Alucinadamente feliz chega ao Brasil

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Em seu “livro engraçado sobre coisas horríveis”, Jenny Lawson usa a escrita para dialogar sobre transtornos mentais  

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Famosa na blogosfera por seu humor ácido, a americana Jenny Lawson fez uma bem-sucedida incursão no mundo literário quando lançou Vamos fazer de conta que isso nunca aconteceu (2012), mescla de ensaios e histórias reais. Neste primeiro livro, Lawson nos fala sobre as situações mais embaraçosas que já viveu – muitas delas envolvendo taxidermia, uma de suas estranhas paixões.

Sua nova obra mantém a escrita descontraída e o sarcasmo sem limites, mas trata de temas muito mais sérios. Jenny sofre com diversos transtornos mentais: depressão, ansiedade, transtornos de personalidade, compulsões e distúrbio de automutilação. Ela fala abertamente sobre como é difícil manter-se ativa quando está em crise e divide conosco seus pensamentos mais obscuros. No entanto, esse não é o foco da obra; como o título sugere, a autora está determinada a ser “alucinadamente feliz”.

Mais do que uma sensação, essa “medida” de felicidade é uma meta determinada pela escritora. Em meio a uma depressão, Lawson perdeu um amigo querido. A tristeza deu lugar à fúria, e logo ela decidiu travar uma batalha contra sua doença: Jenny seria absurda e desenfreadamente feliz.

“Deu para ouvir? Isso sou eu sorrindo, minha gente. Estou sorrindo tanto que dá para ouvir daí. Vou destruir o maldito universo com a minha alegria irracional e vou vomitar fotos de gatinhos desastrados e cachorrinhos adotados por guaxinins e LHAMAS RECÉM-NASCIDAS FODÁSTICAS COBERTAS DE GLITTER E DE SANGUE DE VAMPIROS SENSUAIS E VAI SER INCRÍVEL.”

A partir desse momento, a escritora começou a dizer “sim” para aventuras que jamais teria aceito no passado. Era quase uma obrigação. Mesmo com medo – por vezes, em pânico – ela foi a festas e eventos, fez visitas e viagens, sempre disposta a viver uma história hilária. E, ao colocar essas aventuras no papel, a autora espera despertar um sorriso no leitor que enfrenta os mesmos demônios.

E material para riso não falta. Por vezes, é a autora quem constrói uma situação cômica (por exemplo, quando ela chega à Austrália enlouquecida para abraçar um coala, ela mesma vestida de coala). Em outros momentos, Lawson nos deixa com a certeza de que a vida dela é mesmo muito especial (boas passagens falam sobre uma vagina que chega pelo correio, uma busca desenfreada por uma cabeça de girafa empalhada e uma teoria interessante sobre biscoitos para cachorro).

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Alucinadamente feliz: um livro engraçado sobre coisas horríveis, de Jenny Lawson (Intrínseca, 2016)

Alucinadamente feliz conta com mais de 40 textos, mas é uma leitura bastante rápida. A escritora sabe captar bem o frenesi de seu dia-a-dia e reproduz suas experiências em ritmo rápido, quase frenético. Sem rebuscamento, mas muito bem amarrado, o texto de Lawson chega com jeito de diálogo íntimo e confirma o timing humorístico da autora. Um livro agradável e revelador.

Vamos fazer de conta que isso nunca aconteceu é publicado no Brasil pela editora Gutenberg e Alucinadamente feliz é um título da Intrínseca. As duas obras estão disponíveis em formato impresso e digital.

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