Afogando-se em Mar Absoluto, de Cecília Meireles – Vilto Reis

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Foi desde sempre o mar, e foi desde sempre o poema que abre com este verso o meu preferido de Cecília Meireles. Quando o li pela primeira vez, procurava versos de qualquer escritor que tivesse falado sobre o mar; meu objetivo era construir uma dialógica com um personagem de fantasia que eu havia criado, uma figura de um conto que em determinado momento surge à protagonista quando ela está na praia. O ponto é que em minhas andanças literárias absurdas, deparei-me com Mar Absoluto, da Cecília – é válido acrescentar que até então, eu não havia lido nada dela. Minha reação ao ler o poema pode ser comparada àquelas caras de espanto após um susto. Eu estava em choque. A concisão e a poética daqueles versos induziram-me a parar de procurar, levando-me a macular a estética de Cecília, colocando os versos naquele meu malogrado conto de escritor iniciante.

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Alguns dicionários ao se referirem à palavra “afogar” trazem definições como: “fazer morrer embaixo da água”, “reprimir”, “sufocar”, “oprimir”, “sobrecarregar”, “submergir”, entre outras. Confesso que me sinto um pouco constrangido pelo título que dei a este pequeno ensaio, pois a sensação que tenho ao ler Mar Absoluto poderia se associar apena à última definição que citei, submergir. Seu verso inicial, Foi desde sempre o mar, transmite uma paz, uma incontestabilidade, que me lembra da literatura oriental, de uma poesia de leveza, nada da tradicional ironia da literatura brasileira, ou das brincadeiras do Quintana, ou das rimas forçadas, como em alguns poemas, onde a única coisa que parece importar é a sonoridade, não a subjetividade do poema. Ao bailar por estes versos de Cecília, sinto-me como se há poucos segundos estivesse na areia da praia, contemplando a amplidão deste universo selvagem que está a minha frente, mas de repente, não tenho mais medo, não temo o touro selvagem; como a poetisa diz: A solidez da terra, monótona,/ parece-nos fraca ilusão./ Queremos a ilusão grande do mar,/ multiplicada em suas malhas de perigo/. Então, sem hesitar, começo a caminhar, adentrando a imensidão azul, sendo ao mesmo tempo engolido por ela e andando sobre as águas, como se as duas coisas fossem fisicamente possíveis; e neste poema são, pois elas estão acima das leis da física.

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E como não falar da solidão destes versos? A força poética me lembra Kafka, um estar só que supera tudo, talvez combinado com a literatura de Murakami, em que os personagens vivem solitários. Em Mar Absoluto, no entanto, esta sensação está potencializada e explicitamente exposta nesta estrofe: “Queremos a sua solidão robusta,/ uma solidão para todos os lados,/ uma ausência humana que se opõe ao mesquinho formigar do mundo,/ e faz o tempo inteiriço, livre das lutas de cada dia”. Os versos soam quase como um apelo ao mundo, um pedido de socorro às pessoas que estão próximas, para que se afastem. Tenho uma relação especial com este momento, pois no decorrer da minha vida sempre fui alguém que conviveu em grupos. Ao me criar no contexto da fé cristã, em vários momentos estive envolvido pelo sentimento de comunidade; o que me colocava numa programação infinita de atividades “tribais”. Algo, porém, marca-me em minha trajetória, principalmente em acampamentos, quando passei, às vezes, três dias, o tempo todo, cercado por outras pessoas; eu acumulava uma urgência por solidão; traduzida em momentos de isolamento, onde eu recuperava certa sanidade, geralmente bem cedo, pois costumo acordar antes dos outros. Citei esta situação para referenciar minha identificação com a estrofe destacada deste poema. Quando Cecília parece implorar por “uma ausência humana que se opõe ao mesquinho formigar do mundo”; somente quem alimenta o mesmo desejo por solidão pode entender. É um estar só que nos livre das “lutas de cada dia”, que pode ser traduzido, em minha concepção, como o quanto nos tornamos mais problemáticos quando estamos perto de outras pessoas; ansiosos com o que os outros estão pensando de nós; e pouco preocupados em desenvolver uma própria linha de pensamente, insciente.

É a solidão que sempre busquei.

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Minha estrofe preferida do poema é esta: “O mar é só mar, desprovido de apegos,/ matando-se e recuperando-se,/ correndo como um touro azul por sua própria sombra,/ e arremetendo com bravura contra ninguém,/ e sendo depois a pura sombra de si mesmo,/ por si mesmo vencido. É o seu grande exercício”. Parece-me o ponto nevrálgico do poema. Se existe uma tensão, ela é disparada ao chegar neste ponto, em que a grande poetisa, e só ela poderia exclamar desta forma, diz que “O mar é só mar”; este descaso com a vida e o que está ao redor dela me lembra de Saramago, embora este tenha se afirmado literariamente bem depois que esta faleceu. A postura de entendimento, reflexão, aceitação e harmonia na forma como o mundo gira parece estar contida em meio verso, uma partícula de sabedoria compactada em cinco palavras.  O que vem a seguir, o segundo verso, lembra um ir e vir de ondas, o que no palavrear de Cecília é o “matando-se e recuperando-se”. Se é dito que uma onda morre na praia, a poeta a ressuscita, pois ela diz que a onda se recupera. Simples, poético e mar, “é só mar”. Mas a metáfora maior, ou pelo menos a que mais me impressiona, é a que está no terceiro verso desta estrofe: “correndo como um touro azul por sua própria sombra”. Um touro azul? E ainda por sua própria sombra? É a metáfora mais absurda e impossível de ser contestada que já li. Simplesmente, não há o que falar, é preciso sentir, sentir que este touro corra em sua própria sombra. A sequência afunila nos versos finais da estrofe, terminando com um brilhante: “É o seu grande exercício”.

