A obra colossal de Roberto Bolaño, não tão borgiana assim

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Roberto Bolaño

De posse do comentário de Ignacio Echevarría, do El País – que chamou a obra de: “O tipo de romance que Borges teria escrito […] Um livro original e belíssimo, divertido, comovente, importante” –, pus me a ler Os detetives selvagens, de Roberto Bolaño. Infelizmente, a popularidade do escritor chileno, assim como sua qualidade, só vem sendo afirmada nos últimos anos, após uma década de sua morte, em 2003.

Mas quem seriam os detetives de Bolaño? Não, esta não é uma história policial comum.

Mexicanos perdidos no México (1975)

O livro de mais de seiscentas páginas é dividido em três partes, sendo que a primeira é intitulada: Mexicanos perdidos no México (1975). O leitor logo entende estar lendo um diário, cujo bom humor, típico da adolescência, revela quem é seu autor: Juan García Madero; um jovem de dezessete anos, recém-chegado ao DF (Distrito Federal, ou Cidade do México).

O início do livro, ou do diário, é digno de registro:

2 de novembro
Fui cordialmente convidado a fazer parte do Realismo Visceral. Claro que aceitei. Não houve cerimônia de iniciação. Melhor assim.

3 de novembro
Não sei bem em que consiste o Realismo Visceral. Tenho dezessete anos, meu nome é Juan García Madero, estou no primeiro semestre de Direito. Não queria estudar Direito, e sim Letras, mas meu tio insistiu e acabei cedendo. Sou órfão. Serei advogado. Foi o que disse ao meu tio e à minha tia, depois me tranquei no quarto e chorei a noite inteira. (pg. 15).

Nas primeiras cento e trinta e poucas páginas, acompanha-se a trajetória de García Madero, seu primeiro contato com os jovens poetas do Realismo Visceral, principalmente, seus líderes: o chileno Arturo Belano e o mexicano Ulisses Lima; sua iniciação sexual, cercado de dúvidas sobre o que seria perder a virgindade; além do mais importante, seus primeiros passos como poeta.

Os detetives selvagens (1976-1996)

Após o final alucinante da primeira parte, ao chegar à segunda parte do livro, Os detetives selvagens (1976-1996), perde-se de vista o jovem García Madero para que os verdadeiros “detetives” do livro passem a ser narrados sob a ótica de várias pessoas. Em vez da narrativa em forma de diário, começa a formação, diria, até que mitológica dos personagens centrais da obra: Ulisses Lima e Arturo Belano. A trama acompanha a ida dos dois à casa de Amadeo Salvatierra, o único que ainda guarda uma revista na qual a poetisa Cesárea Tinajero, na década de vinte, havia publicado um de seus poemas. O interesse de ambos nesta história estava no fato do termo “Realismo Visceral”, utilizado por eles na nomeação do próprio grupo a que pertenciam, era uma homenagem ao grupo de Cesárea, do qual o desaparecimento nunca teve sua causa descoberta.

Ainda que o leitor não saiba neste momento, nem vai entender agora se não ler o livro, nesta parte da obra se percebe que Arturo e Ulisses se separam. Vão para a Europa, França, Espanha, indo depois até para a África, no caso de Arturo, e Nicarágua, no caso de Ulisses.

Esta ida de Ulisses à Nicarágua tem certa dose de humor nonsense, pois o poeta simplesmente desaparece da comitiva mexicana, ficando assim ainda mais lendário. E quando retorna, há o seguinte registro de Jacinto Requena em setembro de 1985:

De todas as ilhas visitadas, duas eram portentosas. A ilha do passado, disse, onde só existia o tempo passado e na qual seus moradores se entediavam e eram razoavelmente felizes, mas onde o peso do ilusório era tal que a ilha ia afundando no rio cada dia um pouco mais. E a ilha do futuro, onde o único tempo que existia era o futuro e cujos habitantes eram sonhadores e agressivos, tão agressivos, Ulisses disse, que provavelmente acabariam se comendo uns aos outros. (pg. 379)


III. Os desertos de Sonora (1976)

Na última parte do livro, Os desertos de Sonora (1976), volta-se ao diário de García Madero. Ao retomar os acontecimentos da primeira parte, Bolaño embarca o leitor num “book-road”, acompanhado do narrador, Arturo Belano, Ulisses Lima, e a puta Lupe, a quem seu cafetão, Alberto, perseguia, seguindo-os num Camaro pelo deserto mexicano.

A viagem pelo interior do México tem mais do que o propósito de socorrer Lupe, é na verdade a busca investigativa por Cesárea Tinajero, a mãe do Real-Viscerealismo.

O final do livro faz jus ao tamanho da obra.

Nem tão borgiano assim

Quanto ao que disse Ignacio Echevarría, do El País, sobre o livro ser uma espécie de romance que Borges teria escrito, confesso que não, jamais. Toda a comparação é injusta, porém esta tem um tom de absurdo até mesmo no caso de escritores como estes.

Os detetives selvagens não precisa disso. É um livro que se sustenta sozinho, diante da genialidade de Bolaño, de seu engenho narrativo, capaz de criar uma história que se utiliza de elementos do romance policial, mas como se os detetives nunca fossem o foco da história, sempre narrados por outras pessoas. Se fosse cinema, seria como se a câmera estivesse sempre contando a história de uma pessoa, enquanto ao fundo aparecessem os dois detetives.

Mas de borgiano não tem nada. Ou melhor, há este parágrafo, na página 395, em que Joaquín Font, agosto de 1987, em sua loucura (nem de longe um louco como o narrado por Faulkner em O som e a fúria (e droga, fiz mais uma comparação desnecessária)), apresenta certo ar de Borges:

Quando já tinha percorrido metade do caminho, tive uma ideia e me virei, mas o Impala não estava mais na rua, visto e não visto, agora está, agora não está mais, a rua tinha se tornado um quebra-cabeça de penumbra a que faltavam várias peças, e uma das peças que faltavam, curiosamente, era eu mesmo. Meu Impala tinha ido embora. Eu, de maneira que não conseguia compreender, também tinha ido. Meu Impala havia voltado à minha mente. Soube então, com humildade, com perplexidade, num arroubo de mexicanidade absoluta, que éramos governados pelo acaso e que nesta tormenta todos nós nos afogaríamos, e soube que só os mais astutos, com certeza eu não estava entre eles, iriam se manter à superfície por um pouco mais de tempo.

os_detetives_selvagensPara quem gosta de romance policial, e principalmente para quem não gosta muito (como eu), este é um grande livro para se ter a perspectiva modificada.

Os detetives selvagens
Roberto Bolaño
Editora Companhia das Letras
622 páginas