista delas e logo estabelecia relações de amizade com essas pessoas”. Dessa maneira, Ivan é até promovido e assume um ótimo cargo de magistrado, o que lhe proporciona uma renda confortável, permitindo-lhe considerar até se casar, o que não demora a acontecer. Porém, o narrador salienta que Ivan aspirou pelo seu casamento “sobretudo [por] dois aspectos: o casamento lhe traria satisfação pessoal ao mesmo tempo em que estaria fazendo o que era considerado correto pelas classes mais altas”.

O encanto e a satisfação que Ivan considerou lograr com o casamento ruiu em ilusão antes que completasse dois anos. Embora insatisfeito e desiludido com o casamento, mantinha “as aparências exigidas pelo senso comum”. Este é, com efeito, um termo-chave para a compreensão da vida de Ivan.

Após dezessete anos, surgiu excelente proposta de promoção em sua carreira, o que o fez mudar-se com a família para Moscou. Comprou um apartamento que o deixou muito feliz e o decorou de modo a torná-lo com um “aspecto refinado e elegante”. E ficou ainda mais feliz com o resultado da decoração. A respeito disso, o narrador informa aos leitores o quanto a decoração enquadrava- se nas aparências exigidas pelo senso comum:

Na realidade, o efeito não passava do que normalmente é visto nas casas de pessoas que não são exatamente ricas, mas que querem parecer ricas e o máximo que conseguem é parecer-se com todas as outras pessoas de sua classe: havia damascos, ébano, plantas, tapetes, enfeites de bronze, tudo muito sóbrio e bem polido, tudo aquilo que as pessoas de uma determinada classe social possuem para parecerem outras pessoas.

De forma trágica, logo Ivan adoece, em consequência de uma queda enquanto decorava o seu apartamento. Assim, o seu grande momento de felicidade lhe trouxe exatamente o seu infortúnio e sofrimento. Além da dor física que lhe aflige continuadamente, o pior sofrimento para Ivan consistiu em analisar sua experiência de vida, visto que em sua consciência concebia que toda sua vida fora uma mentira, cheia de atos hipócritas:

Ocorreu-lhe, pela primeira vez, o que lhe tinha parecido totalmente impossível antes – que ele não teria vivido como deveria. Veio-lhe à cabeça a ideia de que aquela sua leve inclinação para lutar contra os valores das classes altas, aqueles impulsos de rebeldia que mal se notavam e que ele havia tão bem aplacado talvez fossem a única coisa verdadeira, e o resto todo, falso. E suas obrigações profissionais e a retidão de sua vida e sua família e sua vida social tudo falso e sem sentido. Tentou defender essas coisas a seus próprios olhos e subitamente deu-se conta da fragilidade do que estava defendendo. Não havia o que defender. “Mas se é assim”, falou para si, “e se eu estou deixando essa vida consciente de que perdi tudo o que me foi dado e não há como remediar – então, qual o sentido?” Ficou deitado e começou a repassar toda sua vida mais uma vez […].

A ideia de examinar a vida e não encontrar nela sentido, de sentir que não viveu como deveria, é a rigor a ideia central para compreendermos a novela no sentido do problema cognitivo da introspecção. Chegar ao fim da vida e desconhecer a própria experiência de vida é o retesamento trágico da história de Ivan Ilitch. Mas não apenas dele. A ideia de uma introspecção a fim de chegar ao autoconhecimento e aperfeiçoar o ser é considerada impossível por muitos estudiosos. O filósofo Nietzsche, por exemplo, concluiu categoricamente que

Aquilo que os homens têm mais dificuldade em compreender, desde os tempos mais remotos até o presente, é a sua ignorância acerca de si mesmos! Não só no que diz respeito ao bem e ao mal, mas no que concerne a coisas muito mais essenciais! A ilusão primordial segundo a qual saberíamos, e saberíamos precisamente e em cada caso, como se produzem as ações humanas, ainda continua viva […] Desse modo, nós somos necessariamente estranhos para nós mesmos, nós não nos compreendemos, nós estamos fadados a nos mal entender, para nós a lei “não há ninguém que não seja desconhecido de si mesmo” vale para toda a eternidade.

