Do amor materno e das dores: A mulher de pés descalços

A mulher de pés descalços, da ruandesa Scholastique Mukasonga, é um livro sobre amor materno, dores e reconciliação com o passado

A mulher de pés descalços Scholastique Mukasonga
Scholastique Mukasonga, autora de A mulher de pés descalços | Foto: Juliana Lubini

A mulher de pés descalços se tornou um livro bastante conhecido depois que a autora participou da FLIP, em 2017. O que nem todos sabem é que Scholastique Mukasonga, escritora de origem tutsi, carrega em suas memórias e em seu peito perdas dolorosas.

A escritora perdeu mais de 20 membros de sua família em um genocídio em Ruanda, em 1994. Na época, milhares de tutsi foram dizimados pelo exército de Hutu, em uma guerra civil desumana e sangrenta. Uma das vítimas desse genocídio foi Stefania, a mãe de Mukasonga.

Sempre foi recomendado pela mãe que, se ela morresse, os filhos deveriam cobri-la. No entanto, quando sua mãe morreu, Mukasonga não estava por perto para cobrir o seu corpo. Desse modo, o trauma, a necessidade de reconciliação com o passado, a saudade e a preservação da memória da família são fatores que fizeram com que a autora escrevesse A mulher de pés descalços.

Conforme destacado em um matéria publicada no jornal O Estadão, a escolha por trabalhar sobre essa temática, de acordo com a escritora, foi “[…] porque na verdade ‘mãe’ significa força, mas também amor, afeição, ternura e doçura”. Além disso, a autora mencionou: “Tive grande dificuldade, me senti como se lanças atravessassem o meu corpo enquanto escrevia, mas A Mulher… é o livro ao qual eu me sinto mais vinculada como autora”.

Stefania: uma mulher de força e coragem

Ao longo de seu livro, Scholastique Mukasonga apresenta histórias sobre sua mãe. São belas histórias que mostram o quanto Stefania sempre foi uma mulher de merecida admiração, por sua força e coragem.

A obra se passa por volta dos anos 50, quando a escritora e sua família vivia em exílio em uma terra hostil, sob o olhar de militares do governo Hutu. Stefania, mesmo longe de suas terras, fez questão de preservar os costumes tradicionais ruandeses. Isso era visível tanto no trabalho com a terra quanto no modo de viver e tratar familiares, amigos e vizinhos.

Stefania buscava dar uma vida boa aos seus filhos, mesmo no exílio. Mantinha tudo o que fosse possível da cultura ruandesa para que sua casa fosse o mais acolhedora possível. Trabalhava todos os dias com plantios para que pudesse alimentar seus filhos. O plantio e a culinária também eram parte de sua cultura.

Vivia pensando em esconderijos e rotas de fuga para caso um dia sua família precisasse. Passava os seus dias plantando ou colhendo, cuidando de todos e fazendo o bem aos próximos que, para ela, eram como irmãos.

Fazia com que meninas estudassem, mesmo nunca tendo ela estudado. Auxiliava na escolha das noivas e preparativos de casamentos.  Cuidava das pessoas doentes com remédios feitos por ela mesmo, receitas antigas feitas com plantas medicinais.

Além de Stefania: um retrato da brutalidade

Há alguns retratos da brutalidade humana ao longo de A mulher de pés descalços. A começar ao exílio, que se trata de um arrancar do sujeito de suas raízes, costumes e vivências cotidianas.

A mulher de pés descalços (Nós, 2017)

Havia perseguições brutais ao povo tutsi, sobretudo aos homens. As mulheres acabavam por cuidar de suas famílias sozinhas. Moças eram estupradas por soldados, pois, para eles, estuprar uma ruandesa tutsi era um ato de bravura. Havia, também, grupos de homens com HIV que tinham como missão passar o vírus para mulheres.

Apesar do contexto desestabilizador, Stefania reunia forças para cuidar de seus filhos e marido. Vivia procurando maneiras de protegê-los de qualquer mal. Isso sem deixar de lado sua cultura e costumes que, mesmo parecendo coisas simples, eram coisas que a faziam lembrar quem era ela.

Sem dúvida, A mulher de pés descalços é um livro sobre uma grande mulher. Uma obra que apresenta memórias bonitas e sensíveis, mesmo quando há dor em em muitas recordações.

Estela Santos Author

Editora e colaboradora do Homo Literatus. Mestra em Letras - Estudos Literários (PLE-UEM). Mediadora do #LeiaMulheres. Twitter: @psantosestela