Conto: Agosto, Natal de Carol – 14 anos

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NatalHoje ao acordar minha surpresa foi gigantesca. Olhando por entre a máscara de respiração e os inúmeros canudos transparentes que vinham para dentro de minha boca e veias no braço pude enxergar algum brilho diferente no ar.

As vibrações das vozes diziam ao meu cérebro que alguma magia estava acontecendo e era real, nada de alucinações. Tudo em uma época errada do ano!

Um choro de alegria e tristeza podia ser ouvido, mas já estava acostumada com aquilo. Era minha mãe ao canto da janela, olhando para baixo. Vistos do terceiro andar os carros e ambulâncias que entravam e saiam diariamente do hospital davam algum tipo de esperança a ela. No entanto, naquele dia ela chorava mais descontrolada e era perceptível em seu olhar, que se movimentavam de forma perdida: algo estava diferente, algo estava milagrando.

O calor sonoro me abraçava, a força vocal que ecoava me consumia, apertava e dava alento. Meu coração se enchia de alegria, aquele era o dia mais feliz de minha vida. Em coro, vozes natalinas cantavam em agosto…

– O que? Por que disso? A época do ano está errada! – pensava ao mesmo tempo em que tentava suportar a ardência por abrir os olhos… fazia muito tempo que não os usava.

– A carta, minha filha… a carta que escrevi! – falou baixinho minha mãe.

Dias antes tinha chegado a mim a notícia que duas semanas seria o máximo que meu corpo aguentaria. Não mais que quinze dias e eu não estaria mais nesse mundo… entre os que amo! Depois daquele tempo seria apenas eu em forma pós-morte, talvez em espírito, talvez em forma de nada… quem sabe. Mas, apesar da péssima notícia chorei instantaneamente e desesperada por outro motivo. Perguntaram-me esperando uma resposta óbvia, mas respondi de forma inusitada.

– Por que chora?

– Porque não verei o natal esse ano! Adoro as músicas, o clima de amor e ajuda ao próximo que colore o coração das pessoas. Mas, como não dá pra ter isso o ano todo, aproveito ao máximo durante a época natalina… e agora, Doutora, você me disse que não terei natal este ano!

Meus pais ficaram perplexos, não menos que a Doutora Marília. Apenas depois de alguns instantes digerindo aquela informação, só então, ao final, todos compreenderam em silêncio e esperaram meu pranto passar.

Oito dias se foram desde aquela notícia. O consultório e minhas calças jeans deram lugar a uma camisola hospitalar e um quarto com filtros de ar para todo lado. Infelizmente a médica errou ao me dar duas semanas de vida ainda… acredito que hoje seja o dia!

Minha mãe escreveu uma carta e a leu em frente a uma webcam. Depois postou o vídeo numa rede social. Eu o assisti e achei que nada aconteceria, pois minha mãe simplesmente avisava aos meus amigos que eu não voltaria para a escola naquele semestre. Falou que pensou no vídeo como a forma mais rápida e eficiente de informar a todos sobre minhas condições… e de fato foi mesmo. Ela chegou até a comentar brevemente sobre o que aconteceu quando recebi a data de minha partida eterna.

Hoje pode até ser o dia que não acordarei depois de meu próximo cochilo, mas também é hoje, em pleno mês de agosto, que o natal aconteceu. Dois médicos, e três enfermeiros altos e fortes chegaram de supetão. Foram até mim e cochicharam ao meu ouvido, pediam algo que concordei. Logo minha cama foi arrastada até a janela e me cobriram, abriram o vidro e colocaram dois grandes pedaços de espelho de forma a me proporcionar a vista do lado de fora, mesmo deitada. Imagino a bronca que esses enfermeiros levarão depois de descobrirem que há dois banheiros com espelhos quebrados…

O estacionamento lateral do hospital estava tomado por pessoas de todas as cores, casacos, goros, cachecóis, todos vestidos a caráter. Amigos que realmente me conheciam eram muitos, e que não me conheciam pessoalmente eram centenas! A cantoria eram hinos de natal repetidos incessantemente. Muitos sorriam, e muito mais pessoas chorando… foi o que minha mãe disse.

Eu não conseguia ficar muito tempo de olhos abertos, fotossensibilidade… vi pouco! Mas, isso não importava, o que senti me fez encher o peito de alegria. Aquilo se estendeu por meia hora ainda, até a direção do hospital acabar com tudo e expulsar meu anjos cantores do estacionamento.

Eu não sabia… mas estava nos meus dez minutos finais de vida. Tempo mais que suficiente para fazer um pedido sob muito sacrifício a minha mãe. Solicitei que fizesse uma foto minha, ali, naquela hora, da forma que eu estava, que capturasse minha alegria, e postasse na mesma rede social que postou seu vídeo-carta, e colocasse junto à imagem a frase que ditei.

Espero que ela tenha feito isso, nunca terei certeza.

Um “eu te amo” foi a última coisa que consegui…

 

A foto foi postada com a frase:
A todos muito obrigada.
E apenas espero que o que sentiram por mim
possa ser sentido o ano todo e a todas as pessoas!

 ***

Ilustração de Marcela Renata Ramos.