O próprio autor de Guerra e paz enfrentou em sua vida essa dificuldade. Pável Bassínsk, em sua célebre biografia “Tolstoi – uma fuga do paraíso”, declara Tolstoi ter sofrido uma importante crise em sua vida derivada a partir do problema de desconhecer a própria experiência e, via de consequência, concluir a nulidade da vida. Mesmo já com o reconhecimento unânime de seu talento literário, Tolstoi opta por uma espécie de exílio entre 1877 e 1884, porquanto no início da década de 1870, “a alma de Tolstoi sentia-se apertada em seus limites”[xiv], o que o levou a uma “crise espiritual”[xv]. Encontra-se no estudo de Basínski o seguinte trecho que Tolstoi teria escrito em seu diário em 1875:

Começou a acontecer algo muito estranho comigo: de início tinha momentos de perplexidade, de pausas da vida, como se não soubesse como continuar vivendo, o que fazer, eu me perdia e caía num desânimo. Mas isso passava e eu voltava a viver como antes. Depois, esses momentos repetiam-se com maior frequência e sempre da mesma forma. Essas pausas da vida consistiam sempre nas mesmas perguntas: Para quê? E o que vem depois?… As perguntas pareciam tão tolas, simples, infantis. Mas bastou eu tocar nelas e tentar respondê-las que vi no mesmo instante que, em primeiro lugar, não eram nem tolas nem infantis, mas profundas e da maior importância na vida; e, em segundo lugar, que não podia e não poderia respondê-las, por mais que pensasse. A minha vida estancou. […] é uma ilusão, que não há o que desejar. Não podia nem desejava saber a verdade, porque já supunha em que ela consistia. A verdade é que a vida é um contrassenso.[xvi]

Bassínski afirma que, durante o período de exíli, Tolstoi não escreveu nenhuma obra literária, nem mesmo sequer um conto. Ao término de seu exílio, em 1884, Tolstoi retoma então suas atividades literárias, sendo que sua primeira publicação será a novela A morte de Ivan Ilitch, em 1886.

Pode-se conceber a partir daí o traço sombrio dessa novela, que não dá nenhum sinal de otimismo, este que, por sua vez, era então uma distinção da literatura russa conforme Hauser, para quem a literatura russa, mesmo em obras com desfechos austeros e tristes, “evidencia uma crença no futuro da raça humana”[xvii].

Sem otimismo sobre a natureza humana, os leitores se deparam, portanto, com uma visão social que não acredita no potencial de aperfeiçoamento, seja do ser ou moral, a partir da qual devemos sempre considerar a imperfectibilidade da existência humana.

 

A relação com os problemas da cultura contemporânea.

Podemos afirmar, sem receio de exagero, que Ivan se trata de um indivíduo que evitou desenvolver suas singularidades; tornou-se um indivíduo que seguiu modelos de vida automática e pouco exigentes aos quais foi condicionado pelos círculos sociais das “altas classes”.

Sem ter conseguido desenvolver uma singularidade própria, encontrou, por consequência, mais dificuldade em responder as indagações a respeito da qualidade e sentido de sua vida. Tais questões lhe aniquilava com uma surpreendente angústia:

“— Não pode ser que a vida seja tão detestável e sem sentido. E se é realmente tão detestável e sem sentido, por que então devo morrer nessa agonia? Há alguma coisa errada”.

“Talvez eu não tenha vivido como deveria”, ocorreu-lhe de repente. “Mas, como, se eu sempre fiz o que devia fazer?”, respondeu, imediatamente descartando essa hipótese; a solução para o enigma da vida e da morte era algo impossível de encontrar.

“Então o que você quer agora? Viver? Viver como? Viver como vivia no Tribunal, quando o oficial anunciava: ‘O júri vai se reunir. O júri vai se reunir!… O júri vai se reunir!’”, repetiu para si mesmo. “Eis a minha sentença. Mas eu não sou culpado”, gritava com fúria. “Para que tudo isso?” E parou de gritar, mas virando-se para a parede pôs-se a repassar a mesma pergunta: Por quê, e qual a razão de todo esse horror?

Com essa abordagem, o centro de nossa preocupação altera-se para o seguinte tema: como essa história de Ivan, ocorrida no século XIX, tem capacidade de iluminar os problemas da cultura contemporânea. Problema difícil de ser abordado, particularmente porque dois grandes problemas de Ivan praticamente não existem mais nesse início do século XXI.

Trata-se de seus tormentos no casamento e sua enorme dedicação ao trabalho. Embora tenha conquistado promoções, e com isto vivido em diferentes províncias até chegar a residir em Moscou, Ivan dedicou-se toda sua vida ao mesmo modo de profissão, considerando-a como principal fonte de riqueza e bem-estar.

