A Tempestade, de William Shakespeare a Neil Gaiman

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“Somos feitos da matéria dos sonhos; nossa vida pequenina é cercada pelo sono”.
– William Shakespeare, em A Tempestade.

Shakespeare escreveu tragédias, comédias e, acredite, contos de fadas. Leia Sonho de uma noite de verão ou A Tempestade; e seja crítico, escritor ou leitor comum, não poderá contrariar a afirmativa que o bardo inglês era: realmente um escritor de fantasia. Magos, ninfas e elfos estiveram nas peças dele, mostrando que não havia um preconceito; ele caminhava pelos vários gêneros sem afirmar que um era menor ou maior que o outro.

Particularmente, poucas coisas me tocam na literatura como histórias que se misturam, diluindo-se entre o novo e o velho, o popular e o clássico, que as vezes também já foi popular; e quando leio Neil Gaiman vejo isto saltando das páginas, feito um duende nervoso. Mas Gaiman foi além da literatura em seu formato tradicional, levando-a aos quadrinhos. Sandman, sua criação mais aclamada, mistura histórias orientais, mitos africanos, lendas árabes, entre outros. Contudo, há duas edições especiais dedicadas a Shakespeare; nelas, Neil Gaiman justifica o talento do bardo como inspiração concedida por Morpheus, o Lorde dos sonhos. Em contrapartida, o dramaturgo deveria escrever duas peças para Morpheus; e são as duas que aparecem em Sandman. Na edição 19, Sonho de uma noite de verão, a peça é dirigida por Shakespeare em uma apresentação para Morpheus e seus convidados, criaturas que vão desde o reino das fadas até Robin Goodfellow, personagem de lendas inglesas, também conhecido como “Puck”. Na última edição de Sandman, nº 75, Gaiman mostra Shakespeare escrevendo a peça A Tempestade; isto vem a calhar, pois esta também é a última peça escrita pelo autor;

fechando assim a história dos quadrinhos com uma história real. Bom, o que é real? (isto é uma pergunta para outro texto, embora eu ache que tudo é um sonho).

Certo, mas o que há de fascinante nisso tudo?

Dois autores “pops” se reencontrando. Neil Gaiman é reconhecido por suas histórias que tecem pontes entre o mito e a realidade; e a mesma leitura é possível na obra de Shakespeare. Veja bem, não estou propondo que os dois são compatíveis, ou algo do tipo. Toda comparação é injusta. O que levanto é a paixão de contar histórias, pegando tudo que está ao seu redor, como Gaiman vai fantasiando, em Sandman, que Shakespeare tenha feito em sua última peça, A Tempestade; desde uma cena na taberna aos comentários maldosos de um amigo.

Na fala do animalesco personagem de Shakespeare, Caliban, conspirando para matar o mago da história, ele diz:

“Mas, primeiro, é preciso que te lembres de lhe tomar os livros, pois, sem eles, é um palerma como eu, já na disponde espírito nenhum sobre que mande. Todos, como eu, lhe têm ódio entranhado. Basta queimar-lhe os livros”.

O seria de nós sem estes sonhos que são as histórias de ficção?

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