‘A Morte do Pai’, de Karl Ove Knausgård

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Cada um cria suas próprias fantasias a partir de seus fantasmas. Karl Ove Knausgård recriou sua vida em A morte do pai

Den norske forfatter Karl Ove Knausgård er aktuel med romanen "Min kamp" på dansk.

Situada no meio de um descampado em muitos quilômetros, em que ninguém está por perto para ser vizinho, existe uma pequena casa. Ela fica às margens da BR 392, quase chegando à cidade de Pelotas, desencontrada na paisagem e, talvez por isso, tão marcante. Quando coloquei o olho na capa da obra foi essa paisagem que, imediatamente, apareceu em algum tipo de memória subjetiva. Primeira parte da trilogia Minha Luta, do norueguês Karl Ove Knausgård, a imagem da capa remete a uma mesma casa solitária, perdida em algum ponto da história, completamente solta na paisagem. Ler a história de Karl, que é contada em seis volumes, se transformou numa aproximação dessa casa, da vida real e a da imagem que estampa a edição lançada no Brasil. Criar um sentido, para algo real a partir de um livro, dar carne e algum tipo de alma, foi uma experiências tão nova quanto involuntária.

Aconteceu. Quando dei por mim, tava ali.
Escrito enquanto biografia, A Morte do Pai resume no título a situação-chave que ocorre no livro. Já sabemos que ocorrerá a “morte”, não existe propriamente uma surpresa, por isso o interesse está em acompanhar o significado desse acontecimento na vida do protagonista. E não um significado após o ocorrido, mas como alguém elabora uma imagem, uma representação paterna, que irá ser acessada imediatamente à morte. Acompanhamos o protagonista em sua infância e juventude construindo essa relação com o pai, que foi muito mais presente na sua criação do que a mãe, projetada com doçura pelo filho incapaz de perceber sua ausência. É o pai a figura central, por isso é a partir dele que sensibilidades virão à tona para serem incorporadas, ou repelidas dentro de um caráter em formação, como é o de Karl Ove Knausgård nessa primeira parte do romance. E o protagonista/autor sabe disso, dessa influência, por mais que a rejeite. O duro é que ele sabe…

Observar a intimidade alheia sempre incomoda, mesmo que você seja convidado a isso. Por isso existe uma agonia no livro, uma emergência que torna ele cada vez mais denso à medida que o autor expõe mais e mais a si mesmo – assim como o tamanho que o pai ocupa na sua escrita enquanto autor, e na escrita de si como sujeito no mundo. A intimidade mais exposta de todas é a morte, como ela é organizada dentro da vida de alguém, como ela se inscreve e é processada ao longo da trajetória das pessoas.

Para o coração a vida é simples: ele bate enquanto puder. E então para. Cedo ou tarde, mais dia, menos dia, cessa aquele movimento repetitivo e involuntário, e o sangue começa a escorrer para o ponto mais inferior do corpo, onde acumula numa pequena poça, visível do exterior como uma área escura e flácida numa pele cada vez mais pálida, tudo isso enquanto a temperatura cai, as juntas se enrijecem e as estranhas se esvaem. Essas transformações das primeiras horas se dão lentamente e com tal constância que há um que de ritualístico nelas, como se a vida capitulasse diante das regras determinadas, um tipo de gentlemen’s agreement que os representantes da morte respeitam enquanto aguardam a vida se retirar de cena para então invadirem novo território. (p. 7)

Esse é o primeiro trecho do livro, que é arrebatador, resume a forma do protagonista pensar a morte. Ou, pelo menos, tenta dar um aspecto objetivo que tende o ofuscar qualquer outra possibilidade de entendimento pra si mesmo desse acontecimento. Em diversas instâncias a “morte” participa da nossa vida, mas ela possui formas diferentes de se manifestar, e numa elaboração precisa do que seria o seu sentimento quanto a isso, o autor expõe:

Ela está a nossa volta, somos sufocados por notícias de mortes, imagens de mortos, pois a morte nesse sentido, não conhece fronteiras, é maciça, onipresente, inexaurível. Mas essa é a morte como representação, a morte sem corpo, a morte como pensamento e imagem, a morte como espírito. Essa morte equivale à palavra “morte”, a entidade sem corpo a que nos referimos quando evocamos o nome de um morto. Pois, enquanto a pessoa vive, esse nome se refere ao seu corpo, ao local onde reside, àquilo que faz, com a morte o nome se separa do corpo e permanece entre os vivos…  (p. 208)

O que o protagonista luta, na verdade, é contra o fato de que, mesmo morto, seu pai continuará participando da sua vida – enquanto nome se faz presença viva, morto está apenas seu corpo. Ao se incomodar com, ao que parece, “não estar sentindo nada”, fica evidente que, em algum momento, ele será traído pelos próprios sentimentos. É impossível não sentir, Karl…

E esse momento chega, e chega junto com um choro pesado, uma angústia de querer voltar a ver àquele sujeito que só lhe foi tão íntimo quando da morte, quando observou o rosto do pai com total liberdade, como ele mesmo diz em certa altura. Karl Ove Knausgård precisou de muito tempo/páginas para elaborar, dentro de si mesmo, um repertório capaz de perceber o tamanho do pai em sua vida. Ele precisou da morte para dimensionar isso. Tudo, pelo menos dentro da minha cabeça, se passou dentro dessa casa à beira da estrada, que até então era só tijolo e cimento. Tem mais coisa lá dentro agora, tem gente. Tem o Karl e a sua vida.

Escrever é retirar da sombra a essência do que sabemos. p. 178