Albert Camus e a esperança em tempos difíceis

Afinal, o que os romances e obras filosóficas de Albert Camus podem nos ensinar sobre a esperança em tempos absurdos e hostis como os nossos?
a esperança e o absurdo
Albert Camus

A morte prematura de Albert Camus não apagou o traço mais importante da sua obra, a esperança. De fato, ele nos ensina que ela é a única coisa que nos resta em tempos difíceis.

 

O estrangeiro

Em O estrangeiro, somos apresentados a Merseult, sua vida e os absurdos que a rondam. No entanto, quanto mais avançamos, menos compreendemos o mundo.

Após matar um árabe sem razão aparente, Merseult passa por um julgamento. Contudo, é um julgamento menos sobre o fato do que moral. Assim, Albert Camus nos apresenta a um fato que adoramos ignorar: a nossa própria mesquinhez moral.

De fato, Merseult se sente deslocado durante toda a narrativa. Seu julgamento e o desenrolar dele não fazem nenhum sentido. Ele se sente confuso até que somos apresentados a sua iluminação final antes da morte.

“Pela primeira vez, há muito tempo, pensei na minha mãe. Julguei ter compreendido porque é que, no fim de uma vida, arranjara um “noivo”, porque é que 85 fingira recomeçar. Também lá, em redor desse asilo onde as vidas se apagavam, a noite era como uma treva melancólica. Tão perto da morte, a minha mãe deve ter-se sentido libertada e pronta a tudo reviver. Ninguém, ninguém tinha o direito de chorar sobre ela. Também eu me sinto pronto a tudo reviver. Como se esta grande cólera me tivesse limpo do mal, esvaziado da esperança, diante desta noite carregada de sinais e de estrelas, eu abria-me pela primeira vez à terna indiferença do mundo. Por o sentir tão parecido comigo, tão fraternal, senti que fora feliz e que ainda o era. Para que tudo ficasse consumado, para que me sentisse menos só, faltava-me desejar que houvesse muito público no dia da minha execução e que os espectadores me recebessem com gritos de ódio.” (p. 126)

É irônico vermos um lampejo de esperança no final. Albert Camus nos obriga a encarrar a compreensão de Merseult nos seus últimos momentos. O horror e o nada nos cerca. Somos resultado disso e não há saída.

 

Esperança negativa

Pode parecer estranho, porém Merseult nos apresenta a algo totalmente novo e estranho: a esperança negativa ou absurdo.

Assim, apesar do nome estranho, o que Camus quer dizer com isso é que a vida em si é um absurdo. Logo, a única questão real que o ser humano deve propor a si mesmo é o suicídio.

“Só existe um problema filosófico realmente sério: o suicídio. Julgar se a vida vale ou não a pena ser vivida é responder a pergunta fundamental da filosofia. O resto, se o mundo tem três dimensões, se o espirito tem nove ou doze categorias, vem depois.” (p. 17)

Se não há razão para a existência, como Albert Camus propõe com o absurdismo, e o mundo é cínico e cruel como apresentado em O estrangeiro, existe alguma maneira de sentir esperança?

 

O mito de Sísifo e o absurdo

Albert Camus viveu um dos períodos mais tensos e trágicos do último século: a ascensão de Hitler. Como franco-argelino, lutou na resistência francesa contra a invasão alemã. Deste contexto saíram duas grandes obras, O mito de Sísifo e A peste.

O primeiro é um livro de ensaios no qual Camus nos apresenta a questão fundamental citada acima. Vale a pena viver? Há algum sentido nela? Por que não cometemos suicídio?

Apesar de parecer mórbidas, as perguntas têm um cunho positivo, ou melhor, uma esperança negativa. Albert Camus nos oferece a metáfora de Sísifo, um titã condenado a rolar uma pedra montanha acima eternamente mesmo que, ao chegar ao topo, saiba que ela rolará para baixo e ele terá de refazer o trabalho novamente.

Aqui somos apresentados ao absurdo como um modo de vida. Se nada faz sentido, por que nos preocuparmos com o que não importa? Camus nos apresenta a possibilidade do nada como um caminho para fazer algo bom pelo simples fatos de que estarmos aqui, não importando se o mundo é bom ou ruim.

 

A peste

Já em A peste, acompanhamos uma vila no norte na África, a qual foi atingida pela peste bubônica.

Alegórico, o romance trata das várias questões relacionadas ao destino humano. Assim, a condição humana nos é apresentada numa situação limite. No entanto, ao contrário de José Saramago em Ensaio sobre a cegueira, a visão de Camus é positiva.

A metáfora para a invasão alemã na segunda guerra é clara. Albert Camus propõe que devemos nos ajudar e cooperar apesar das dificuldades. Não há nada que nos obrigue a ajudar um ao outro, contudo, se podemos fazê-lo, há sempre esperança.

Os habitantes de Oran suportam todos os obstáculos do isolamento e da doença, ajudando uns aos outros, indiferentes ao resto. Assim, vemos que a humanidade, por pior que seja, pode ainda fazer algo de bom para si. Ela não necessita de grandes razões para tanto – já que elas não existem. Antes, a possibilidade de aproveitar a chance de fazer algo bom para todos (incluindo a si mesmo) é um ótimo começo.

 

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Dessa forma, Albert Camus nos faz refletir que a esperança não necessita de grandes sistemas filosóficos ou de sistemas morais complexos. Ela não precisa nem ao menos ser supervalorizada. Assim, o que se deve valorizar é a possibilidade da sua existência.

Portanto, a humanidade não tem nada de especial, logo devemos aproveitar não só as grandes coisas, mas também as pequenas. Provavelmente, os problemas e as questões sempre existirão, claro, contudo apenas focar neles, sem tentar ver o poder de união e suas possibilidades advindas de algo ruim, não nos levará a nada.

Enfim, Albert Camus nos convida a ter esperança pelo simples fato dela poder existir. Assim, se não cometemos o suicídio e persistimos em viver, por que tornar as coisas piores? Por que não nos unirmos para algo bom para todos?

José Figueiredo Autor

editor-chefe do homoliteratus, podcaster (30:MIN), mestrando em teoria da literatura (UFRGS), autor de "Há um tubarão na piscina" (2018)