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O último ponto que me cabe ressaltar é alguns comentários a respeito da possível interpretação de suicídio dentro do poema. Duas estrofes em especial trazem estes trechos: “Não me chama para que siga por cima dele,/ nem por dentro de si:/ mas para que me converta nele mesmo. É o seu máximo dom./ […] Aceita-me apenas convertida em sua natureza:/ plástica, fluida, disponível,/ igual a ele, em constante solilóquio,/ sem exigências de princípio e fim,/ desprendida de terra e céu”. Penso que se a intenção do poema fosse falar de suicídio, Cecília não diria que o mar não a chama para andar por cima ou por dentro dele, destacando que o pedido é “que me converta nele mesmo.”; vindo depois uma sequência que parece sugerir uma integração de matéria, ou um todo pertencer, típica ideologia das religiões orientais, ou do panteísmo. Na verdade, o que defendo é que ela o ame, talvez platonicamente, por ele ser “sem exigências de princípio e fim,/ desprendida de terra e céu”.

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Eu poderia no fim deste texto apresentar uma conclusão analítica, mas resolvi ressaltar apenas que li vários poemas de Cecília Meireles, mas igual a Mar Absoluto não encontrei nenhum, algo que não é nenhum demérito à poetisa, afinal é uma obra prima, o que coloca Mar Absoluto em minha lista de preferências ao lado de O Corvo, de Edgar Allan Poe, e Uivo, de Allen Ginsberg, como meu poema favorito.

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Abaixo você pode conferir o poema na íntegra, o que é bem mais proveitoso do que ler apenas minhas palavras.

 

Mar Absoluto

Foi desde sempre o mar,
E multidões passadas me empurravam
como o barco esquecido.

Agora recordo que falavam
da revolta dos ventos,
de linhos, de cordas, de ferros,
de sereias dadas à costa.

E o rosto de meus avós estava caído
pelos mares do Oriente, com seus corais e pérolas,
e pelos mares do Norte, duros de gelo.

Então, é comigo que falam,
sou eu que devo ir.
Porque não há ninguém,
tão decidido a amar e a obedecer a seus mortos.

E tenho de procurar meus tios remotos afogados.
Tenho de levar-lhes redes de rezas,
campos convertidos em velas,
barcas sobrenaturais
com peixes mensageiros
e cantos náuticos.

E fico tonta.
acordada de repente nas praias tumultuosas.
E apressam-me, e não me deixam sequer mirar a rosa-dos-ventos.
“Para adiante! Pelo mar largo!
Livrando o corpo da lição da areia!
Ao mar! – Disciplina humana para a empresa da vida!”
Meu sangue entende-se com essas vozes poderosas.
A solidez da terra, monótona,
parece-nos fraca ilusão.
Queremos a ilusão grande do mar,
multiplicada em suas malhas de perigo.

Queremos a sua solidão robusta,
uma solidão para todos os lados,
uma ausência humana que se opõe ao mesquinho formigar do mundo,
e faz o tempo inteiriço, livre das lutas de cada dia.

O alento heróico do mar tem seu pólo secreto,
que os homens sentem, seduzidos e medrosos.

O mar é só mar, desprovido de apegos,
matando-se e recuperando-se,
correndo como um touro azul por sua própria sombra,
e arremetendo com bravura contra ninguém,
e sendo depois a pura sombra de si mesmo,
por si mesmo vencido. É o seu grande exercício.

Não precisa do destino fixo da terra,
ele que, ao mesmo tempo,
é o dançarino e a sua dança.

Tem um reino de metamorfose, para experiência:
seu corpo é o seu próprio jogo,
e sua eternidade lúdica
não apenas gratuita: mas perfeita.

Baralha seus altos contrastes:
cavalo, épico, anêmona suave,
entrega-se todos, despreza ritmo
jardins, estrelas, caudas, antenas, olhos, mas é desfolhado,
cego, nu, dono apenas de si,
da sua terminante grandeza despojada.

Não se esquece que é água, ao desdobrar suas visões:
água de todas as possibilidades,
mas sem fraqueza nenhuma.

E assim como água fala-me.
Atira-me búzios, como lembranças de sua voz,
e estrelas eriçadas, como convite ao meu destino.

Não me chama para que siga por cima dele,
nem por dentro de si:
mas para que me converta nele mesmo. É o seu máximo dom.
Não me quer arrastar como meus tios outrora,
nem lentamente conduzida.
como meus avós, de serenos olhos certeiros.

Aceita-me apenas convertida em sua natureza:
plástica, fluida, disponível,
igual a ele, em constante solilóquio,
sem exigências de princípio e fim,
desprendida de terra e céu.

E eu, que viera cautelosa,
por procurar gente passada,
suspeito que me enganei,
que há outras ordens, que não foram ouvidas;
que uma outra boca falava: não somente a de antigos mortos,
e o mar a que me mandam não é apenas este mar.

Não é apenas este mar que reboa nas minhas vidraças,
mas outro, que se parece com ele
como se parecem os vultos dos sonhos dormidos.
E entre água e estrela estudo a solidão.

E recordo minha herança de cordas e âncoras,
e encontro tudo sobre-humano.
E este mar visível levanta para mim
uma face espantosa.

E retrai-se, ao dizer-me o que preciso.
E é logo uma pequena concha fervilhante,
nódoa líquida e instável,
célula azul sumindo-se
no reino de um outro mar:
ah! do Mar Absoluto.