A poesia marginal e a poética de Chacal

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Chacal

Historicamente, não há nada sobre a poesia marginal antes do tropicalismo, que ocorreu no final da década de 60. Foi a partir do movimento tropicalista que todas as tendências musicais caíram em uma salada-de-frutas, os muros que separavam a contracultura e a MPB caíram, conquistando, assim, o público roqueiro e intelectualizado. Dessa forma, ampliou-se o interesse dos jovens pela poesia e por tudo aquilo que fosse semelhante a ela. E, nessa ocasião, o endurecimento do regime após o AI-5 desvia à área artística todo e qualquer tipo de contestação política. Tudo isso  foi o suficiente para que fosse caracterizado um surto de produção poética um tanto “clandestina”, o que muitos teóricos denominaram como a poesia marginal ou geração mimeógrafo.

É na década de 70 que a  poesia marginal nasce, e por ser algo coletivo, foi caracterizada como um surto poético e  um novo movimento cultural, do qual o tropicalismo foi o precursor.  Este  novo fazer poético é fruto do choque entre a atmosfera repressiva no plano político interno e a metamorfose comportamental, que se verificava não só no Brasil, mas  em toda a esfera mundial. Nessa época, o país estava  sob o domínio da ditadura, e a pressão social pela redemocratização estava a todo vapor (imagine se você fosse um jovem poeta na época da ditadura).

Embora a palavra “marginal” pareça remeter, literalmente, a algo fora da lei,  na poesia ela consiste no estilo de divulgação e publicação. Nos anos 70, os poetas vivam a contracultura ao publicar seus livros de forma artesanal, em contraposição com o mercado editorial já fortemente instaurado. A impossibilidade de acessos dos poetas ao sistema editorial não era apenas por critério de qualidade, mas também por controle ideológico. Os editores não queriam que seus livros fossem barrados pela censura. Dessa forma, os escritores usavam a máquina de escrever  e o mimeógrafo para levar ao publico os seus textos. Assim, a divulgação era ágil e de baixo custo, acessível a todos. Os livros eram feitos em pequenas tiragens e vendidos pelos próprios poetas em todos os cantos possíveis, desde bares até as portas de teatros.  Por isso é que a denominação geração mimeógrafo foi eternizada. Esta geração é, antes de qualquer coisa, uma atitude.

Em relação às questões de forma e conteúdo, a poesia marginal, à primeira visão, parece resgatar versos sem métrica regular e sem rima, com tom irônico, de linguagem coloquial e que representam situações cotidianas, que foram  apresentadas pelos escritores que reformularam a literatura brasileira na Semana de Arte Moderna, de 1922. No entanto, os poetas marginais foram além da perspectiva de unir vida e poesia.  Eles diferem dos escritores da semana de 22 principalmente por terem deixado de lado o politicamente correto e o conservadorismo. Os poetas passaram a usar como recurso de produção poética os efeitos libidinosos, como palavrões, assuntos como droga, sexo e rock and roll. Também passaram a usar  palavras em inglês e francês nos poemas.

A ruptura da poesia marginal  está tanto na forma estética, quanto no conteúdo.  Ela vai contra a corrente de todos os modelos estéticos rigorosos, organiza-se em estruturas rápidas e breves,  a leitura é imediata, às vezes com o intuito de zombar  ironicamente determinada situação ou apenas ser engraçada. Os recursos retóricos contribuem, muitas vezes,  para a fácil assimilação, não só do conteúdo, mas também como forma de efetivar a poesia como algo próximo da comunicação oral.  Afinal, foi assim que a poesia surgiu: na oralidade.

Ao abordar temas terrenos, pautados no momento histórico e de forma subjetiva, a literatura marginal consistia em uma crítica ao que era considerado cânone na época. Ela preencheu uma parte do vazio deixado pela repressão ostensiva aos movimentos organizados de contestação política.

É importante destacar que este novo “tipo” de poesia causou grande burburinho no meio acadêmico. A  Academia Brasileira de Letras, por exemplo, não enxergava,  nesta poesia, nada além de um simples valor sociológico subjetivo,  pois os versos eram “sujos” e “pornográficos” e produzidos por “ilustres desconhecidos”. Diante a crítica literária, os poetas marginais foram encarados como alienados, inconsequentes e porra-loucas, assim como na música foram encarados Caetano Veloso e Gilberto Gil. Foram vistos como traidores do povo, pois, estavam à margem do tabuleiro institucional. Em suma,  as tantas críticas voltadas a esta poesia advém, sem dúvida, de uma mudança radical do fazer poético.

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Em 1975, foi publicada uma antologia de poemas da dita geração mimeógrafo, chamada 26 poetas hoje, pela editora Aeroplano. Organizada pela escritora e crítica literária Heloísa Buarque de Hollanda, a emblemática obra fez o contrário do que faziam os poetas da geração mimeógrafo, pois abriu as portas do mercado editorial para a grande maioria dos que dela participaram. Dentre os poetas marginais da antologia que, hoje, possuem grande visibilidade no mercado editorial, destacam-se Chico Alvim, Ana Cristina Cesar,  Antônio Carlos de Brito (Cacaso), Charles Peixoto e Ricardo de Carvalho Duarte (Chacal).

