A receita de Ano-Novo de Drummond

Um pouco da perspectiva poética de Carlos Drummond de Andrade sobre Natal e Ano-Novo

Carlos Drummond de Andrade: foto reprodução

A edição

A Companhia das Letras lançou em 2015 uma edição belíssima com poemas de Carlos Drummond de Andrade que falam explícita ou implicitamente das festas de fim de ano. A seleção foi feita pelo neto do autor, Pedro Augusto Graña Drummond.

O livro ainda conta com ilustrações de Andrés Sandoval, retratando, nas cores do Natal, vermelho e verde, Drummond em paisagens festivas.

Os temas presentes nos poemas vão desde o menino Jesus até o Papai Noel e o espírito natalino, passando pelo presépio, pela reunião familiar e pelas promessas de fim de ano. A edição é aberta com votos de boas festas do poeta, que deixa alguns “versinhos” de esperança:

Amanhecer: o mais antigo
sinal de vida sobre a Terra.
Amanhecer: ainda o mais novo
sinal de vida sobre a Terra.
Amanhecer e vida humana
se entrelaçam na mesma luz.
Mas andemos. Que tal esses ornatos
de rua, a celebrar os velhos ritos?
Eu acho que o Natal ronda por fora
dos signos natalinos: sua rara
contextura de sonho e de esperança
num Deus garoto abriga-se no esconso
particular da alma; esse, o presépio
mais real, mais tocante. esse, o cardápio
da ceia imaterial, sem mesa posta
e sem badalação, sem jingle e cesta.

Lirismo e crítica natalina

Drummond escreve sobre a bondade e a beleza dessa época, os costumes do Natal nos trópicos, sem neve, e o presépio de Pipiripau, situando a famosa festa no clima brasileiro. Para ele, o nascimento de Jesus representa um alento na realidade dura do nosso povo. O menino sempre traz uma mensagem de esperança e proteção:

O menino, apenas um menino,
acima das filosofias, da cibernética e dos dólares,
sustenta o peso do mundo
na palma ingênua das mãos.

Papai Noel também é abrasileirado pelo poeta, que, apesar de sua visão predominantemente otimista e lírica, não deixa de ser crítico:

Père Noël, Father Christmas, Papai
adocicadamente brasileiro,
velhacamente brasileiro,
velhacamente avô de dez milhões de netos
alheios e informados,
tão afeito à mentira que mentimos
o ano inteiro e em dobro no Natal,
não te cansas, velhinho,
de jogar nosso jogo, de vender-nos
uma xerox da infância com borrões?
Não te enfada
ser mensageiro da mensagem torta
com método apagada
tão logo transmitida?

Em “Papai Noel às avessas”, o Bom Velhinho entra pela porta dos fundos, pois no Brasil não há chaminés, e usa um lenço vermelho de alcobaça. Em “Conversa informal com o Menino”, ele confessa seu medo de fazer muitos versos de Natal e “industrializar o tema”, pois só se lembra de Cristo nesta época.

Ilustração de Andrés Sandoval

Drummond também demonstra seu lado romântico no poema que destina à esposa Dolores:

Mais uma vez, querida, no Natal
estamos juntos, hoje como outrora.
O tempo não passou, pois afinal
a hora de amar é sempre a mesma hora.

Desejos de Ano-Novo

O poeta nos lembra que, para que o ano seja novo, precisamos também nos modificar. E faz seus votos:

Eu já nem desejo muito
para mim e para todo ser vivo,
irmão ou desconhecido:
o dia pacificado,
a noite serena. Alguém
acha meu voto excessivo?

Ele descreve cenas cotidianas do mês de dezembro, como velas acesas, o cheiro do fogão, pés caminhando na neve ou no sertão, brincadeiras, o trem, a missa, o doce, o baile. E conta um caso curioso de um amigo que envia a si mesmo um cartão com a frase “Calma, rapaz”, já que ninguém costuma desejar calma para apreciar as coisas boas. Parece uma ótima recomendação para essa época tão agitada.

Ilustração de Andrés Sandoval

Em “Previsão do tempo para 1967”, afirma que o ano será “Bom, se o ajudarmos a ser bom”. Tudo depende, portanto, da nossa postura diante da mudança de ano. É o que também transmite no poema que dá título ao livro, um de seus mais famosos, onde nos dá, enfim, sua receita de Ano-Novo:

Para você ganhar belíssimo Ano-Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz
[…]
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
[…]
Para ganhar um ano novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano-Novo
cochila e espera desde sempre.

Referência

ANDRADE, Carlos Drummond de. Receita de Ano-Novo. Concepção e seleção de Pedro Augusto Graña Drummond; ilustrações de Andrés Sandoval. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

Créditos Homo Literatus

Esse texto é de autoria de Nicole Ayres, tendo tido revisão de Evandro Pedro Konkel e edição de Mario Filipe Cavalcanti, Editor-chefe do HL.

Nicole Ayreshttp://sentimentosemcompotas.blogspot.com.br/
Professora de francês, Mestra em Teoria da Literatura pela UERJ, escritora e editora assistente no Homo Literatus. Apaixonada pelas palavras e pela vida. Não sabe definir os limites entre seu fazer artístico, professoral e humano, e nem pretende.
Nicole Ayreshttp://sentimentosemcompotas.blogspot.com.br/
Professora de francês, Mestra em Teoria da Literatura pela UERJ, escritora e editora assistente no Homo Literatus. Apaixonada pelas palavras e pela vida. Não sabe definir os limites entre seu fazer artístico, professoral e humano, e nem pretende.
Revisão por
Evandro Konkel
Catarinense, apaixonado por educação e por leitura
Editoria por
Mario Filipe Cavalcanti
http://editora.cepe.com.br/autor/mario-filipe-cavalcanti
Editor-chefe do Homo Literatus, é recifense de nascimento, paulistano de contemporaneidade, Bacharel em Direito pela UFPE e advogado em Propriedade Intelectual e Privacidade, escritor com ênfase em contos, Prêmio Pernambuco de Literatura. Mestrando em Ciências da Comunicação pela USP, algumas coisas mais e, sobretudo, absolutamente nada.
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