A mulher é uma construção – Poemas de Angélica Freitas

Em Um útero é do tamanho de punho, Angélica Freitas desfaz dicotomias e expõe, com humor, a fragilidade de discursos preconceituosos acerca da mulher

Angélica Freitas
Angélica Freitas, autora de um útero é do tamanho de um punho

Angélica Freitas há alguns anos deixou seu cargo em um jornal e passou a dedicar-se a escrever poemas. Conforme conta em entrevista à revista TPM, a poeta morou durante dois anos na Argentina, onde passou por experiências que a fizeram prestar mais atenção em questões sobre a mulher.

A poeta morou com feministas ativas, acompanhou o aborto de uma amiga e presenciou cenas de discurso agressivo e religioso contra o aborto. Tais experiências a fizeram perceber que, mesmo não protestando por alguma causa,  inquietações acerca da condição a mulher de algum modo a motivavam a escrever.

Falemos de um útero é do tamanho de um punho (2017). O livro é o mais famoso da autora e foi eleito melhor livro de poesia, em 2012, pela APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte).

Veja também: Três poemas de Angélica Freitas

O seu útero é de que tamanho?

Leitores não devem ir ao livro de Freitas esperando encontrar poemas como apenas suporte de mensagens panfletárias. Em um útero é do tamanho de um punho, vemos incorporações de discursos cômicos do cotidiano acerca da mulher, beirando o ridículo.

Discursos sobre como uma mulher deve ser ou se portar. O que significa o modo como ela se veste. A quantidade de comida que ela come. A quantidade de banhos que ela toma. As atividades que ela exerce. Entre outros.

Ao reproduzir discursos preconceituosos sobre a mulher nos poemas, Angélica Freitas aponta como nossa sociedade é construída por dicotomias bizarras e excludentes, tomadas como tradições. Dicotomias como: homem x mulher, mulher bonita x mulher feia, mulher magra x mulher gorda, mulher limpa x mulher suja, mulher mãe (útero) x homem pai etc.

Ao mesmo tempo que apresenta frases e situações de discurso preconceituoso sobre a condição da mulher na sociedade, a poeta põe abaixo tais dicotomias, com um humor crítico. E ao incorporar certos discursos, trata de subverte-los.

 

A mulher é uma construção

Além do título, uma das coisas que chama atenção no livro de Freitas é a afirmação “a mulher é uma construção”. O poema, de mesmo nome, aponta essa noção de construção. “a mulher basicamente é pra ser/ um conjunto habitacional/ tudo igual/ tudo rebocado/ só muda a cor/ / particularmente/ sou uma mulher/ de tijolos à vista”. Afinal, somos o que realmente nos constitui ou somos o que dizem que somos?

Em outro poema, “mulher de vermelho”, temos a visão de um homem sobre sinais de uma mulher. Um certo “eu” acredita que uma mulher estar vestida de vermelho significa busca por um homem. “essa mulher/ alguma coisa ela quer/ pra ter posto esse vestido”. Ou melhor, a busca por ele: “caro Watson, elementar:/ o que ela quer sou euzinho/ sou euzinho que ela quer”. Um exemplo claro dessa visão masculina ou construção absurda.

As figurações sobre a mulher no livro de Angélica Freitas são muitas e são apresentadas em variadas perspectivas. A mulher gorda. A mulher de malandro. A mulher de um único homem. A mulher suja. A mulher limpa. A mulher brava. A mulher boa. A mulher de posses. A mulher dona de casa. A mulher com ou sem útero.

São muitas as mulheres, mas quem é que as adjetiva?

 

um útero é do tamanho de um punho (Companhia das Letras, 2017)

Para que serve um útero?

A partir da leitura do poema que dá título ao livro é impossível não pensarmos na funcionalidade do útero. Ele precisa ter necessariamente uma função?  Expulsar óvulos? Ter filhos?

Quando não serve para gerar filhos ou quando uma mulher não quer ter filhos, serve o útero para quê? Quem manda em nossos úteros? Nós mesmas? O que cabe em nossos úteros? O vazio ou as sombras pesadas dos crucifixos, dos protestos conservadores, das senhoras religiosas?

Esse emaranhado de perguntas não apresenta respostas, nem mesmo tem essa intenção. Na verdade a intenção é fazer você, leitor(a), pensar sobre o que é ser mulher.

Estela Santos Author

Editora e colaboradora do Homo Literatus. Mestranda em Letras - Estudos Literários na Universidade Estadual de Maringá (UEM). Mediadora do #LeiaMulheres. Twitter: @psantosestela