A Trégua: O triste com vocação à alegria

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“Un gran amor puede ser una tregua en la vida.”

A Trégua (1960) é, sem dúvidas, um dos melhores romances que já tive o prazer de ler.  Uma história comum, de um homem comum, escrita em forma de diário pessoal.  Martín Santomé (o dono desse diário) é um viúvo de 49 anos, que criou três filhos trabalhando num emprego rotineiro, sem emoções, num escritório sem graça e prestes a se aposentar, até que o amor de Laura Avellaneda, uma moça bem mais nova, lhe proporciona a tal trégua em sua vida apagada.

“Esta tarde cuando venía de la oficina, un borracho me detuvo en la calle. No protesto contra el gobierno, ni dijo que yo y él éramos hermanos, ni tocó ningún de los innumerables temas de la beodez universal. Era un borracho extraño, con una luz especial en los ojos. Me tomó de un brazo y me dijo, casi apoyándose en mí: ‘¿Sabés lo que te pasa? Que no vas a ninguna parte’”.

Apesar de a narrativa tratar de um homem simples e seu cotidiano comum, a forma como Mario Benedetti apresenta o personagem, a maneira como esse personagem é tão bem construído, faz com que o leitor, de certa forma, experimente os sentimentos, emoções e sensações que Santomé relata em sua caderneta (diário). Além da forma extremamente cativante como os personagens são construídos, a cadência que Benedetti impõe à narrativa é algo nada mais, nada menos que genial. Antes de Avellaneda surgir na vida de Santomé, o tempo passa vagarosamente, quase se arrastando. Depois dela, a vida, até então cinzenta do protagonista, toma outro ritmo, mais acelerado, cheio de hesitações, inseguranças, dúvidas e é claro, a ternura, o deslumbramento e o amor entram em voga no romance.

“(…) ‘¿Puedo pedirte un primer favor?’ ‘Podés’, respondí, y ya tenía mis temores. ‘Dejás que me vaya, así sin otra cosa? Hoy, sólo por hoy. Te prometo que mañana todo irá bien.’ Me sentí desilusionado, imbécil, comprensivo. ‘Claro que te dejo. No faltaba más.’ Pero faltaba. Cómo que no faltaba.”

A insegurança de Martín Santomé em relação a Laura Avellaneda (22 anos mais nova), a solidão, a felicidade possível e as surpresas da vida norteiam esse romance formidável. Escrito com sutileza, fluidez, poesia e uma boa dose de realidade “A Trégua” é um livro indispensável de Mario Benedetti e da literatura latino-americana.

Pensei em contar o final surpreendente do livro, já que acredito que a maneira como a trama é contada é tão relevante quanto a história propriamente dita, mas prefiro tentar aguçar a curiosidade dos leitores do blog e ver se alguém se interessa em sair em busca de “A Tégua”.

“(…) Al principio, me resistí a creer que eso pudiera ser la felicidade. Me resistí con todas mis fuerzas, después me di por vencido y lo creí. Pero…”

Bom, faltam-me adjetivos superlativos para qualificar essa obra-prima. O certo é que chegando ao ponto final, emoção, lágrimas nos olhos, e um sentimento de lástima, por chegar ao fim, mesclado com o privilégio de ter lido algo magnífico. Um livro digno de uma salva de palmas!