A palavra-destino em A palavra que resta, de Stênio Gardel

Escritor cearense lançou seu primeiro romance “A palavra que resta”, em abril deste ano, pela Companhia das Letras

Stênio Gardel estreia no romance – Rascunho
Stênio Gardel, foto divulgação

Em A palavra que resta (2021), romance de estreia do escritor cearense Stênio Gardel, a palavra se manifesta como destino: ponto de partida e de chegada.

“A carta guardava uma vida inteira”

A vida de Raimundo Gaudêncio parece ter seu ponto final em uma carta assinada por Cícero, seu primeiro e único amor. Segundo ele nos informa, ela é ilegível não por seu teor, mas por sua forma. Raimundo Gaudêncio é analfabeto.

O fascínio pelo mistério das palavras é a herança de Cícero para Raimundo Gaudêncio, e elas se convertem, na narrativa, no símbolo de um mundo proibido, porque desconhecido.

A carta-obstáculo, então, se arrasta tempo adentro, impulsionando uma saga de letramento tardio do protagonista. Ela é, pois, o começo para Raimundo Gaudêncio. Ao ambicionar a expressão pelas palavras, ele ambiciona a expressão de si mesmo, embora ainda não o saiba com sua razão:

Ao lado do caderno, envelope encruado, sempre fechado. Raimundo não deixou ninguém ler e envelheceu com o desejo de saber o que ela diz crescendo dentro dele. Feto idoso, rebento tardio. A carta guardava uma vida inteira.

Ao adiar a leitura da carta, Raimundo Gaudêncio adia bem mais do que olhar para trás, e assumir, para si mesmo, que a vida foi o que foi. Ao adiá-la, ele adia olhar para frente, o que é bem mais difícil: o enfrentamento de seu próprio desejo, dobrado dentro dele, um desejo que, a despeito de seus 71 anos, não envelhece.

A eterna espera

Embora o conteúdo da carta remeta a uma experiência do passado, o seu não ler, ou toda trajetória que se desenha nos entornos de sua leitura adiada, é a lembrança da atualidade desse desejo, a verdade do próprio ser. Assim, a verdade da carta – embora pareça residir em seu conteúdo – é, na realidade, o que Raimundo Gaudêncio pode fazer com ela.

Por essa razão, a tarefa de abri-la não pode ser transferida a ninguém. Só Raimundo Gaudêncio pode dar à carta em suspenso seu destino final, que é fazê-lo achar suas próprias palavras.

Esta será, pois, a maior transgressão do protagonista, cujo destino já estava escrito em seu nome:

Raimundo Gaudêncio de Freitas, traço incerto, arredio ao toque do papel. Lápis danado, domado, e ele escrevia o nome pela primeira vez. Setenta e um anos e essa invenção, como ele diz, de aprender a ler e escrever depois de velho. Raimundo não foi difícil. Complicado era Gaudêncio, denso de saudade, as cinco vogais e acentuado. Freitas era feito de sangue (…) O futuro estava escrito na frente dele, era o presente do pai, pai de família, dono de um pedaço de chão, assinando com o dedo quando a palavra falada não bastasse.

A sexualidade reprimida e o velho conflito com a figura do pai

Apesar de Raimundo no nome, o protagonista não rima com o vasto mundo de Raimundos, como nos inesquecíveis versos de Carlos Drummond de Andrade. É a porção Gaudêncio nele que o parte (seu segundo nome, pelo qual só Cícero o chama), atraindo-o para além das fronteiras onde a identidade dos homens os antecede, pendurada no pescoço, única e coesa.

Desviado dessa origem, expressa em uma norma sexual tratada como natureza, Gaudêncio está entregue aos perigos de assumir uma face desconhecida e temida pela maioria, como por ele mesmo.

A aquisição formal da língua escrita é passaporte para a afirmação de uma identidade própria, um primeiro passo para a emancipação dos deveres impostos pelo patriarcado, repassados a ele pela tradição familiar.

Não por acaso, no centro da sexualidade conflitada do protagonista está a figura do pai, Damião, que não sabe esperar outra coisa do filho além de que ele cumpra seu destino: tornar-se, como ele mesmo, macho e pai de família, mais um elo em uma corrente ancestral.