Os estudos sociológicos de Zygmunt Bauman (1925-2017) põem em relevo as transformações ocorridas no cenário contemporâneo, permitindo compreendermos as novas condutas individuais que elas suscitam.
Bauman é conhecido por estudar os novos hábitos que surgiram com o que denomina como sociedade líquido-moderna, onde, basicamente, as realizações individuais não podem solidificar-se em posses permanentes.

Ivan solidificou-se em seu trabalho e em seu casamento, representando, assim, a sociedade pesada, onde os horizontes de tempo dos indivíduos eram de longo prazo. Conforme explica Bauman, “para os trabalhadores, os horizontes eram marcados pela possibilidade de um emprego vitalício”[xviii].

Agora, na sociedade líquido-moderna, “essa situação mudou e o ingrediente crucial da mudança é a nova mentalidade de curto prazo que veio substituir a de longo prazo[xix]. Sendo assim, atualmente em nossa cultura contemporânea dificilmente um indivíduo dedicar-se-ia ao emprego tanto quanto Ivan o fez. Ainda segundo Bauman, a mentalidade de curto prazo também afeta os vínculos amorosos, possibilitando que casamentos até que a morte nos separe sejam raridades. Ivan e Praskovya viveram o matrimônio até que a morte os separaram. Desse modo, os tormentos decorrentes da vida conjugal nenhum indivíduo as viverá na sociedade líquido-moderna, pois nesta a vida do indivíduo “é uma sucessão de reinícios”[xx].

Mesmo assim, a vida líquida, que é a forma de vida que tende a ser levada à frente numa sociedade líquido-moderna, é qualificada por Bauman como “uma vida precária”[xxi], principalmente porque a velocidade é tida como importante, no sentido da necessidade de “correr com todas as forças para permanecer no mesmo lugar”[xxii].

A vida de Ivan Ilitch é narrada em onze capítulos curtos, fazendo que o leitor tenha acesso a ela de forma muito rápida. Assim, a própria fatura da novela introduz essa rapidez que vem a ser característica da vida líquida em seu núcleo estético.
Não é de forma alguma difícil imaginarmos Ivan separando-se de Praskovya nas primeiras desilusões da vida conjugal, e provavelmente buscando outra forma de atuar profissionalmente.
Contudo, a parte da história de Ivan que possui grande possibilidade de iluminar nossos problemas culturais atuais é a sua propensão, e de sua família, para o consumo. Bauman salienta que “a vida líquida é uma vida de consumo”[xxiii].

Ivan e todos os membros do círculo social que frequentava gostavam de consumir, o que nos permite conceber que numa vida de tédio facilmente transforma o consumo em insígnia identitária. Se Ivan e Praskovya adoravam dar bailes e jantares mesmo quando o consumo de ambos e a decoração da casa eram praticamente iguais a de todos os outros, imagine-se agora com a quantidade de oferta no mercado. Nesse aspecto, os estudos de Bauman sobre a vida de consumo nos ajuda a compreendermos que o que eram atitudes hipócritas e dificuldade em encontrar uma singularidade para Ivan aumentará de grau para os indivíduos da sociedade líquido-moderna:

Para que a busca de realização possa continuar e novas promessas possam mostrar-se atraentes e cativantes, as promessas já feitas precisam ser quebradas, e as esperanças de realizá-las, frustradas. Um mar de hipocrisia se estendendo das crenças populares às realidades da vida dos consumidores é condição sine qua non para que uma sociedade de consumidores funcione apropriadamente. Toda promessa deve ser enganosa, ou pelo menos exagerada, para que a busca continue. Sem a repetida frustração dos desejos, a demanda pelo consumo se esvaziaria rapidamente, e a economia voltada para o consumidor perderia o gás.[xxiv]

Bem entendido, torna-se nítido que essa sucinta caracterização da vida de consumo corrobora o narcisismo apontado por Lasch como condição da cultura contemporânea. Também a rapidez, a vida em toda a velocidade, o consumo somente para descarte faz o indivíduo permanecer com o mundo intrapsíquico pobremente povoado.

