Abraçando a escuridão com H.P. Lovecraft

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Mas há um alívio, acredite. Essa combinação de horrores É H.P. Lovecraft. Ele foi maluco o bastante para criar a própria mitologia, com direito a hierarquia e coerência próprias. 

Lovecraft“Vivemos em uma plácida ilha de ignorância em meio a mares negros de infinitude, e não fomos feitos para ir longe. As ciências, cada uma empenhando-se em seus próprios desígnios, até agora nos prejudicaram pouco; mas um dia a compreensão ampla de todo esse conhecimento dissociado revelará terríveis panoramas da realidade e do pavoroso lugar que nela ocupamos” (p.64)

Não adianta fingir se acomodar na própria ignorância, argumentar ser ela uma benção disfarçada ou quaisquer outras desculpas. Feitos para ir longe ou não, nós humanos sempre buscamos algo além da nossa escassa sabedoria, muitas vezes inconscientes de potenciais consequências de um gesto a princípio tão singelo. Uma das muitas provas materiais disso é o conjunto de linhas deixado por Howard Phillips Lovecraft, cujos contos são amostras peculiares de insanidade.

Alguns de seus contos são amistosos, apenas com toques de suspense e alguma inserção de horror no cotidiano, mas servem de introduções à sua obra. A Música de Erich Zahn e Ar Frio que o digam, aquele pelo não entendido da trama e este por um grande humor ao final. Mas realmente se depara com a obra de HP Lovecraft ao encarar O Chamado de Cthulhu e sua legião.

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Não se precisa de muito, apenas um personagem dotado de grande conhecimento em algum campo da ciência e uma curiosidade ainda maior pelo que é incapaz de compreender – a figura é recorrente na obra Lovecraftiana. Pode cair uma cor próxima a uma vila, basta – lá estará o ignorado e será inevitável notar como algo tão singelo e fácil de tratar como exótico pode se apossar de atenções (e vidas).

Ou uma expedição para a parte mais longínqua e fria da Terra, denominada As Montanhas da Loucura, mesmo quando o território se opõe à intromissão humana e tenta impedi-la, a teimosia da raça é maior e ultrapassa as intempéries; a expedição descobre corpos insepultos em pleno inferno glacial, e ao analisar suas anatomias colossais, se depara com formas de vida além de sua frágil compreensão.

Mas que seres são esses? Por que têm tamanho poder sobre a vida terrestre, quais suas origens e seus fins? Se os tiverem. E se for possível entender algo sobre essas … entidades, essas crias da escuridão, talvez seja importante anotar n’algum canto para prevenir, avisar sobre essas presenças etéreas em nosso planeta. Há lendas, por vezes confiáveis e sem ares supersticiosos, de que um homem conseguiu registrar suas notas em um livro, o Necromicon, alcunhado livros dos mortos, mas há muitas incertezas em seu torno: ele sacrificou a própria sanidade durante a escrita, ele foi manipulado para a concretizar, a mera existência do livro pode ser uma mentira muito bem contada neste miasma de inexatidões, nenhum humano tem permissão para o ler. Todas verdades, todas mentiras, é inútil afirmar o limite da espécie humana – as ominosas presenças das entidades etéreas a atraem e drenam suas energias vitais, e mesmo o mais fiel relato acerca delas basta para enlouquecer!

Tal é o efeito que a fronteira entre realidade (ou que entendemos como tal) e sonho (sonho?) se distorce em buscas oníricas, e ao acordar, se acordar, se notará marcas físicas aonde elas não estavam e uma penumbra engolirá a luz. Longe, muito acima de onde se desperta, repousa o caos rastejante em seu esplendor, a espera de uma alma merecedora de o olhar de frente – sem isto significar qualquer alívio.

Mas há um alívio, acredite. Essa combinação de horrores É HP Lovecraft. Ele foi maluco o bastante para criar a própria mitologia, com direito a hierarquia e coerência próprias. Se o seu cérebro não derreter durante a leitura, é possível montar um mapa com todas as sutis referências que Lovecraft inseriu em seus contos, desde as semelhanças dos monstros a animais até os caracteres estranhos e mais difíceis de entender do que hieroglifos. Ou apenas embarcar nessa generosa antologia, com o famoso e já mencionado O Chamado de Cthulhu, O Caso de Charles Dexter Ward, Horror de Dunnwich e outros contos deste que foi um dos responsáveis por criar um material fantástico e deixar muita gente em seu rastro, de Neil Gaiman a Stephen King.

Os Melhores Contos de HP Lovecraft
741 páginas
Editora Hedra, publicado em 2014