Ainda há o que se escrever sobre ‘A Metamorfose’, de Kafka?

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Embora resenhada e comentada inúmeras vezes pelas mais diversas pessoas, a obra A Metamorfose, de Franz Kafka, sempre deixa novas impressões e reflexões aos seus leitores

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Ilustração: John Foster Dyess

Há quem torça o nariz quando encontra nas páginas literárias da internet ou em revistas alguma matéria ou resenha sobre A Metamorfose, a obra mais famosa do escritor tcheco Franz Kafka. Muito já se escreveu sobre essa história simples, sem floreios, que economiza páginas ao se apresentar sem rodeios narrativos desnecessários. O leitor mergulha na história e já nem lhe interessam as causas dessa metamorfose, mas o que acontecerá dali para frente.

Se a técnica literária dessa novela já foi tão explorada e até se reconhece sua inovação e importância para a literatura mundial, o que ainda há para se escrever sobre A Metamorfose? Eu prefiro comentar sobre as impressões e reflexões que esta obra provoca. Confesso que o final da leitura me impressionou mais que o início. É uma versão da parábola da vaca no penhasco.

Esta parábola que citei conta a história de um mestre que recebe abrigo numa casinha velha no alto de um penhasco. A comida era escassa e a família não tinha dinheiro para nada. O dono da casa revelou que a fonte de alimentação provinha de uma única vaca da qual tiravam leite e seus subprodutos e o excedente era usado para trocar por comida no vilarejo vizinho.

Quando foi embora, o mestre voltou de noite e empurrou a vaca do penhasco. Alguns anos depois, o mestre retornou àquela mesma casa e a situação que encontrou foi outra. A casa estava reformada e ampliada e ninguém passava fome. O mestre quis saber como se deu a mudança e o dono da casa disse que numa manhã a vaquinha tinha caído do penhasco e sem ter com o que se sustentar, todos procuraram trabalho, desenvolveram suas capacidades e hoje a família vivia melhor do que quando dependiam da vaquinha.

Basta ler A Metamorfose para ver como ela se encaixa nessa história. Gregor era a vaquinha leiteira em que sua família se encostava. Ele não caiu de um penhasco, mas acordou no corpo de um inseto gigante e não conseguiu mais trabalhar. Quando sua família percebeu que a vaca foi chutada do penhasco, ou melhor, transformou-se num inseto, saíram para trabalhar e tal qual a parábola, se descobriram vivendo melhor que antes. Dá para sentir dó da vaca que se esborrachou do alto do penhasco, mas senti ainda mais dó de Gregor. Eu não esperava que o final dele fosse o que foi.

E o que mais você escreveria sobre A Metamorfose?