O que há de mais iluminador na novela A morte de Ivan Ilitch, no sentido em que consegue revelar a leitores do século XXI a sua própria realidade presente, consiste no desejo que Ivan alimentava de sentir prazer ao máximo, de divertir-se ao máximo — tudo de modo “solto e despreocupado” a partir da ideia de Il faut que la jeunesse se passe.

A tentativa de ignorar qualquer costume que derive de tradições convencionais é, com efeito, a obsessão do indivíduo de nossa atual cultura contemporânea, o que o faz viver permanentemente sob a ideia de juventude. Lasch explica que a juventude é um signo eloquente a ponto de fazer que o horror a velhice seja uma das expressões mais características da condição atual.

Este terror da velhice e da morte está intimamente associado à emergência da personalidade narcisista como o tipo dominante de estrutura da personalidade na sociedade contemporânea. Por ter o narcisista tão poucos recursos interiores, ele olha para os outros para validar seu senso do eu. Precisa ser admirado por sua beleza, encanto, celebridade ou poder — atributos que geralmente declinam com o tempo. Incapaz de alcançar sublimações satisfatórias nas formas de amor e trabalho, ele percebe que terá pouco para sustenta-lo, quando a juventude passar.[xxv]

Se o indivíduo contemporâneo só consegue validar o seu senso de eu a partir do olhar e dos likes dos outros, ele ainda mais do que Ivan procurará manter “as aparências exigidas pelo senso comum”.

O Ivan de nossos dias se submeterá completamente aos círculos sociais a que pertence. Assim, é provável que nunca tenha nenhum interesse cognitivo de questionar a si mesmo, o rumo de sua vida. Essa possibilidade é também bloqueada com a obsessão pela ideia de juventude, que o faz correr atrás de prazeres e divertimentos.

Percebemos que o indivíduo de nossa cultura atual concebe a autorrealização como um divertimento; por isso sempre possui a ilusão de que alguém, em algum lugar, deve estar se divertindo verdadeiramente. Nesse sentido, podemos concluir que essa busca pelo divertimento gera apenas uma profunda infelicidade. Diversão tornou-se o maior bem, mas a diversão está sempre fora do alcance, disponível apenas em outro mundo inatingível. Enquanto isso, o narcisismo, a inveja e o ressentimento coloram o mundo real.

 

 

[i] Autodomínio e certeza de si.
[ii] DRUMMOND. A Rosa do Povo. São Paulo: Círculo do livro, 1992, p. 13.
[iii] DRUMMOND, 1992, p. 38.
[iv] LASCH. A Cultura do Narcisismo. Rio de Janeiro: Imago, 1983, p. 28.
[v] LASCH, 1983, p. 30.
[vi] DALRYMPLE. Em defesa do preconceito. São Paulo: É Realizações, 2015a, p. 11.
[vii] DALRYMPLE. Qualquer coisa serve. São Paulo: É Realizações, 2015b, p. 261.
[viii] DALRYMPLE, 2015b, p. 260.
[ix] TOLSTOI. A morte de Ivan Ilitch. Porto Alegre: L&PM, 2017. A não ser quando indicado, as citações nesta seção e na posterior, do presente ensaio, são todas deste volume.
[x] HAUSER. O romance social na Inglaterra e na Rússia. In: HAUSER. História Social da Arte e da Literatura. São Paulo: Martins Fontes, 1998, p. 864.
[xi] HAUSER, 1998, p. 865.
[xii] HAUSER, 1998, p. 889.
[xiii] HAUSER, 1998, p. 884.
[xiv] BASSÍNSKI. Tolstói – a fuga do paraíso. São Paulo: Leya, 2005, p. 196.
[xv] BASSÍNSKI, 2005, p. 201.
[xvi] BASSÍNSKI, 2005, p. 218.
[xvii] HAUSER, 1998, p. 871.
[xviii] BAUMAN. A sociedade individualizada. Rio de Janeiro: Zahar, 2008, p.34.
[xix] BAUMAN, 2008, p.35.
[xx] BAUMAN, 2008, p.49.
[xxi] BAUMAN. Vida Líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2007, p. 08.
[xxii] BAUMAN, 2007, p. 85.
[xxiii] BAUMAN, 2007, p. 16.
[xxiv] BAUMAN, 2007, p. 108.
[xxv] LASCH, 1983, p. 254-255.

Rafael Lucas Santos da Silva Autor

Possui Graduação em Letras Português/Espanhol e Respectivas Literaturas na Universidade Estadual do Oeste do Paraná - UNIOESTE.