O desejo de Raimundo Gaudêncio o expulsa do paraíso do pertencimento e o condena a ser gauche, entre outros, na sombra. Mas, mesmo longe de casa, as amarras que o prendem à sabedoria doméstica são profundas:

Enfiei a carta no bolso, a mãe já tinha me dado a benção, do jeito dela mas deu, o pai não tinha chegado, guardei minha irmã num abraço e saí, mas não sei se algum dia saí desse buraco (…).

A voz do pai continua a ressoar dentro do protagonista, instigando nele autocensura e reações paradoxais de vergonha, hostilidade e aversão para com outros homossexuais. A presença desta nuance – a complexa internalização do machismo e da heteronormatividade por seus próprios alvos – aprofunda a discussão do preconceito sexual, distinguindo o romance entre outras ficções contemporâneas que lidam com o tema.

A reprodução dessa violência, perpetuada com o apoio de discursos religiosos, é retratada em diversos momentos pela narrativa. Um dos mais dramáticos é quando Raimundo Gaudêncio, por medo de que sua homossexualidade fosse exposta, agride a travesti Suzzanný, quem o acolhe na cidade grande.

Em tempo, a palavra

O viés de denúncia social em A palavra que resta também fica por conta da discussão da durável realidade do analfabetismo no Brasil.

A potência atribuída à palavra, no romance, recria experiências do autor, Stênio Gardel, em seu cotidiano profissional. Funcionário em um cartório eleitoral, o cearense de Limoeiro do Norte, interior do Ceará, atendia, diariamente, pessoas que não sabiam assinar o nome. Dentre elas, muitas idosas.

O romance, assim, mostra-se contaminado pela urgência em tratar da palavra escrita como uma chave de ouro em nosso país, sem a qual não se abre porta alguma. Tanto mais pesa quanto mais exclui, tanto mais exclui quanto mais pesa. Para isso, era preciso uma narrativa que desse conta de traduzir esse perturbador contrassenso.

Na obra, a carta guardada por toda uma vida, e que prometia uma mensagem do outro, torna-se o gesto simbólico do próprio indivíduo que, aos poucos, vai se qualificando leitor de si mesmo, expandindo-se em linguagem reconhecível, num desdobrar e redobrar-se contínuo. Afinal, só escreve quem (se) lê. Ler-se a si mesmo não termina, e onde toda vida começa.

Naturalmente que essa alfabetização libertadora – de que já Paulo Freire nos falava – toma tempo, pois ela é a matéria-prima de nossa própria comunicação íntima.

A palavra que resta é um romance sobre essa palavra que tarda, mas não pode ser apressada. Dela, o caminho de Stênio Gardel como escritor nos dá amplo testemunho: só aos 41 anos, após uma vida inteira de experiências acumuladas com a literatura, ele nos remete a sua “carta”.

Referências:

BARBOSA, Diego. A palavra que resta, de Stênio Gardel, e a força da carta que guarda uma vida. Diário do Nordeste, 18 abr. 2021. Disponível em: https://diariodonordeste.verdesmares.com.br/verso/a-palavra-que-resta-de-stenio-gardel-e-a-forca-da-carta-que-guarda-uma-vida-1.3074140. Acesso em: 13 jun. 2021.

GARDEL, Stênio. A palavra que resta. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 2021.

Nathalia Campos
Formada pela UFMG, poeta, ensaísta, professora e pesquisadora de literatura. É mineira da gema, tia da Lara, cultiva as revoluções subjetivas e combate o micróbio do elitismo intelectual. É refém do chocolate e das verdades móveis. Está sempre com fome e em muitos lugares ao mesmo tempo.
Nathalia Campos
Formada pela UFMG, poeta, ensaísta, professora e pesquisadora de literatura. É mineira da gema, tia da Lara, cultiva as revoluções subjetivas e combate o micróbio do elitismo intelectual. É refém do chocolate e das verdades móveis. Está sempre com fome e em muitos lugares ao mesmo tempo.
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