“Ainda estou aqui”, de Marcelo Rubens Paiva

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Marcelo Rubens Paiva nos traz um relato particularíssimo que tem como ponto de partida um episódio recente da história brasileira, o qual se liga de modo inequívoco à sua vida pessoal e à de sua família

Marcelo-Rubens-Paiva

O jornalista, escritor e dramaturgo Marcelo Rubens Paiva, que se tornou largamente conhecido do público brasileiro a partir de seu livro de estreia – Feliz ano velho –, nos traz agora, em texto de prosa segura e fluente, um relato particularíssimo que tem como ponto de partida episódio recente da história brasileira, episódio que se liga de modo inequívoco à sua vida pessoal e à de sua família. É com uma escrita madura em que se alternam emoção, ironia e humor que autor constrói, no recém-lançado Ainda estou aqui, uma narrativa que se acompanha com prazer, a despeito dos temas pesados de que trata: o desaparecimento do pai, o político Rubens Paiva, e a doença da mãe, a advogada Eunice Paiva, portadora do mal de Alzheimer.

Ao relembrar fatos, delicadas lembranças da infância, memórias antigas e novíssimas, Marcelo como que tenta, à maneira da personagem de Machado de Assis, “atar as duas pontas da vida” – a do pai desaparecido e a da mãe, cuja “reinvenção” como chefe de família e profissional vai revelar uma mulher inteligente e madura que, no início da velhice, e após uma vida de desafios e duras reviravoltas, se torna vítima de uma doença que lhe rouba a memória e a lucidez.

No primeiro capítulo – que vai dar o tom de todo o texto e que se inicia com uma reflexão sobre a memória, num entrelaçamento elegante das presenças de seu filho pequeno, de sua mãe idosa e da recorrente lembrança do pai –, Marcelo narra o ato de interdição judicial da mãe, já acometida pela demência. É assim que, alinhavando as dolorosas etapas da doença da mãe e a história do pai, o autor vai tecendo um quadro de lembranças amorosas de sua infância, juventude e maturidade, em que ganham destaque, para sua família, as mudanças impostas pelo desaparecimento do homem e do político Rubens Paiva e do rumo que as vidas a ele ligadas são forçadas a tomar. Sobressai assim, nessa trama agridoce, o retrato acurado de um duro momento da história do Brasil.

A frase que dá título ao livro, dita pela mãe enferma em situações em que as emoções são inomináveis – Ainda estou aqui –, soa-nos como emblemática da resistência que marcou sua vida. No perfil que o autor traça da mulher admirável que é Eunice Paiva há um orgulho indisfarçável, e o relato dessa trajetória, permeada de vitórias e reveses, vem pontuado por uma emoção que a custo se contém, e por inúmeros e bem dosados toques de humor.

Ainda que o propósito do livro – plenamente alcançado – seja traçar esse retrato corajoso da mulher que, aos 41 anos, se deparou com a violência do regime militar e, sozinha, se viu responsável pela criação de cinco filhos, é a lembrança do pai, que paira sobre todas as coisas, lembrança indelével, impositiva, dolorosamente presente:  seu sequestro e consequente tortura e morte nas mãos de agentes do exército vão definir para sempre, e de forma contundente, as vidas que, desnorteadas por seu desaparecimento, tiveram de se reinventar, e seguir – apesar do silêncio oficial, da espera interminável (e inútil) por uma resposta sobre o paradeiro do corpo, da saudade, das grandes e pequenas dificuldades do dia a dia, do recebimento de seu registro de óbito, 25 depois do assassinato, e do processo contra os militares acusados de seu homicídio e da ocultação de seu cadáver.

Com sua prosa envolvente, o autor nos leva por um caminho de encanto e tristeza ao revelar um dos mais revoltantes crimes da ditadura militar, por anos encoberto; aos poucos vão-se juntando os fatos que dimensionam e esclarecem a verdadeira história por trás da história oficial. As memórias que o autor compartilha com o leitor revelam não mais apenas o cidadão cassado, barbaramente trucidado no período do arbítrio: o que surge inteiro é o homem – o pai de família, marido, filho, amigo – que, num dia de sol, foi levado de casa e nunca mais voltou.

É com o coração apertado que esperamos um desfecho que não vem, sentimento que Marcelo, ao falar da nova etapa da doença da mãe, expressa de forma pungente nas últimas linhas do livro: “Sua vida tem muitos atos. Teremos mais um. Enquanto a morte do meu pai não tem fim.”