Como ponto de partida para que seja possível observar como a poesia marginal inovou, a seguir exponho poemas de Chacal e breves análises,  mas antes um pouquinho sobre o poeta:

 

 

Ricardo Chacal, como também é chamado, nasceu em 24 de maio de  1951, no Rio de Janeiro,  foi aluno de Comunicação Social na Universidade Federal do Rio de Janeiro. É um letrista,  poeta  e um dos primeiros a usar o mimeógrafo como fonte de divulgação da sua poesia. O  carioca usa de vários recursos inovadores, como, por exemplo, os versos que iniciam com  letras minúsculas, nomes com letras minúsculas,  pontuação nem sempre presente,  abreviações de palavras, métrica variada, versos breves e que, tematicamente, aproximam-se  do cotidiano. Além de tudo, a poesia chacaliana  retrata os resíduos do mundo e a desordem  nele existente. Veja os poemas a seguir:

 

PREZADO CIDADÃO

colabore com a lei
colabore com o light
mantenha a luz própria

(CHACAL, 2007, p. 355)

 

O título, Prezado cidadão,  remete a uma espécie de cartilha que devemos seguir,  já demonstra que o poema, evidentemente, tratará de uma temática social. É um terceto sem rimas, breve e com verbos no imperativo, o que evidencia que se trata de leis da sociedade que devem ser seguidas. O poema é uma sátira ao padrão de vida vigente. O poeta usa a própria cultura para satirizar as suas antipatias sociais.

A seguir, o poema Como era bom é de tom saudosista. As teorias de Karl Max e Sigmund Freud já não são suficientes para explicar o mundo em que vivemos, pois está sempre em constante mudança. O poeta sente falta do tempo em que tudo era mais claro e simples: “tudo era clarinho limpinho e explicadinho / tudo muito mais asséptico”.  O poema  apresenta um momento passado que não volta mais, o mundo, hoje, é mais complexo.  O poeta faz o possível para relacionar-se bem com o que é novo, com o que está por vir e com a complexidade do mundo moderno: “descobri que é preciso / aprender a nascer todo dia”.

 

COMO ERA BOM

 o tempo em que marx explicava o mundo
tudo era luta de classes
como era simples
o tempo em que freud explicava
que édipo tudo explicava
que tudo era clarinho limpinho e explicadinho
tudo muito mais asséptico
do que era quando nasci
hoje rodado sambado pirado

descobri que é preciso
aprender a nascer todo dia

(CHACAL, 2007, p.337)

 

Em seu poema Exp, Chacal aproxima-se do cotidiano através da linguagem dos intenetês, abreviando as palavras “qq” (qualquer), “vc” (você),  o q  (o que)  e “q” (que), o poeta demonstra o quanto temos presa nesta vida, inclusive na hora de escrever, estamos sempre correndo. Porém,  não é somente isso, o poema também exprime a resistência em viver sob as convenções sociais impostas a nós, seres humanos, durante todo o tempo. Temos de seguir determinadas “regras” para que possamos viver em harmonia com o meio social e, assim,  acabamos deixando de lado o que realmente desejamos para a nossa vida.   O poema, acima de tudo, é um apelo ao viver e à vida.

 

EXP

mal vc abre os olhos
e uma voz qq vem lhe dizer
o q fazer o q comer
como vestir

todos querem se meter
numa coisa que só
a vc compete:
viver a sua vida

deletar, destruir, detonar
esses atravessadores

a vida é uma só
e a única verdade
é a sua experiência

não terceirize sua vida
viva viva viva
essa é a sua vida

(CHACAL, 2007, p.106)

 

E, por último,  um pouco do humor ácido de Chacal. No poema É proibido pisar na grama, o poeta usa do bom e velho humor como instrumento para construção poética. Se não é possível pisar na grama, pois que deitemos e rolemos.

 

É PROIBIDO PISAR NA GRAMA

 O jeito é deitar e rolar

(CHACAL, p. 214)

 

Em resumo, podemos dizer que o gênero poesia recebe o termo “marginal” justamente por representar uma recusa a todos os modelos estéticos, sejam eles tradicionais (ou seja, clássicos), ou de vanguarda (como o poema concreto e o poema processo).  E, também, pela ruptura não só na forma, quanto no conteúdo.

Ao deixar o conservadorismo de lado e o politicamente correto, claramente instaurados em todo o país, na década de 70,  a poesia passou a ser um meio de expressar artisticamente tudo o que pensamos e ansiamos, ela passou a ter um caráter mais crítico e humanista. Com a poesia marginal e, sobretudo, com a poética de Chacal, é possível perceber que a poesia não é apenas uma camada da vida, mas a própria vida, pois ela reflete as tensões vividas pelos seres humanos em seus  respectivos períodos históricos.

Evidentemente, a  poesia marginal pode ser estudada  por meio de abordagens que vão além dos estereótipos da poesia da “curtição”, do “desbunde” ou  a poesia efêmera do “mimeógrafo”.  Representou um grande um grande marco histórico e cultural do Brasil, e ainda representa muito da nossa cultura, afinal, floresceu em pleno nacionalismo desenvolvimentista da ditadura militar.  E se, como dizem muitos críticos, a poética marginal não teve um estilo definido no poema,  sem sombra de dúvida definiu um novo modo de ser poeta.

 

Referências

 

MATTOSO, Glauco. O que é poesia marginal? São Paulo: Brasiliense, 1982. 

26 poetas hoje, Organização de Heloisa Buarque de Hollanda, 6a ed. -Rio de Janeiro: Aeroplano Editora, 2007.

CHACAL, Ricardo. Belvedere [1971-2007]. São Paulo: Cosac Naify, 2007.

CABANÃS, Tereza. A poesia marginal e os novos impasses da comunicação poética. Revista de Letras, São Paulo, 2005.