Crônica: A Senhora de Barba Que Não Grita Para Ser Ouvida – Diogo Marins Locci

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O ônibus estava há mais de cinco minutos parado no ponto. De duas uma: Ou subia alguém em uma cadeira de rodas ou o veículo estava arrebentado. Aguardei esses bons cinco minutos e, sem que viesse nenhum outro, peguei este mesmo. Ele estava lotado. Não de um jeito que impossibilita a locomoção, mas daquela forma que é quase impossível pegar o dinheiro se ele estiver na parte de trás da mochila. Por sorte o meu dinheiro estava no bolso. Saquei a nota, a moeda e ofereci ao… cobrador?

Sentado no banco destinado ao portador deste ofício, uma senhora morena, bem caricata, com um tecido enrolado na cabeça que mais parecia um turbante, olhando para mim como se já esperasse meu espanto. “Não sou a cobradora não! O motorista que está cobrando. Eu não sou cobradora não!”. – Seguido de risadas de dentes brancos e longos. Consenti com as risadas e decidi deixar para pagar o motorista mais tarde, já que estávamos passando por outro ponto e mais passageiros punham-se a minha frente, pagando com os cartões. A senhora que ocupara o assento do cobrador não chamou a atenção por estar no lugar dele, mas sim por ostentar, abaixo dos lábios, do lado esquerdo, um chumaço de pelos brancos que tinham, no mínimo, quatro centímetros cada.

Seus dentes eram tão brancos! Por que a natureza deszelou tanto daquele fragmento de face que parecia olhar para mim bem mais do que seus olhos? A senhora decidiu falar comigo. Perguntou onde ficavam as faculdades, porque haviam pedido para ela descer no ponto posterior à segunda delas. Expliquei e ela agradeceu minha atenção, demonstrando um real interesse nas minhas palavras, como se minhas indicações tivessem clareado seu dia. A pergunta foi procedida por uma conversa da mais variada possível. Em um momento foi falado algo sobre uma patroa que disse que demitiria sua colega, no que a senhora respondeu que a deveria demitir em seguida, a menos que pagasse o salário da outra para ela, pois não trabalharia por duas. As suas palavras vinham tímidas, porém empolgadas, em uma mescla que dificultava um pouco meu entendimento.

Percebi então que isso não era empecilho nenhum. Nossa conversa não precisava da minha opinião concreta sobre nada. A senhora quis ser ouvida. Quem sabe, e isso não é uma hipótese muito difícil de imaginar, ela quis ser ouvida sem que precisasse ouvir piadas sobre seu chumaço de pelos. Quis ser ouvida justamente pra não ter que ouvir. Quis ser ouvida depois de só ter ouvido o caminho que deveria seguir. Ser ouvida para que quem a ouvisse não a visse, ou não a precisasse ver.

O ponto da senhora chegou. Ela se despediu. Talvez seu dia estivesse iluminado, talvez ela tenha se lembrado de seu chumaço de pelos e tivesse temido que eu os apontasse, talvez o costume a tenha feito se esquecer deles e a coagido para que simplesmente conversasse comigo por nada mais específico. Talvez eu a tenha iluminado um pouco seu dia. Talvez.

Dentro de tantas possibilidades, o fato é que a senhora do chumaço de pelos abaixo dos lábios levou um pouco de mim, enquanto eu tento transportar seu desejo de ser ouvida para alguns que também se disponham a ouvi-la através dos mistérios ensurdecedores da linguagem.